Depois
Capítulo 9
Quando nos aproximamos do veículo de passeio da polícia (eu sabia o que era, tinha visto muitas vezes parado na frente do nosso prédio com o papel que dizia POLICIAL DE SERVIÇO no painel), Liz puxou a jaqueta para o lado para mostrar o coldre de ombro vazio. Isso era uma espécie de piada entre nós. Nada de armas perto do meu filho, essa era a regra mais rigorosa da minha mãe. Liz sempre me mostrava o coldre vazio quando o estava usando, e eu já o tinha visto muitas vezes na mesa de centro da nossa sala. Também na mesa de cabeceira do lado da cama que a minha mãe não usava, e, aos nove anos, eu já tinha uma boa ideia do que isso significava. Pântano da Morte de Roanoke incluía umas cenas tórridas entre Laura Goodhugh e Purity Betancourt, a viúva de Martin Betancourt (pura é que ela não era).
— O que ela tá fazendo aqui? — perguntei à minha mãe quando chegamos no carro. Liz estava bem ali, e acho que foi falta de educação falar desse jeito, talvez até grosseria mesmo, mas eu tinha acabado de ser arrancado da aula e ouvido antes mesmo de chegar lá fora que nosso tíquete-alimentação tinha sido cancelado.
— Entra, campeão — disse Liz. Ela sempre me chamava de campeão. — O tempo está se esgotando.
— Não quero. A gente vai comer palitinho de peixe no almoço.
— Não mesmo — disse Liz. — A gente vai comer hambúrguer e batata frita. Eu pago.
— Entra — disse a minha mãe. — Por favor, Jamie.
Eu entrei no banco de trás. Tinha duas embalagens do Taco Bell no chão e um cheiro que podia ser de pipoca de micro-ondas. Tinha também outro cheiro, um cheiro que eu associava com as nossas visitas ao tio Harry nas várias residências dele, mas pelo menos não tinha grade de metal entre o banco de trás e o da frente, como eu já tinha visto em alguns programas policiais que a minha mãe via (ela gostava muito de A escuta).
Minha mãe se sentou na frente e Liz saiu dirigindo, mas parou no primeiro sinal vermelho e acendeu a luz azul no painel. Começou a girar, e, mesmo sem sirene, os carros saíram da frente e chegamos na Franklin Delano Roosevelt rapidinho.
Minha mãe se virou e olhou para mim entre os dois bancos com uma expressão que me assustou. Era uma expressão de desespero.
— Será que ele está em casa, Jamie? Sei que já levaram o corpo dele para o necrotério ou pra funerária, mas será que ele pode ainda estar lá?
A resposta a isso era que eu não sabia, mas não falei isso nem mais nada de primeira. Eu estava surpreso demais. E magoado. Acho até que com raiva, embora não tenha certeza, mas da surpresa e da dor eu me lembro muito bem. Ela tinha me dito para nunca contar para ninguém que eu via gente morta, e eu nunca contei mesmo, mas ela contou. Ela contou para a Liz. Era por isso que a Liz estava ali e logo começaria a usar a lâmpada do painel para abrir o tráfego na Sprain Brook Parkway.
Por fim perguntei:
— Há quanto tempo ela sabe?
Vi Liz piscar para mim pelo retrovisor, o tipo de piscadela que dizia nós temos um segredo. Não gostei. Éramos eu e minha mãe que tínhamos que ter um segredo.
Minha mãe esticou a mão por cima do banco e me segurou pelo pulso. A mão dela estava fria.
— Isso não importa, Jamie, só me diz se ele pode ainda estar lá.
— Acho que pode. Se foi lá que ele morreu.
Minha mãe me soltou e mandou Liz ir mais rápido, mas Liz balançou a cabeça.
— Não é uma boa ideia. A gente pode acabar chamando a atenção de uma escolta policial, e iam querer saber qual era o problema. Eu devo dizer que precisamos falar com um morto antes que ele desapareça?
