Depois

Stephen King · Capítulo 21 de 72

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Depois

Capítulo 20

Fiquei muito tempo sem ver Liz Dutton depois disso, um ano, talvez um pouco mais. Senti falta dela no começo, mas o sentimento não durou. Quando vinha, eu só lembrava que ela tinha ferrado a minha mãe, e muito. Eu ficava esperando que minha mãe arrumasse outra amiga que dormisse na nossa casa, mas não aconteceu. Nunca. Perguntei uma vez e ela disse:

— Gato escaldado tem medo de água fria. Nós estamos bem e é isso que importa.

E estávamos mesmo. Graças a Regis Thomas, vinte e sete semanas na lista de mais vendidos do New York Times, e alguns clientes novos (um deles descoberto por Barbara Means, que tinha passado a trabalhar em tempo integral e acabou ganhando o nome na porta em 2017), a agência estava de pé e firme de novo. O tio Harry voltou para o residencial em Bayonne (o mesmo lugar com uma nova gerência), o que não era ótimo, mas melhor do que antes. Minha mãe não ficava mais irritada de manhã e comprou umas roupas novas.

— Estava precisando — disse ela uma vez naquele ano. — Eu perdi oito quilos de vinho.

Eu estava no fundamental II, que era horrível em alguns aspectos, mas era o.k. em outros, e tinha uma vantagem excelente: os alunos atletas sem aula no último tempo do dia podiam ir para o ginásio, para a sala de artes, para a sala de música ou ir embora mais cedo. Eu só jogava basquete pela escola e o campeonato tinha acabado, mas valia para mim mesmo assim. Em alguns dias, eu ia para a sala de artes, porque uma garota lindinha chamada Marie O’Malley ia para lá de vez em quando. Se ela não estivesse trabalhando em uma de suas aquarelas, eu só ia para casa. Andando se o tempo estivesse bom (sozinho, eu nem deveria precisar dizer) ou de ônibus se estivesse feio.

No dia em que Liz Dutton voltou para a minha vida, eu nem me dei ao trabalho de procurar Marie, porque tinha ganhado um Xbox de aniversário e queria jogar. Eu estava a caminho da calçada, botando a mochila nas costas (nada de um ombro só agora; o sexto ano já era passado pré-histórico), quando ela me chamou.

— Ei, campeão, e aí, bambino?

Ela estava encostada no carro particular, as pernas cruzadas nos tornozelos, de calça jeans e uma blusa decotada. Havia um blazer por cima da blusa em vez de uma jaqueta, mas tinha NYPD no peito e ela o puxou do jeito antigo para mostrar o coldre de ombro. Só que, desta vez, não estava vazio.

— Oi, Liz — murmurei. Olhei para os meus sapatos e virei para a direita, para a rua.

— Espera aí. Eu preciso falar com você.

Eu parei, mas não me virei para ela. Era como se ela fosse a Medusa e uma olhada para aquela cabeça cheia de serpentes fosse me transformar em pedra.

— Acho que não devo. Minha mãe ficaria brava.

— Ela não precisa saber. Se vira, Jamie. Por favor. Ficar olhando pras suas costas acaba comigo.

Ela parecia mesmo estar se sentindo mal, e isso fez com que eu me sentisse mal. Eu me virei. O blazer estava fechado de novo, mas dava para ver o volume da arma mesmo assim.

— Quero que você dê uma volta comigo.

— Não é uma boa ideia — falei.

Eu estava pensando em uma garota chamada Ramona Sheinberg. Ela estudava comigo em algumas matérias no começo do ano, mas sumiu de repente, e meu amigo Scott Abramowitz me disse que o pai a pegou na época da briga judicial pela guarda dela e a levou para um lugar onde não havia extradição. Scott esperava que pelo menos fosse um lugar com palmeiras.

— Eu preciso que você use a sua habilidade, campeão — disse ela. — Preciso muito.

Eu não respondi, mas ela devia ter visto que eu estava na dúvida, porque abriu um sorriso. Foi um sorriso bonito que iluminou aqueles olhos cinzentos dela. Não estavam frios naquele dia.

— Pode ser que não dê em nada, mas quero tentar. Quero que você tente.

— Que tente o quê?

Ela não respondeu, não naquela hora, só esticou a mão para mim.

— Eu ajudei sua mãe quando o Regis Thomas morreu. Você não pode me ajudar agora?

Tecnicamente, fui eu que ajudei minha mãe naquele dia. Liz só nos deu uma carona rápida pela via expressa Sprain Brook, mas ela parou mesmo para comprar um hambúrguer para mim quando a minha mãe só queria seguir em frente. E ela me deu o resto da sua coca quando minha boca estava seca de tanto falar. Então, eu entrei no carro. Não me senti bem em fazer isso, mas fiz. Os adultos têm poder, principalmente quando imploram, e era isso que a Liz estava fazendo.

Perguntei a Liz aonde estávamos indo e ela disse Central Park para começar. Talvez uns dois outros lugares depois. Eu falei que, se não chegasse em casa até as cinco, minha mãe ficaria preocupada. Liz me disse que ia tentar me levar antes disso, mas que aquilo era muito importante.

Foi nessa hora que ela me contou o problema.