Depois
Capítulo 19
Vou contar sobre a outra vez em que a Liz me pegou na escola daqui a pouco, mas primeiro preciso contar sobre o dia em que elas terminaram. Foi uma manhã assustadora, pode acreditar.
Eu acordei naquele dia antes mesmo do meu despertador tocar porque minha mãe estava gritando. Eu já a tinha ouvido com raiva, mas não tanto.
— Você trouxe para o apartamento? Onde eu moro com o meu filho?
Liz respondeu alguma coisa, mas foi um murmúrio e eu não consegui ouvir.
— Você acha que faz diferença pra mim? — gritou a minha mãe. — Nos programas policiais eles dizem que é coisa séria! Eu poderia ir presa como cúmplice!
— Não faz drama — disse Liz. Mais alto agora. — Não tinha nenhuma chance de…
— Isso não importa! — gritou a minha mãe. — Estava aqui! Ainda está aqui! Na porra da mesa, ao lado da porra do açucareiro! Você trouxe drogas pra minha casa! Coisa séria!
— Você pode parar de dizer isso? Não estamos em um episódio de Lei e ordem. — Agora, Liz também estava começando a falar alto. A ficar com raiva. Fiquei com o ouvido grudado na porta do quarto, descalço e de pijama, o coração disparado. Não era uma discussão, não era uma briga. Era mais do que isso. Era pior. — Se você não tivesse revirado meus bolsos…
— Você acha que eu estava revirando suas coisas? Eu queria fazer um favor! Eu ia levar seu casaco extra do uniforme pra tinturaria, junto com minha saia de lã. Há quanto tempo está lá?
— Pouco. O dono está fora da cidade. Ele volta amanh…
— Quanto tempo?
A resposta da Liz foi novamente baixa demais para eu ouvir.
— Então por que você trouxe pra cá? Não entendo isso. Por que você não colocou no cofre de armas da sua casa?
— Eu não… — Ela parou.
— Não o quê?
— Eu não tenho um cofre pras armas. E já houve invasões no meu prédio. Além do mais, eu vinha pra cá. A gente ia passar o fim de semana juntas. Eu pensei em economizar a viagem.
— Economizar a viagem?
Liz não respondeu.
— Não tem cofre pra armas no seu apartamento. Quantas outras mentiras você me contou? — Minha mãe nem estava mais com raiva na voz. Pelo menos, não naquele momento. Ela parecia magoada. Como se estivesse com vontade de chorar. Tive vontade de sair e mandar a Liz deixar a minha mãe em paz, mesmo tendo sido a minha mãe a começar por ter encontrado o que ela encontrou, a coisa séria. Mas só fiquei lá parado, ouvindo. E tremendo.
Liz murmurou mais um pouco.
— É por isso que você está com problemas na delegacia? Você também usa, além de… sei lá, transportar a substância? Distribuir a substância?
— Eu não uso e não distribuo!
— Bom, você está passando adiante! — A voz da minha mãe estava ficando alta de novo. — Pra mim, isso é distribuir. — Em seguida, ela voltou para o que estava mesmo incomodando. Bom, não a única coisa, mas a que estava incomodando mais. — Você trouxe para o meu apartamento. Onde meu filho está. Você tranca sua arma no carro, eu sempre insisti nisso, mas agora eu encontro um quilo de cocaína na sua jaqueta. — Ela riu, mas não do jeito que as pessoas riem quando acham alguma coisa engraçada. — Sua jaqueta do uniforme da polícia!
— Não é um quilo. — Ela parecia emburrada.
— Eu cresci pesando carne no mercado do meu pai — disse a minha mãe. — Conheço um quilo quando seguro na mão.
— Vou levar embora — disse ela. — Agora mesmo.
— Faz isso mesmo, Liz. Agora mesmo. E pode voltar pra buscar as suas coisas. Com hora marcada. Quando eu estiver aqui e o Jamie não estiver. Fora isso, nunca mais.
— Você não está falando sério — disse Liz, mas, mesmo pela porta, percebi que ela própria não acreditava no que estava dizendo.
— Estou, sim. Vou te fazer um favor e não denunciar o que encontrei para o seu capitão, mas, se você botar as caras aqui de novo, fora essa única vinda pra pegar suas coisas, eu vou. Pode considerar isso uma promessa.
— Você está me expulsando? Sério?
— Sério. Pega sua droga e vai se foder.
Liz começou a chorar. Foi horrível. Depois que ela foi embora, minha mãe começou a chorar e foi pior ainda. Fui até a cozinha e a abracei.
— O quanto você ouviu? — perguntou minha mãe, mas, antes que eu pudesse responder: — Tudo, imagino. Não vou mentir pra você, Jamie. Nem dourar a pílula. Ela trouxe drogas, muita quantidade, e eu nunca quero que você fale nada sobre isso, tá?
— Era mesmo cocaína? — Eu também estava chorando, mas só percebi quando minha voz saiu rouca.
— Era. E como você já sabe tanta coisa, é melhor eu contar logo que experimentei na faculdade, só duas vezes. Botei na boca o que encontrei no saco e minha língua ficou dormente. Era cocaína, sim.
— Mas não está mais aqui. Ela levou.
As mães sabem de que as crianças têm medo quando são boas mães. Um crítico poderia chamar isso de noção romântica, mas acho que é só um fato prático.
— Levou, e nós estamos bem. Foi um jeito horrível de começar o dia, mas acabou. Vamos passar a borracha nisso e seguir em frente.
— Tudo bem, mas… a Liz não é mesmo mais sua amiga?
Minha mãe usou um pano de prato para secar o rosto.
— Acho que ela não é minha amiga já tem um tempo. Eu só não sabia. Agora, vai se arrumar pra escola.
Naquela noite, quando eu estava fazendo o dever de casa, ouvi um glug-glug-glug vindo da cozinha e senti cheiro de vinho. O cheiro foi bem mais forte do que o habitual, mesmo nas noites em que a minha mãe e a Liz entornavam várias garrafas. Saí do meu quarto para ver se ela tinha derrubado uma no chão (apesar de não ter havido barulho de vidro quebrando) e vi minha mãe parada na frente da pia com uma jarra de vinho tinto em uma das mãos e uma de vinho branco na outra. Ela estava jogando tudo no ralo.
— Por que você está jogando tudo fora? Estragou?
— De certa forma, sim — disse ela. — Acho que começou a estragar uns oito meses atrás. Está na hora de parar.
Descobri depois que a minha mãe frequentou o AA por um tempo depois que terminou com a Liz, depois decidiu que não precisava mais. (“Era só um bando de velhos resmungando e gemendo por causa de um gole de trinta anos atrás”, disse ela.) E acho que ela não parou completamente, porque uma ou duas vezes pensei ter sentido cheiro de vinho em seu hálito quando ela me deu um beijo de boa-noite. Talvez de um jantar com um cliente. Se ela tinha alguma garrafa no apartamento, eu nunca descobri onde ela escondia (não que eu tenha procurado muito). O que sei é que, nos anos seguintes, eu nunca a vi bêbada e nunca a vi de ressaca. Isso para mim já bastou.