Deu para perceber pela forma como ela falou que ela não acreditava em uma palavra que minha mãe tinha contado, que só estava querendo agradar. Dando corda. Por mim, tudo bem. Quanto à minha mãe, acho que ela não ligava para o que a Liz achava, desde que ela nos levasse a Croton-on-Hudson.
— O mais rápido que você puder, então.
— Entendido, Titi.
Eu nunca gostei desse apelido que ela usava com a minha mãe, era como algumas crianças da minha turma falavam quando queriam ir ao banheiro, mas minha mãe não parecia se importar. Naquele dia, ela não teria se importado nem se a Liz a chamasse de Penny Peitola. Acho que nem ia reparar.
— Algumas pessoas sabem guardar segredos e outras não — falei. Não consegui me segurar, então acho que eu estava com raiva, sim.
— Para — disse minha mãe. — Não dá pra você ficar emburrado agora.
— Eu não tô emburrado — falei, emburrado.
Eu sabia que ela e a Liz eram próximas, mas era para ela e eu sermos ainda mais. Ela podia ao menos ter me perguntado o que eu achava da ideia antes de contar nosso maior segredo em uma noite qualquer, na cama com a Liz, subindo no que Regis Thomas chamava de “escada da paixão”.
— Eu sei que você está chateado, e pode até ficar puto comigo depois, mas agora eu preciso de você, moleque. — Parecia que ela tinha esquecido que a Liz estava ali, mas eu estava vendo os olhos da Liz pelo retrovisor e sabia que ela estava ouvindo cada palavra.
— Tudo bem. — Ela estava me deixando com um pouco de medo. — Relaxa, mãe.
Ela passou a mão pelo cabelo e puxou a franja para trás.
— Isso é tão injusto. Tudo que aconteceu com a gente… que ainda está acontecendo… tá foda pra caralho! — Ela bagunçou meu cabelo. — Você não ouviu isso.
— Ouvi, sim — falei. Porque eu ainda estava com raiva, mas ela estava certa. Lembra o que falei que minha vida parecia um livro do Dickens, só que com palavrões? Sabe por que as pessoas leem livros assim? Porque ficam felizes que esse monte de coisa foda pra caralho não está acontecendo com elas.
— Estou fazendo malabarismo com as contas há dois anos e nunca deixei nenhuma cair no chão. Algumas vezes, precisei deixar as menores de lado pra pagar as maiores, em outras vezes deixei as maiores de lado pra pagar várias menores, mas a luz nunca foi cortada e nunca ficamos sem comida no prato. Não é?
— Tá, tá, tá — falei, pensando que poderia fazer com que ela sorrisse. Mas não adiantou.
— Mas agora… — Ela deu outro puxão na franja, deixando meio embaraçada. — Agora tem umas seis datas de vencimento chegando ao mesmo tempo, com a Receita Infernal liderando o bando. Estou me afogando em um mar de tinta vermelha e esperava que Regis me salvasse. Aí o filho da puta vai e morre! Aos cinquenta e nove anos! Quem morre aos cinquenta e nove anos sem estar cem quilos acima do peso e sem usar drogas?
— Quem tem câncer? — falei.
Minha mãe soltou uma risada úmida e puxou a pobre franja.
— Calma, Thia — murmurou Liz. Ela botou a mão na lateral do pescoço da minha mãe, mas acho que a minha mãe não sentiu.
— O livro poderia nos salvar. O livro, o livro todo, só o livro. — Ela soltou uma gargalhada descontrolada que me assustou ainda mais. — Sei que ele só tinha escrito uns dois capítulos, mas mais ninguém sabe, porque ele não falava com ninguém além do meu irmão antes de o Harry ficar doente e agora com ninguém além de mim. Ele não fazia esboço nem anotações, Jamie, porque dizia que era como botar uma camisa de força no processo criativo. E também porque ele não precisava. Ele sempre sabia o caminho que ia seguir.
Ela segurou meu pulso de novo e apertou com tanta força que deixou marcas roxas. Só vi depois.
— Talvez ele ainda saiba.