Depois
Capítulo 67
Tem muita coisa ruim em ser adolescente, olha só. Espinhas, o sofrimento de escolher as roupas certas para ninguém rir de você e o mistério das garotas são só três delas. O que descobri depois da minha ida à casa do Donald Marsden (do meu sequestro, para ser bem direto) foi que também há vantagens.
Uma delas é não ter que aguentar um monte de repórteres e câmeras de televisão na investigação, porque não precisei testemunhar presencialmente. Dei um depoimento em vídeo, com o advogado que Monty Grisham indicou de um lado e a minha mãe do outro. A imprensa sabia quem eu era, mas meu nome não apareceu nunca porque eu era aquela coisa mágica: menor de idade. O pessoal da escola descobriu (o pessoal da escola quase sempre descobria tudo), mas ninguém encheu meu saco. Eu só recebi respeito. Não precisei descobrir como falar com as garotas porque elas iam até meu armário e falavam comigo.
O melhor de tudo foi que não houve problema com meu celular… que era, na verdade, o celular da Liz. Ele não existia mais mesmo. Minha mãe o jogou no incinerador, bon voyage, e me disse para falar que perdi se alguém perguntasse. Ninguém perguntou. Quanto ao motivo para Liz ter ido a Nova York me buscar, a polícia chegou sozinha à conclusão que a minha mãe tinha sugerido: Liz queria um garoto com ela quando fosse para o oeste, talvez achando que uma mulher viajando com um garoto fosse atrair menos atenção. Ninguém pareceu considerar a possibilidade de que eu tentaria fugir, ou pelo menos gritar pedindo ajuda quando parássemos para botar gasolina e comer na Pensilvânia ou Indiana ou Montana. Claro que eu não faria isso. Eu seria a vítima dócil de sequestro, assim como Elizabeth Smart. Porque eu era criança.
Os jornais alardearam a notícia por uma semana, mais ou menos, principalmente os tabloides, em parte porque Marsden era um “chefão das drogas”, mas mais por causa das fotos encontradas no quarto do pânico. E Liz saiu da história como uma espécie de heroína, por mais estranho que possa parecer. EX-POLICIAL MORRE DEPOIS DE MATAR CHEFÃO DA TORTURA PORNÔ, declarou o Daily News. Não houve menção a ela ter perdido o emprego como resultado de uma investigação da Divisão de Assuntos Internos e de um teste positivo para drogas, mas o fato de ela ter sido fundamental na localização da última bomba do Thumper antes que pudesse matar várias pessoas foi mencionado. O Post devia ter enfiado um repórter na casa de Marsden (“Baratas entram em qualquer buraco”, disse minha mãe), ou talvez tivessem uma foto da casa de Renfield no arquivo, porque a manchete dizia DENTRO DA CASONA DOS HORRORES DO DONNIE GRANDÃO. Minha mãe riu dessa, dizendo que a compreensão do Post sobre o uso de aumentativo era um ótimo paralelo para a abordagem que davam à política americana.
— Não é casona o aumentativo de casa — disse ela quando eu perguntei. — É casarão.
Tudo bem, mãe. Você que sabe.