Depois

Stephen King · Capítulo 39 de 72

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Depois

Capítulo 38

Agora eu tenho vinte e dois anos, quase vinte e três, e moro no mundo do depois. Posso votar, dirigir, comprar bebida e cigarros (o que planejo parar de fazer em breve). Eu entendo que ainda sou muito jovem e tenho certeza de que, quando olhar para trás, eu vou ficar impressionado (com sorte, não repugnado) com o quão ingênuo e inexperiente eu era. Mesmo assim, vinte e dois anos fica a anos-luz de treze. Sei mais agora, mas acredito em menos coisas. O prof. Burkett nunca teria conseguido fazer a mesma magia em mim agora que fez na época. Não que eu esteja reclamando! Kenneth Therriault (não sei o que ele realmente era, então vamos deixar assim por agora) estava tentando destruir minha sanidade. A magia do professor a salvou. Pode ter até salvado a minha vida.

Depois, quando pesquisei o assunto para um trabalho de antropologia da faculdade (NYU, claro), eu descobri que metade do que ele me contou naquele dia era verdade. A outra metade era mentira. Mas tenho que dar crédito a ele pela invenção (de alta qualidade, a escritora de romances britânicos da minha mãe, Philippa Stephens, teria dito). Olha só isso e saca a ironia: meu tio Harry não tinha nem cinquenta anos e já estava gagá, enquanto Martin Burkett, embora já estivesse com oitenta e tantos, ainda conseguia ser criativo no improviso… e tudo em serviço de um garoto perturbado que apareceu sem ser convidado, levando um escondidinho e uma história estranha.

O Ritual de Chüd, disse o professor, era praticado por uma seita de budistas tibetanos e nepaleses. (Verdade.)

Eles faziam o ritual para atingir um estado de perfeito nada e um estado resultante de serenidade e clareza espiritual. (Verdade.)

Também era considerado útil para combater demônios, tanto os da mente quanto os sobrenaturais que invadiam de fora. (Uma área meio nebulosa.)

— Por isso, é perfeito pra você, Jamie, porque cobre todas as possibilidades.

— Você quer dizer que pode funcionar mesmo se Therriault não existir e eu só estiver maluco mesmo.

Ele me olhou de um jeito que misturava reprovação e impaciência e que devia ter sido aperfeiçoado ao longo da carreira de professor.

— Pare de falar e tente ouvir, se você não se importar.

— Desculpa. — Eu estava na minha segunda xícara de chá, me sentindo energizado.

Com a parte básica explicada, o prof. Burkett agora começou a falar do mundo de faz de conta… não que eu soubesse a diferença. Ele disse que Chüd era especificamente útil quando um daqueles budistas das montanhas encontrava um iéti, também conhecido como abominável homem da neves.

— Isso existe? — perguntei.

— Como com o seu sr. Therriault, eu não tenho como dizer com certeza. Mas, também como é com você e seu sr. Therriault, eu posso dizer que os tibetanos acreditam que existe.

O professor continuou falando que um infeliz que encontra um iéti é assombrado por ele pelo resto da vida. A não ser, claro, que a criatura pudesse ser envolvida e vencida no Ritual de Chüd.

Se você estiver acompanhando isto, sabe que, se baboseira fosse uma modalidade das Olimpíadas, os juízes teriam dado ao prof. Burkett só dez por essa, mas eu só tinha treze anos e estava em um momento muito difícil. Isso quer dizer que engoli tudinho. Se uma parte de mim teve ideia do que o prof. Burkett estava planejando (eu não consigo lembrar se teve), eu sufoquei esse pensamento. Você precisa lembrar que eu estava desesperado. A ideia de ser seguido por Kenneth Therriault, também conhecido como Thumper, pelo resto da minha vida, de ser assombrado por ele, para usar a palavra do professor, era a coisa mais horrível que eu conseguia imaginar.

— Como funciona? — perguntei.

— Ah, você vai gostar dessa parte. É como um dos contos de fadas sem censura do livro que eu te dei. De acordo com as histórias, você e o demônio se unem mordendo a língua um do outro.

Ele falou isso com certo prazer, e eu pensei: Gostar? Por que eu gostaria de algo assim?

— Se essa união for executada, você e o demônio passariam a ter uma batalha de vontades. Isso aconteceria telepaticamente, suponho, considerando que seria difícil falar ao mesmo tempo que se está preso numa… hum… mordida mútua de línguas. O primeiro a se retirar perde todo o poder para o vencedor.

Fiquei olhando para ele com a boca aberta. Eu tinha sido criado para ser educado, principalmente perto dos clientes e amigos da minha mãe, mas fiquei com nojo demais para considerar as sutilezas sociais.

— Se você acha que eu vou… o quê? Dar um beijo de língua naquele cara, você só pode estar louco! Primeiro de tudo que ele está morto. Você não entendeu isso?

— Sim, Jamie, acredito que entendi.

— Além do mais, como eu o levaria a fazer isso? O que eu diria, vem cá, Ken querido, bota a língua aqui?

— Terminou? — perguntou o prof. Burkett com tranquilidade, novamente fazendo com que eu me sentisse o aluno mais perdido da sala de aula. — Acho que o aspecto de morder as línguas é pra ser simbólico. Assim como as hóstias e as tacinhas de vinho são simbolismo da última ceia de Jesus com os discípulos.

Eu não entendi isso porque não era de frequentar a igreja, então fiquei de boca calada.

— Me escute, Jamie. Escute com atenção.

Eu escutei como se minha vida dependesse daquilo. Porque eu achava que dependia.