Depois
Capítulo 25
Quando contei a Liz tudo que Therriault tinha dito, ela ficou empolgada e mais nada. Eu entendia, não foi ela que teve que olhar para um homem que tinha estourado quase um lado inteiro da cabeça. Ela me disse que tinha que entrar no mercado para comprar uma coisa.
— Você vai me deixar aqui com ele?
— Não. Volta pela rua. Espera junto do carro. Só vou levar um minuto.
Therriault estava sentado ali me olhando com o olho que estava mais ou menos regular e com o olho que estava todo esticado. Eu sentia o olhar dele. Fez com que eu me lembrasse da vez que fui a um acampamento e peguei pulga e tive que usar um xampu especial fedorento umas cinco vezes até elas terem sumido todas.
Nenhum xampu ia resolver a sensação que Therriault provocou em mim, só ir para longe dele faria isso, então fiz o que Liz mandou. Andei até a lavanderia e olhei para a mulher lá dentro, ainda dobrando roupas. Ela me viu e acenou. Isso trouxe de volta à mente a garotinha com o buraco na garganta e o jeito como ela acenou para mim, e por um momento horrível achei que a mulher da lavanderia também estava morta. Só que uma pessoa morta não estaria dobrando roupas, só ficaria parada. Ou sentada, como Therriault. Por isso, acenei de volta para ela. E até tentei sorrir.
Em seguida, me virei de volta para a loja. Falei para mim mesmo que era para ver se a Liz já estava vindo, mas não foi por isso. Eu queria ver se Therriault ainda estava me olhando. E estava. Ele levantou a mão com a palma para cima, três dedos dobrados sobre a palma, um dedo apontando. Ele o dobrou uma e duas vezes. Lentamente. Vem aqui, garoto.
Eu voltei andando, as pernas parecendo se mover por vontade própria. Eu não queria, mas parecia que não conseguia evitar.
— Ela não liga pra você — disse Kenneth Therriault. — Nem um pouco. Nem um tiquinho. Ela está te usando, garoto.
— Foda-se, nós vamos salvar vidas. — Não tinha ninguém passando, mas, se tivesse, ele ou ela não teria me ouvido. Ele tinha roubado minha voz e só deixado um sussurro.
— Ela só quer salvar o emprego.
— Você não sabe, você não passa de um psicopata qualquer. — Ainda só um sussurro, e senti que estava quase mijando na calça.
Ele não disse nada, só sorriu. Essa foi a resposta.
Liz saiu. Ela estava com uma daquelas sacolas plásticas vagabundas que davam nos mercados na época. Ela olhou para o banco, onde o homem deformado que ela não conseguia ver estava sentado, e para mim.
— O que você está fazendo aqui, cam… Jamie? Eu falei pra você ir para o carro. — Antes que eu pudesse responder, com rapidez e severidade, como se eu fosse um criminoso em um programa policial, na sala de interrogatório: — Ele falou mais alguma coisa?
Só que você só quer salvar seu emprego, pensei em dizer. Mas acho que eu já sabia disso.
— Não. Quero ir pra casa, Liz.
— Nós já vamos. Já vamos. Assim que eu fizer mais uma coisa. Duas, na verdade. Também tenho que limpar sua sujeira do meu carro. — Ela passou o braço nos meus ombros (como uma boa mãe faria) e me levou andando até a lavanderia. Eu teria acenado para a moça dobrando roupas de novo, mas ela estava de costas.
— Eu armei uma coisa. Não achei que fosse ter a oportunidade de usar, mas graças a você…
Quando chegamos no carro, ela tirou um celular de flip da sacola. Ainda estava na embalagem. Eu encostei na vitrine de um sapateiro e a vi mexer até conseguir ligar. Eram quatro e quinze. Se minha mãe fosse beber com a Barbara, nós ainda poderíamos chegar antes de ela voltar… mas será que eu conseguiria guardar as aventuras da tarde só para mim? Eu não sabia e, naquele momento, não me pareceu importante. Eu queria que Liz tivesse pelo menos levado o carro até depois da esquina, achava que ela podia muito bem continuar sentindo o cheiro do meu vômito por mais um tempo depois do que fiz por ela, mas ela estava animada demais. Além do mais, tinha a bomba a considerar. Pensei em todos os filmes que tinha visto em que o relógio está fazendo a contagem regressiva e o herói está pensando se deve cortar o fio vermelho ou o azul.
