Depois
Capítulo 43
Eu ainda sentia medo de Therriault, mas não achava mais que ia amarelar se surgisse a oportunidade de botar o ritual do prof. Burkett em ação. Eu só precisava estar pronto. Ou seja, que Therriault chegasse perto, não só ficasse do outro lado da rua ou perto da terceira base do Citi Field.
Minha chance surgiu em um sábado de outubro. Eu estava indo jogar futebol americano com uns amigos da escola no Grover Park. Minha mãe deixou um bilhete dizendo que tinha ficado acordada até tarde lendo o novo trabalho de Philippa Stephens e queria dormir até mais tarde. Que era para eu tomar meu café da manhã em silêncio e não tomar mais do que meia xícara de café. Que era para eu me divertir com meus amigos e não voltar com uma concussão nem com o braço quebrado. Que era para eu estar de volta no máximo às duas. Ela deixou dinheiro para o meu almoço, que guardei dobradinho no bolso. Havia um P.S.: Seria perda de tempo pedir pra você comer alguma coisa verde, nem que seja uma folha de alface dentro de um hambúrguer?
Provavelmente, mãe, provavelmente, pensei enquanto servia um prato de Cheerios e comia (quietinho).
Quando saí do apartamento, Therriault não estava na minha cabeça. Ele passava cada vez menos tempo lá, e eu usei uma parte do novo espaço disponível para pensar em outras coisas, principalmente garotas. Eu estava pensando particularmente em Valeria Gomez enquanto andava pelo corredor até o elevador. Therriault decidiu chegar perto naquele dia porque tinha uma espécie de janela para ver dentro da minha cabeça e sabia que estava longe dos meus pensamentos? Tipo telepatia de baixo grau? Também não sei sobre isso.
Apertei o botão do elevador, me perguntando se Valeria iria ao jogo. Era bem possível, porque o irmão dela, Pablo, jogava. Eu estava mergulhado em uma fantasia em que eu pegava um passe, escapava de todo mundo que tentasse tocar em mim e disparava até o lado adversário com a bola bem alta, mas, mesmo assim, dei um passo para trás quando o elevador chegou; isso tinha se tornado automático para mim. Estava vazio. Apertei o botão do térreo. O elevador desceu e a porta se abriu. Havia um corredorzinho curto e uma porta, que ficava trancada por dentro e levava a um saguão pequeno. A porta para a parte externa não ficava trancada para o carteiro poder entrar e botar as correspondências nas caixas. Se Therriault estivesse ali, no saguão, eu não poderia ter feito o que fiz. Mas ele não estava no saguão. Estava dentro, no fim do corredor, sorrindo como se fazer isso fosse passar a ser proibido no dia seguinte.
Ele começou a dizer uma coisa, talvez uma de suas profecias mentirosas, e se eu estivesse pensando nele e não na Valeria é provável que tivesse ficado paralisado ou tropeçado de volta para o elevador, apertando o botão de fechar a porta com todo o desespero do mundo. Mas fiquei puto por ele invadir minha fantasia e só me lembro de ter pensado no que o prof. Burkett me disse no dia em que levei a torta salgada.
— A mordida de língua no Ritual de Chüd é só uma cerimônia antes de se enfrentar um inimigo — disse ele. — Há muitas. Os maoris fazem uma dança com grito de guerra quando enfrentam os oponentes. Os pilotos kamikaze brindavam uns aos outros e a fotografias dos seus alvos com o que eles acreditavam ser saquê mágico. No antigo Egito, os membros de casas em guerra batiam na testa uns dos outros antes de pegar as facas e lanças e arcos. Lutadores de sumô batem no ombro uns dos outros. Tudo se resume à mesma coisa: eu te encontrarei em combate, onde um de nós vai superar o outro. Em outras palavras, Jamie, não precisa botar a língua pra fora. Agarra seu demônio e fica agarrado como se sua vida dependesse disso.
Em vez de ficar paralisado ou de me encolher, dei um pulo para a frente sem pensar, com os braços esticados, como se eu fosse abraçar um amigo ausente havia muito tempo. Eu gritei, mas acho que só na minha cabeça, porque ninguém olhou dos apartamentos térreos para ver o que estava acontecendo. O sorriso de Therriault (o que sempre revelava aquela placa de sangue morto entre os dentes e a bochecha) sumiu, e vi uma coisa incrível, maravilhosa: ele sentiu medo de mim. Ele se encolheu contra a porta do saguão, mas a porta se abria na outra direção, e ele ficou encurralado. Eu o segurei.
