Depois

Stephen King · Capítulo 67 de 72

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Depois

Capítulo 66

 

O chefe e dois outros policiais apareceram no MedNow uma hora depois que a policial Caroline e eu chegamos lá. Tinha também um cara de terno que se apresentou como promotor público do condado. Um médico me examinou e disse que eu estava bem, com a pressão arterial um pouco alta, mas, considerando o que eu tinha passado, não era surpreendente. Ele tinha certeza de que eu estaria normal de manhã e me declarou um “adolescente normal e saudável”. Por acaso, eu era um adolescente normal e saudável que via gente morta, mas não falei isso.

Eu e os policiais e o promotor fomos para a sala de descanso dos funcionários para esperar minha mãe, e, assim que ela chegou, as perguntas começaram. Naquela noite, nós ficamos no Renfield Stardust Motel, e na manhã seguinte houve mais perguntas. Foi minha mãe que contou para eles que ela e Elizabeth Dutton tiveram um relacionamento que terminou quando minha mãe descobriu que Liz estava envolvida no tráfico de drogas. Fui eu que contei que Liz me pegou depois do treino de tênis e me levou para Renfield, onde queria roubar um carregamento enorme de Oxy da casa do sr. Marsden. Ele disse para ela onde as drogas estavam e ela o matou, ou porque não encontrou a quantidade que esperava ou por causa das outras coisas que encontrou naquele quarto. As fotos.

— Tem uma coisa que não entendi — disse a policial Caroline quando devolvi o casaco dela, que fiquei usando. Minha mãe olhou para ela de um jeito cauteloso de mãe pronta para proteger a cria, mas a policial Caroline não viu. Ela estava olhando para mim. — Ela amarrou o cara…

— Ela disse que o deteve. Foi essa palavra que ela usou. Acho que porque era policial.

— Certo, ela o deteve. E, de acordo com o que ela te contou, e também de acordo com o que encontramos no andar de cima, ela bateu um pouco nele. Mas não tanto.

— Você pode ir direto ao ponto? — disse a minha mãe. — Meu filho passou por uma experiência horrível e está exausto.

A policial Caroline a ignorou. Ela estava me olhando, e seus olhos estavam brilhando muito.

— Ela poderia ter feito bem mais, poderia tê-lo torturado até conseguir o que queria, mas o que ela fez foi ir até Nova York, te sequestrar e voltar com você. Por que ela fez isso?

— Não sei.

— Você andou de carro com ela por duas horas e ela não falou?

— Ela só disse que estava feliz em me ver. — Eu não conseguia lembrar se ela tinha mesmo dito isso, então acho que, tecnicamente, foi mentira, mas não pareceu. Pensei em todas aquelas noites no sofá, sentado no meio das duas vendo The Big Bang Theory, nós três morrendo de rir, e comecei a chorar. E foi isso que nos tirou de lá.

Quando estávamos no motel com a porta fechada e trancada, minha mãe disse:

— Se perguntarem de novo, diz que talvez ela estivesse querendo te levar junto quando fosse para o oeste. Você pode fazer isso?

— Posso — falei. Questionando se talvez a ideia estivesse na cabeça da Liz o tempo todo. Não era uma coisa boa de pensar, mas era melhor do que o que eu tinha pensado (e ainda penso até hoje): que ela planejava me matar.

Eu não dormi no quarto adjacente. Dormi no sofá do quarto da minha mãe. Sonhei que estava andando em uma estrada deserta de interior sob a lua minguante. Não assobie, não assobie, eu disse para mim mesmo, mas assobiei. Não consegui me controlar. Eu estava assobiando “Let It Be”. Lembro claramente. Eu não tinha passado das primeiras seis ou oito notas quando ouvi passos atrás de mim.

Acordei com as mãos na boca, como se quisesse segurar um grito. Já acordei assim algumas vezes nos anos seguintes, e nunca é de gritar que estou com medo. Estou com medo de acordar assobiando e a luz morta estar lá.

Com os braços esticados para me abraçar.