Agora, ela estava ligando.
— Colton? Sim, sou eu… cala a boca e escuta. Está na hora de agir. Você me deve um favor, um favor grande, e é agora que eu vou cobrar. Vou te dizer exatamente o que dizer. Grava e… eu falei cala a boca!
Ela falou com tanta maldade na voz que dei um passo para trás. Eu nunca tinha ouvido Liz falar assim e percebi que a estava vendo pela primeira vez em sua outra vida. A vida policial, na qual ela lidava com filhos da puta trapaceiros o tempo todo.
— Grava, depois escreve e me liga de volta. Faça isso agora mesmo.
Ela esperou, dei uma olhada na direção da loja. Os dois bancos estavam vazios. Isso devia ter sido um alívio, mas não me senti aliviado.
— Está pronto? Tudo bem. — Liz fechou os olhos e isolou tudo, menos o que ela queria dizer. Ela falou lenta e cuidadosamente. — “Se Ken Therriault era mesmo Thumper…” Vou interromper aí e dizer que quero gravar. Você espera até eu dizer “Tudo bem, começa de novo”. Entendeu? — Ela escutou até Colton, quem quer que fosse, dizer que tinha entendido. — Você diz: “Se Ken Therriault era mesmo Thumper, ele vivia falando em terminar onde tinha começado. Estou ligando porque a gente conversou em 2008. Eu guardei seu cartão”. Anotou isso? — Outra pausa. Liz assentiu. — Que bom. Vou perguntar quem é e você desliga. Desliga na mesma hora, o tempo é essencial. Se você fizer merda, vou te foder de vez. Você sabe que eu posso fazer isso.
Ela encerrou a ligação. Andou de um lado para o outro da calçada. Dei outra olhada na direção dos bancos. Vazios. Talvez Therriault, o que quer que tivesse restado dele, estivesse indo para casa, para ver como estava a cena no bom e velho Frederick Arms.
A batida de “Rumor Has It” soou no bolso do blazer da Liz. Ela pegou o celular que era o dela mesmo e atendeu. Ouviu e disse:
— Espera, quero gravar isso. — Ela começou a gravar e falou: — Tudo bem, começa de novo.
Quando o roteiro foi todo executado, ela encerrou a ligação e guardou o celular.
— Não é tão sólido quanto eu gostaria, mas alguém vai ligar?
— Provavelmente não depois que encontrarem a bomba — falei. Liz levou um pequeno susto e percebi que ela estava falando sozinha. Agora que eu tinha feito o que ela queria, eu não passava de um estorvo.
Ela tinha um rolo de toalhas de papel e uma lata de aromatizador de ambientes na bolsa. Ela limpou meu vômito, jogou no bueiro (a multa para jogar lixo no chão é de cem dólares, descobri depois) e borrifou o carro com uma coisa que tinha cheiro de flores.
— Entra — disse ela.
Eu estava de costas para não ter que olhar para o que restava do meu ravióli do almoço (no que dizia respeito a limpar a sujeira, eu achava que ela me devia aquilo), mas, quando me virei para entrar no carro, vi Kenneth Therriault parado junto ao porta-malas. Tão perto que dava para esticar a mão e tocar em mim, e ainda sorrindo. Eu poderia ter gritado, mas, quando o vi, eu estava entre uma respiração e outra e meu peito não conseguiu se expandir para a inspiração seguinte. Foi como se todos os meus músculos tivessem ficado dormentes.
— A gente se vê — disse Therriault. O sorriso se alargou e vi um pedaço de sangue coagulado entre os dentes e a bochecha. — Campeão.