Depois

Stephen King · Capítulo 30 de 72

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Depois

Capítulo 29

A polícia encontrou e desarmou a última bomba do Thumper naquela noite de quarta, por volta das oito horas. Minha mãe e eu estávamos vendo Pessoa de Interesse na televisão quando a estação interrompeu a transmissão com um boletim especial. Os cães farejadores fizeram muitas buscas sem encontrarem nada, e os agentes do Esquadrão Antibombas estava prestes a levá-los embora quando um deles deu o alerta no corredor de utensílios domésticos. Eles tinham passado por lá várias vezes, e não havia espaço nas prateleiras para esconder uma bomba, mas um dos policiais por acaso olhou para cima e viu um dos painéis do teto meio fora de lugar. A bomba estava lá, entre o teto e o telhado. Estava presa a uma viga com um fio elástico laranja, do tipo usado em bungee-jump.

Therriault apostou tudo naquela: dezesseis bananas de dinamite e uns doze detonadores. Ele já tinha deixado os despertadores para trás; a bomba estava presa a um timer digital bem parecido com os dos filmes em que estive pensando (um dos policiais tirou uma foto depois que foi desarmado e apareceu no New York Times do dia seguinte). Estava programado para explodir às 17h da sexta-feira, quando a loja estava sempre mais cheia. No dia seguinte, no NY1 (estávamos de volta ao canal favorito da minha mãe), um dos caras do Esquadrão Antibombas disse que teria derrubado o teto inteiro. Quando perguntaram quantas pessoas teriam sido mortas com uma explosão daquelas, ele só balançou a cabeça.

Naquela noite de quinta, enquanto estávamos jantando, minha mãe falou:

— Você fez uma coisa boa, Jamie. Uma coisa incrível. A Liz também, apesar dos motivos que ela pode ter tido. Isso me faz pensar em uma coisa que o Marty disse uma vez. — Ela estava falando do sr. Burkett, na verdade prof. Burkett, ainda emérito e ainda bem vivo.

— O que ele disse?

— “Às vezes, Deus usa uma ferramenta quebrada.” Era de um dos escritores ingleses antigos da aula que ele dava.

— Ele sempre me pergunta o que estou aprendendo na escola e sempre balança a cabeça como se achasse que minha educação está sendo péssima.

Minha mãe riu.

— Aquele é um homem explodindo de tanto conhecimento, ainda afiado, com a cabeça perfeita. Lembra quando fizemos a ceia de Natal com ele?

— Claro. Com sanduíche de peru e molho de cranberry, o melhor! E chocolate quente!

— É, foi uma noite boa. Vai ser uma pena quando ele falecer. Come tudo, tem torta de maçã crocante de sobremesa. A Barbara que fez. E Jamie?

Eu olhei para ela.

— Podemos não falar mais disso? Tipo… deixar pra trás?

Achei que ela não estava falando só sobre a Liz, nem só sobre Therriault; ela estava falando também sobre eu ver gente morta. Era o que nosso professor de computação chamaria de pedido global, e, por mim, tudo bem. Mais que tudo bem.

— Claro.

Naquele momento, sentado na mesinha iluminada da cozinha comendo pizza, eu achei mesmo que dava para deixar para trás. Só que eu estava enganado. Só voltei a ver Liz Dutton dois anos depois e quase nem pensei nela, mas vi Ken Therriault naquela noite mesmo.

Eu falei no começo que essa história é de terror.