Depois
Capítulo 22
Nós fomos primeiro ao City of Angels, porque era mais perto. Não tinha nenhum cara com um buraco na cabeça na frente, só alguns fumantes, então passamos pela entrada da sala de emergência. Tinha muita gente sentada lá, e um cara tinha um sangramento na cabeça. O ferimento me pareceu mais uma laceração do que um buraco de bala, e ele era mais jovem do que Liz disse que Kenneth Therriault era, mas perguntei a Liz se ela o via, só para ter certeza. Ela disse que via.
Nós fomos até a recepção, onde Liz mostrou o distintivo e se identificou como detetive da polícia de Nova York. Ela perguntou se havia uma sala onde os funcionários guardavam as coisas e trocavam de roupa para trabalhar. A mulher da recepção disse que sim, mas que outros policiais já tinham estado lá e levado tudo do armário de Therriault. Liz perguntou se eles ainda estavam lá dentro e a mulher disse que não, que os últimos tinham ido embora horas antes.
— Eu gostaria de dar uma olhada rápida mesmo assim — disse Liz. — Me diga como eu chego lá.
A moça disse para pegarmos o elevador até o subsolo B e virarmos à direita. Em seguida, sorriu para mim e disse:
— Veio ajudar a mamãe na investigação hoje, rapazinho?
Pensei em dizer Bom, ela nem é minha mãe, mas acho que estou ajudando porque ela espera que, se o sr. Therriault ainda estiver aqui, eu consiga ver. Claro que não era uma boa ideia, então fiquei quieto.
Liz, não. Ela explicou que a enfermeira da escola achou que eu estava com mononucleose e que aquilo era uma oportunidade de eu ser examinado e visitar o local de trabalho de Therriault ao mesmo tempo. Dois coelhos com uma cajadada só.
— Seria melhor você ser atendido pelo seu médico — disse a moça da recepção. — Está uma loucura aqui hoje. Vocês vão esperar horas.
— Acho que é melhor mesmo — concordou Liz. Pensei no quanto aquilo pareceu natural e em como ela mentia bem. Não consegui decidir se senti nojo ou admiração. Acho que um pouco das duas coisas.
A moça da recepção se inclinou para a frente. Fiquei fascinado pela forma como os peitos enormes empurraram os papéis para a frente. Fez com que eu pensasse em um barco quebra-gelo que eu tinha visto em um filme. Ela baixou a voz.
— Todo mundo ficou chocado, vou te dizer. Ken era o funcionário mais velho e também o mais gentil. Trabalhador, sempre querendo agradar. Se alguém pedisse pra ele fazer alguma coisa, ele sempre fazia feliz. E com um sorriso. E pensar que a gente estava trabalhando com um assassino! Sabe o que isso prova?
Liz balançou a cabeça, impaciente para seguirmos logo em frente.
— Que a gente nunca sabe — disse a moça da recepção. Ela falou como alguém compartilhando uma grande verdade. — A gente nunca sabe mesmo!
— Ele disfarçava muito bem mesmo — disse Liz, e eu pensei Um mentiroso sempre reconhece outro.
No elevador, perguntei:
— Se você é da força-tarefa, por que não está com a força-tarefa?
— Não seja burro, campeão. Você acha que eu podia te levar até a força-tarefa? Ter que inventar uma história sobre você na recepção já foi bem ruim. — O elevador parou. — Se alguém perguntar sobre você, lembra por que está aqui.
— Mononucleose.
— Isso mesmo.
Mas não tinha ninguém para perguntar. A sala dos funcionários estava vazia. Tinha uma fita amarela com as palavras INVESTIGAÇÃO POLICIAL – NÃO ENTRE na porta. Liz e eu passamos por baixo, ela segurando a minha mão. Havia bancos, algumas cadeiras e uns vinte e poucos armários. E também uma geladeira, um micro-ondas e um forno elétrico. Havia uma caixa aberta de Pop Tarts perto do forno elétrico, e pensei que não seria ruim comer um Pop Tart naquela hora. Mas não havia sinal de Kenneth Therriault.
Os armários tinham nomes grudados com fita adesiva. Liz abriu o do Therriault usando um lenço por causa do resto de pó para identificar digitais. Ela mexeu devagar, como se esperasse que ele estivesse escondido dentro, como o bicho-papão no armário de uma criança. Therriault era uma espécie de bicho-papão, mas não estava lá dentro. Estava vazio. A polícia levou tudo.
Liz disse porra de novo. Olhei meu celular para ver a hora. Eram três e vinte.
— Eu sei, eu sei — disse ela.
Seus ombros estavam murchos, e, embora eu me ressentisse da forma como ela me pegou e me levou para onde queria, não consegui não sentir certa pena dela. Lembrei-me do sr. Thomas dizendo que minha mãe parecia mais velha, e agora eu achava que a amiga da minha mãe parecia mais velha também. Mais magra. E eu também tinha que admitir que sentia certa admiração, porque ela estava tentando fazer a coisa certa e salvar vidas. Ela era tipo a heroína de um filme, a loba solitária que quer resolver o caso sozinha. Talvez ela se importasse com as pessoas inocentes que poderiam ser vaporizadas com a última bomba do Thumper. Provavelmente se importava, mesmo. Mas sei agora que ela estava mais preocupada em salvar o emprego. Não gosto de pensar que era a preocupação principal dela, mas, à luz dos acontecimentos de depois (e vou chegar nisso), tenho que pensar que era.
— Tudo bem, mais uma tentativa. E para de olhar pra esse celular idiota, campeão. Sei que horas são e, por mais problema que você tenha se eu não te levar pra casa antes da hora da sua mãe chegar, meu problema vai ser maior.
— Ela deve sair com a Barbara pra beber alguma coisa antes de ir pra casa mesmo. A Barbara trabalha na agência agora.
Não sei bem por que falei isso. Porque eu também queria salvar vidas inocentes, acho, se bem que isso me parecia um tanto teórico para mim, porque eu não achava que nós fôssemos encontrar Kenneth Therriault. Acho que foi porque Liz parecia tão desanimada. Tão encurralada.
— Que golpe de sorte — disse ela. — Só precisamos de mais um agora.