Depois
Capítulo 13
Levou uma hora e meia e, quando acabamos, eu estava exausto e acho que minha mãe também. O sr. Thomas estava igual a quando começamos, parado com aquela faixa amarela lamentável caindo por cima da pança e do short meio caído. Liz parou o carro no centro do portão aberto com a luz do painel ligada, o que deve ter sido uma coisa boa, porque a notícia da morte do sr. Thomas tinha começado a se espalhar e tinha gente aparecendo na porta para tirar fotos do Chalé dos Paralelepípedos. Uma vez, ela voltou para perguntar quanto tempo a gente ia demorar e minha mãe fez sinal para ela ir embora, mandou que ela fosse inspecionar o terreno ou qualquer outra coisa, mas, na maior parte do tempo, Liz resistiu.
Foi tão estressante quanto foi cansativo, porque nosso futuro dependia do livro do sr. Thomas. Não era justo eu ter que carregar o peso daquela responsabilidade, não aos nove anos, mas não havia escolha. Eu tinha que repetir tudo que o sr. Thomas dizia para a minha mãe, ou melhor, para os dispositivos de gravação da minha mãe, e o sr. Thomas tinha muita coisa a dizer. Quando ele me disse que conseguia guardar tudo na cabeça, ele não estava só se gabando. E minha mãe ficou fazendo perguntas, a maioria para esclarecer coisas. O sr. Thomas não pareceu se importar (não pareceu ligar, na verdade), mas o jeito como a minha mãe estava arrastando as coisas começou a me deixar meio puto. Além do mais, minha boca ficou seca demais. Quando a Liz levou para mim o resto dela da coca do Burger King, eu tomei os poucos goles e dei um abraço nela.
— Obrigado — falei, devolvendo o copo de papel. — Eu precisava disso.
— De nada.
Liz tinha parado de fazer cara de tédio. Agora, ela estava com cara pensativa. Ela não conseguia ver o sr. Thomas, e acho que ela não acreditava totalmente que ele estivesse ali, mas ela sabia que tinha alguma coisa acontecendo, porque ela tinha ouvido um garotinho de nove anos relatando um enredo complicado com uns seis personagens importantes e pelo menos uns vinte e poucos secundários. Ah, e um ménage (sob a influência da planta Phalaris aquática oferecida por um nativo americano gentil do Povo Nottoway) envolvendo Martin Betancourt, Purity Betancourt e Laura Goodhugh. Que acabou ficando grávida. A pobre Laura sempre se fodia mais que todo mundo.
No final do resumo do sr. Thomas, o grande segredo foi revelado e era uma coisa incrível. Não vou contar o que era. Leia o livro e descubra por sua conta. Se você já não leu, claro.
— Agora vou dizer a última frase — disse o sr. Thomas. Ele parecia tão vigoroso quanto antes… se bem que “vigoroso” talvez seja a palavra errada para se usar com uma pessoa morta. Mas a voz dele tinha começado a ficar mais baixa. Só um pouco. — Porque eu sempre escrevo isso primeiro. É o farol pra onde eu remo.
— Agora vem a última frase — avisei minha mãe.
— Graças a Deus — disse ela.
O sr. Thomas levantou um dedo, como um ator de antigamente se preparando para ler seu grande discurso.
— “Naquele dia, um sol vermelho se pôs no povoado deserto, e a palavra entalhada que intrigaria gerações ardeu como se delineada em sangue: CROATOAN.” Diz pra ela que é croatoan em letras maiúsculas, Jimmy.
Eu falei para ela (apesar de não saber exatamente o que “delineada em sangue” queria dizer) e perguntei ao sr. Thomas se tínhamos acabado. Na hora que ele disse que sim, ouvi uma sirene rápida na frente da casa, dois sons longos e um curto.
— Ah, Deus — disse Liz, mas não com pânico na voz; foi mais como se ela estivesse esperando. — Lá vamos nós.
Ela estava com o distintivo preso no cinto e abriu a jaqueta para que ficasse visível. Em seguida, foi até a frente e voltou com dois policiais. Eles também estavam de jaquetas, mas com patches da Polícia do Condado de Westchester.
— Sebo nas canelas, é a polícia — disse o sr. Thomas, e não entendi nada. Depois, quando perguntei para a minha mãe, ela me disse que era uma gíria bem antiga.
— Esta é a sra. Conklin — disse Liz. — Ela é minha amiga e era agente do sr. Thomas. Ela me pediu pra vir aqui porque estava com medo de alguém se aproveitar pra roubar souvenirs.
— Ou manuscritos — acrescentou minha mãe. O gravadorzinho estava guardado na bolsa e o celular estava no bolso de trás da calça jeans. — Um em específico, o último livro de uma série que o sr. Thomas estava escrevendo.
Liz olhou para ela com uma expressão de já chega, mas minha mãe continuou.
— Ele tinha acabado de terminar, e milhões de pessoas vão querer ler. Achei que era meu dever garantir que elas tivessem essa oportunidade.
Os policiais não pareceram nada interessados; eles tinham ido olhar o lugar onde o sr. Thomas tinha morrido. E também fazer com que as pessoas vistas no local tivessem um bom motivo para estar lá.
— Acho que ele morreu no estúdio — disse minha mãe, e apontou para La Petite Maison.
— Aham — disse um dos policiais. — Foi o que nos disseram. A gente vai dar uma olhada. — Ele precisou se inclinar e apoiar as mãos nos joelhos para me olhar no rosto; eu era bem miudinho nessa época. — Qual é seu nome, meu filho?
— James Conklin. — Olhei diretamente para o sr. Thomas. — Jamie. Ela é a minha mãe. — Eu segurei a mão dela.
