Depois

Stephen King · Capítulo 65 de 72

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Depois

Capítulo 64

Minhas pernas estavam quase cedendo e a escada estava perto, mas eu que não ia me sentar nela com o corpo quebrado de Liz Dutton caído embaixo. Cambaleei até a sala de estar rebaixada e desabei em uma das poltronas próximas. Baixei a cabeça e chorei. Foram lágrimas de horror e histeria, mas acho que também eram lágrimas de alegria, embora eu não consiga ter certeza. Eu estava vivo. Estava em uma casa escura no fim de uma estrada particular com dois cadáveres e o que restara dos dois (Marsden estava me olhando da sacada), mas eu estava vivo.

— Três — falei. — Três cadáveres e três restos. Não esquece o Teddy.

Eu comecei a rir, mas pensei em Liz rindo do mesmo jeito antes de morrer e me obriguei a parar. Tentei pensar no que devia fazer. Decidi que a primeira coisa era fechar aquela porra de porta da frente. Aqueles dois espectros (uma palavra que aprendi, como você deve ter adivinhado, depois) me olhando não era uma coisa agradável, mas eu estava acostumado com pessoas mortas me vendo enquanto as via. O que não gostei mesmo foi da ideia de Therriault lá fora, com a luz morta brilhando pela pele se desfazendo. Eu falei para ele ir e ele foi… mas e se voltasse?

Eu passei por Liz e fechei a porta. Quando voltei, perguntei a ela o que deveria fazer. Eu não esperava resposta, mas recebi uma.

— Liga pra sua mãe.

Pensei na linha fixa no quarto do pânico, mas não ia subir aquela escada nem entrar naquele quarto. Nem por um milhão de dólares.

— Seu celular está com você, Liz?

— Está. — Parecendo desinteressada, como a maioria parece. Mas não todos; a sra. Burkett tinha vida suficiente nela para criticar os méritos artísticos do meu peru. E Donnie Grandão tentou esconder suas fotos de pornografia e tortura.

— Onde está?

— No bolso do casaco.

Fui até o corpo dela e enfiei a mão no bolso do casaco do lado direito. Encostei no cabo da arma que ela usou para acabar com a vida de Donald Marsden e puxei a mão como se tivesse tocado em alguma coisa quente. Tentei o outro e achei o celular. Eu acendi a tela.

— Qual é a senha?

— É 2665.

Eu digitei os números, digitei o código de área de Nova York e os três primeiros números da minha mãe, mas mudei de ideia e fiz outra ligação.

— Aqui é 911. Qual é a emergência?

— Estou em uma casa com duas pessoas mortas. Uma foi assassinada e a outra caiu da escada.

— Isso é piada, menino?

— Quem me dera. A mulher que caiu da escada me sequestrou e me trouxe pra cá.

— Qual é sua localização? — Agora a mulher do outro lado pareceu estar prestando atenção.

— Fica no fim de uma estrada particular perto de Renfield, senhora. Não sei quantos quilômetros nem se tem número de estrada. — E pensei no que deveria ter dito imediatamente. — É a casa de Donald Marsden. Ele é o homem que a mulher matou. Foi ela que caiu da escada. O nome dela é Liz Dutton. Elizabeth.

Ela me perguntou se eu estava bem e me mandou aguentar firme que tinham policiais a caminho. Eu aguentei firme e liguei para a minha mãe. Essa conversa foi bem mais longa e nem sempre muito clara, porque nós dois estávamos nervosos. Eu contei tudo, menos sobre a coisa da luz negra. Ela teria acreditado em mim, mas um de nós ter pesadelos já era suficiente. Eu só falei que a Liz tropeçou quando estava me perseguindo e que caiu e quebrou o pescoço.

Durante nossa conversa, Donald Marsden desceu a escada e parou perto da parede. Um morto sem a parte de cima da cabeça, a outra morta com a cabeça torta para o lado. Que par eles formavam. Eu falei que essa história era de terror, eu dei o aviso para você, mas eu consegui olhar para eles sem ficar muito consternado porque o pior horror tinha ido embora. A não ser que eu o quisesse de volta, claro. Se quisesse, voltaria.

Eu só precisava assobiar.

Depois de quinze minutos muito longos, eu comecei a ouvir as sirenes ao longe. Depois de vinte e cinco, as luzes vermelhas e azuis entraram pelas janelas. Havia pelo menos uns seis policiais, um grupo regular. Primeiro, foram só formas escuras ocupando a porta, bloqueando o que restava de luz do dia, supondo que houvesse alguma. Um perguntou onde ficavam os malditos interruptores. Outro disse “Achei”, mas falou um palavrão quando não aconteceu nada.

— Tem alguém aí? — gritou outro. — Se tiver alguém aqui, se identifique!

Eu me levantei e ergui as mãos, apesar de duvidar que eles pudessem ver algo mais do que uma forma escura se movendo.

— Estou aqui! Minhas mãos estão levantadas! As luzes se apagaram! Eu sou o garoto que ligou!

Lanternas se acenderam, raios confusos de luz que procuraram e acabaram me encontrando. Um dos policiais se adiantou. Era uma mulher. Ela contornou Liz sem saber por que andou daquele jeito. Primeiro foi com a mão na arma enfiada no coldre, mas, quando me viu, ela tirou a mão dali. O que foi um alívio.

Ela se apoiou no joelho.

— Você está sozinho na casa, meu filho?

Eu olhei para Liz. Olhei para Marsden, parado bem longe da mulher que o matou. Até Teddy tinha chegado. Ele parou na porta por onde os policiais entraram, talvez atraído pela comoção, talvez só por impulso. Os Três Patetas Mortos-Vivos.

— Estou — falei. — Sou a única pessoa aqui.