Não consigo descrever como foi. Acho que nem um escritor bem mais talentoso do que eu conseguiria, mas vou me esforçar. Lembra o que falei sobre o mundo tremer ou vibrar como uma corda de violão? Era assim do lado de fora de Therriault e em volta dele. Eu sentia o tremor nos meus dentes e nos meus globos oculares. Só que havia outra coisa, na parte de dentro de Therriault. Era uma coisa que o estava usando como veículo e o impedindo de seguir para onde as pessoas mortas vão quando a conexão delas com o nosso mundo apodrece.
Era uma coisa muito ruim e estava gritando para que eu a soltasse. Ou para que soltasse Therriault. Talvez não houvesse diferença. Estava furiosa comigo e com medo, mas, principalmente, ela estava surpresa. Ser agarrada era a última coisa que esperava.
A coisa lutou e teria escapado se Therriault não estivesse preso contra a porta, tenho certeza. Eu era um garoto magrelo, Therriault era mais de dez centímetros mais alto e pesaria uns cinquenta quilos a mais do que eu se estivesse vivo, mas não estava. A coisa dentro dele estava viva, e eu tinha quase certeza de que tinha entrado quando eu estava obrigando Therriault a responder minhas perguntas do lado de fora daquele mercadinho.
A vibração piorou. Estava vindo do chão. Estava vindo do teto. A luz estava tremendo e espalhando sombras líquidas. As paredes pareciam rastejar primeiro para um lado e depois para outro.
— Me solta — disse Therriault, e até a voz dele estava vibrando. Parecia aquelas flautas improvisadas, quando a gente bota papel vegetal sobre um pente e sopra. Os braços se debateram ao lado do corpo, depois se fecharam e bateram nas minhas costas. Na mesma hora, ficou difícil respirar. — Me solta e eu te solto.
— Não — falei e o abracei com mais força.
É agora, lembro que pensei. É Chüd. Estou em um combate mortal com um demônio aqui, na entrada do meu prédio, em Nova York.
— Vou tirar todo o ar de você — disse a coisa.
— Você não pode fazer isso — respondi, torcendo para estar certo.
Eu ainda conseguia respirar, mas eram respirações bem curtas. Comecei a achar que conseguia ver dentro de Therriault. Talvez fosse uma alucinação gerada pela vibração e pela sensação de que o mundo estava prestes a explodir como uma taça delicada de vinho, mas acho que não. Não era para as entranhas dele que eu estava olhando, mas para uma luz. Era brilhosa e escura ao mesmo tempo. Uma coisa sobrenatural. Era horrível.
Quanto tempo ficamos ali, nos agarrando? Podem ter sido cinco horas ou só noventa segundos. Você poderia dizer que cinco horas era impossível, que alguém teria passado, mas acho… eu quase sei… que estávamos fora do tempo. Uma coisa que posso dizer com certeza é que a porta do elevador não fechou como deveria uns cinco segundos depois que os passageiros saem. Eu via o reflexo do elevador por cima do ombro de Therriault e a porta ficou aberta o tempo todo.
Por fim, a coisa disse:
— Me solta e eu não volto nunca mais.
Era uma ideia extremamente tentadora, tenho certeza de que você vai entender, e eu talvez tivesse aceitado se o professor também não tivesse me preparado para isso.
A coisa vai tentar negociar, disse ele. Não deixe. E ele me disse o que fazer, provavelmente achando que a única coisa que eu tinha para confrontar era uma neurose ou complexo ou seja lá qual transtorno psicológico você queira nomear.
— Ainda não é suficiente — falei, e continuei apertando.
Eu via mais e mais dentro de Therriault e me dei conta de que ele era mesmo um fantasma. Provavelmente todas as pessoas mortas são, e eu só as via como sólidas. Quanto mais insubstancial ele ficava, mais intensa aquela luz escura, aquela luz morta, brilhava. Não tenho a menor ideia do que era. Eu só sabia que a tinha capturado, e tem um ditado antigo que diz quem segurar um tigre pela cauda que não ouse soltar.
A coisa dentro de Therriault era pior do que qualquer tigre.
— O que você quer? — Ofegante. Não havia ar nele, eu teria sentido na bochecha e no pescoço se houvesse, mas ele estava ofegante mesmo assim. Pior do que eu, talvez.
— Não é suficiente você parar de me assombrar.
Eu respirei fundo e falei o que o prof. Burkett me mandou dizer se eu conseguisse enfrentar meu nêmesis no Ritual de Chüd. E apesar de o mundo estar tremendo em volta de mim, apesar de essa coisa estar me segurando em um abraço mortal, eu senti prazer em dizer. Um grande prazer. Um prazer de guerreiro.
— Agora eu vou te assombrar.
— Não! — Ele me apertou mais.