— Você está matando aula hoje, Jamie?
Antes que eu pudesse responder, minha mãe se intrometeu na maior tranquilidade.
— Eu sempre o busco na saída da escola, mas achei que não ia conseguir voltar a tempo hoje e a gente passou lá pra pegar ele. Não foi, Liz?
— Isso aí — disse Liz. — Policiais, nós não olhamos o estúdio e não sei dizer se está trancado ou não.
— A empregada deixou aberto com o corpo dentro — disse o que tinha falado comigo. — Mas me deu a chave dela e vamos trancar tudo depois de darmos uma olhada.
— Pode dizer a eles que ninguém fez nada comigo não — disse o sr. Thomas. — Eu tive um ataque cardíaco. Doeu pra cacete.
Eu não ia dizer nada disso. Eu só tinha nove anos, mas nem por isso era burro.
— Tem chave do portão também? — perguntou Liz. Ela estava toda profissional agora. — Porque estava aberto quando nós chegamos.
— Tem e nós vamos trancar quando formos embora — disse o segundo policial. — Foi uma boa ideia parar seu carro lá, detetive.
Liz abriu as mãos como quem dizia que era só mais um dia de trabalho.
— Se vocês estiverem prontos pra começar, nós não queremos atrapalhar.
O policial que falou comigo disse:
— Seria bom saber como é um manuscrito valioso, pra cuidarmos bem dele.
Essa era uma questão que a minha mãe podia resolver.
— Ele me mandou o original na semana passada em um pendrive. Acho que não tem outra cópia. Ele era bem paranoico.
— Era mesmo — admitiu o sr. Thomas. O short dele estava caindo de novo.
— Que bom que vocês estavam aqui pra ficar de olho — disse o segundo policial. Ele e o outro apertaram a mão da minha mãe e da Liz, e também a minha. Em seguida, seguiram pelo caminho de cascalho até a casinha verde onde o sr. Thomas morreu. Depois, descobri que muitos outros escritores morreram sentados em frente a uma escrivaninha. Deve ser uma ocupação de workaholics.
— Vamos nessa, campeão — disse Liz. Ela tentou segurar minha mão, mas não deixei.
— Vão ali pra perto da piscina um minuto — falei. — As duas.
— Por quê? — perguntou minha mãe.
Olhei para ela de um jeito que acho que nunca tinha olhado antes, como se ela fosse burra. E, naquele momento, eu achei que ela estava sendo burra. As duas estavam. Além de grosseiras pra caralho.
— Porque eu consegui o que você queria e preciso agradecer.
— Ah, meu Deus — disse minha mãe e bateu na testa de novo. — O que eu estava pensando? Obrigada, Regis. Muito obrigada.
Minha mãe estava direcionando o agradecimento a um canteiro de flores, então segurei o braço dela e a virei.
— Ele está ali, mãe.
Ela disse obrigada de novo e o sr. Thomas não respondeu. Ele não parecia se importar. Ela foi até onde Liz estava, perto da piscina vazia, acendendo outro cigarro.
Eu não precisava agradecer, já sabia que as pessoas mortas estão cagando para coisas assim, mas agradeci mesmo assim. Foi só educação, mas tinha outra coisa que eu queria.
— Sabe a amiga da minha mãe? — falei. — A Liz?
O sr. Thomas não respondeu, mas olhou para ela.
— Ela ainda acha que eu estou inventando que te vi. Ela sabe que aconteceu alguma coisa esquisita porque nenhuma criança poderia inventar aquela história toda. Aliás, adorei o que aconteceu com o George Threadgill…
— Obrigado. Ele merecia mesmo.
— Mas ela vai distorcer as coisas na cabeça dela pra que no final seja do jeito que ela quer.
— Ela vai racionalizar.
— Se é assim que se chama.
— É assim.
— Bom, tem algum jeito de você mostrar pra ela que está aqui? — Eu estava pensando em como o sr. Burkett coçou a bochecha quando a esposa o beijou.
— Não sei. Jimmy, você tem alguma ideia do que vai acontecer comigo agora?
— Desculpa, sr. Thomas. Não sei.
— Acho que vou ter que descobrir sozinho.
Ele andou até a piscina onde nunca mais nadaria. Alguém talvez a enchesse quando o tempo quente voltasse, mas ele já estaria longe até lá. Minha mãe e Liz estavam conversando baixo e dividindo o cigarro da Liz. Uma das coisas que eu não gostava na Liz era que ela tinha feito minha mãe voltar a fumar. Só um pouco e só com ela, mas mesmo assim.
O sr. Thomas parou na frente da Liz, inspirou fundo e soprou. A Liz não tinha franja e o cabelo estava todo preso em um rabo de cavalo apertado, mas ela apertou os olhos como se faz quando o vento sopra na cara e também se encolheu. Ela teria caído na piscina, acho, se minha mãe não a tivesse segurado.
— Sentiu isso? — perguntei. Era uma pergunta idiota, claro que ela tinha sentido. — Foi o sr. Thomas.
Que estava agora andando para longe de nós, na direção do escritório.
— Obrigado de novo, sr. Thomas! — gritei. Ele não se virou, mas levantou a mão para mim antes de a enfiar no bolso do short. Eu estava tendo uma visão excelente do cofrinho dele (era assim que minha mãe chamava quando via um cara de jeans caído) e, se isso for informação demais para você, só lamento. Nós conseguimos que ele nos contasse (em uma hora!) tudo que ele levou meses para inventar. Ele não podia dizer não, e talvez isso desse a ele o direito de nos mostrar a bunda.
Claro que só eu conseguia ver.