Eu estava espremido junto a Therriault, apesar de Therriault agora não passar de um holograma sobrenatural.
— Sim. — O prof. Burkett me disse para dizer outra coisa se eu tivesse oportunidade. Depois descobri que era o título aperfeiçoado de uma história famosa de fantasma, o que a tornou muito adequada. — Ah, eu assobio e você vem a mim, meu rapaz.
— Não! — A coisa lutou. Aquela luz pulsante e horrenda me deu vontade de vomitar, mas eu me segurei.
— Sim. Vou te assombrar o quanto eu quiser, sempre que eu quiser, e, se você não concordar, vou ficar agarrado a você até você morrer.
— Eu não tenho como morrer! Mas você tem!
Isso era verdade, sem dúvida, mas naquele momento eu nunca tinha me sentido tão forte. Além do mais, o tempo todo Therriault estava se apagando, e ele era o pezinho que aquela luz morta mantinha no nosso mundo.
Eu não falei nada. Só me mantive agarrado. E Therriault se manteve agarrado a mim. Continuou assim. Eu estava ficando gelado, os pés e as mãos ficando dormentes, mas continuei do mesmo jeito. Eu pretendia ficar ali para sempre se precisasse. Estava morrendo de medo da coisa dentro de Therriault, mas a coisa estava presa. Eu também estava preso, claro; essa era a natureza do ritual. Se eu soltasse, ela vencia.
Finalmente, ela disse:
— Eu concordo com seus termos.
Eu afrouxei o aperto, mas só um pouco.
— Você está mentindo? — Você poderia dizer que era uma pergunta idiota, mas não era.
— Eu não posso mentir. — O tom foi meio petulante. — Você sabe disso.
— Diga de novo. Diga que concorda.
— Eu concordo com seus termos.
— Você sabe que posso te assombrar?
— Sei, mas não tenho medo de você.
Foram palavras ousadas, mas, como eu já tinha descoberto, Therriault podia fazer quantas declarações falsas quisesse. Declarações não eram respostas a perguntas. E qualquer um que precisa dizer que não sente medo está mentindo. Eu não precisei esperar até depois para aprender isso, já sabia aos treze anos.
— Você tem medo de mim?
Vi aquela expressão contraída no rosto de Therriault de novo, como se ele estivesse sentindo um gosto amargo e desagradável. E essa devia ser a sensação que aquele filho da puta infeliz tinha ao falar a verdade.
— Sim. Você não é como os outros. Você vê.
— Sim o quê?
— Sim, eu tenho medo de você!
Show!
Eu o soltei.
— Sai daqui, seja lá o que você for, e vai pra onde quer que você vá. Só lembra que, se eu chamar, você vem.
Ele se virou e me permitiu dar uma olhada final no buraco no lado esquerdo da cabeça. Segurou na maçaneta. A mão atravessou a maçaneta, mas também não atravessou. As duas coisas ao mesmo tempo. Sei que é loucura, um paradoxo, mas aconteceu. Eu vi. A maçaneta girou e a porta se abriu. Ao mesmo tempo, a lâmpada no teto explodiu e voou vidro do alto. Havia umas doze caixas de correspondência no saguão e metade delas se abriu. Therriault me lançou um último olhar de ódio por cima do ombro sujo de sangue e sumiu, deixando a porta da frente aberta. Eu o vi descer a escada, mais caindo do que correndo. Um cara passando de bicicleta em velocidade, provavelmente um mensageiro, perdeu o equilíbrio e caiu estatelado na rua, falando um palavrão.
Eu sabia que os mortos podiam causar impacto nos vivos, aquilo não foi surpresa. Eu já tinha visto, mas esses impactos sempre foram coisas pequenas. O prof. Burkett sentiu o beijo da esposa. Liz sentiu Regis Thomas soprar na cara dela. Mas as coisas que eu tinha visto agora, a lâmpada explodindo, a maçaneta tremendo e girando, o mensageiro caindo da bicicleta, todas eram de um nível totalmente diferente.
O que estou chamando de luz morta quase perdeu o hospedeiro quando eu o estava agarrando, mas, quando soltei, ela mais do que recuperou Therriault; ela ficou mais forte. A força devia ter vindo de mim, mas eu não me sentia mais fraco (como a pobre Lucy Westenra quando o conde Drácula a usou como bufê particular). Na verdade, acho que eu estava me sentindo melhor do que nunca, renovado e revigorado.
E daí que estava mais forte? Eu a dominei, fiz dela minha cadelinha.
Pela primeira vez desde que Liz me buscou na escola naquele dia e me levou para procurar Therriault, eu me sentia bem de novo. Como alguém que teve uma doença séria e está finalmente melhorando.