Depois
Capítulo 14
Está na hora de falar sobre Liz Dutton, então olha só. Olha só a dela.
Liz tinha menos de um metro e setenta, quase a mesma altura da minha mãe, com cabelo preto até os ombros (quando não estava preso no rabo de cavalo que a polícia aprovava) e tinha o que alguns dos garotos da minha turma de quarto ano chamariam (se tivessem ideia do que estavam falando) de “um corpão”. Ela tinha um sorriso lindo e olhos cinzentos que costumavam ser calorosos. A não ser que ela estivesse com raiva, claro. Quando ela estava com raiva, os olhos cinzentos ficavam frios como um dia de chuva gelada no começo do inverno.
Eu gostava dela porque ela sabia ser gentil, tipo quando minha boca e minha garganta estavam secas e ela me deu o que tinha sobrado da coca do Burger King sem nem eu precisar pedir (minha mãe estava obcecada em pegar todos os detalhes do último livro ainda não escrito do sr. Thomas na hora). Além disso, ela às vezes levava um carrinho Matchbox para a minha coleção cada vez maior, e de vez em quando se sentava no chão ao meu lado e brincava comigo. Às vezes, ela me dava um abraço e bagunçava meu cabelo. Às vezes, fazia cócegas até eu gritar pedindo para ela parar ou eu ia acabar fazendo xixi na calça… o que ela chamava de “regar a cueca”.
Eu não gostava dela porque às vezes, principalmente depois da nossa ida ao Chalé dos Paralelepípedos, eu olhava e a via me observando como se eu fosse um inseto em uma lâmina de microscópio. Não havia calor nos olhos cinzentos dela nesses momentos. Ou quando ela me dizia que meu quarto estava uma bagunça, o que em geral estava mesmo, embora minha mãe não parecesse se importar. “Nossa, até dói olhar”, Liz dizia. Ou: “Você vai viver assim a vida toda, Jamie?”. Ela também achava que eu era velho demais para ter uma luz noturna, mas minha mãe encerrou essa discussão dizendo “Deixa ele em paz, Liz. Ele vai parar quando estiver pronto”.
Mas o pior? Ela roubava muito da atenção e do afeto da minha mãe que antes eram para mim. Bem depois, quando li algumas das teorias de Freud em uma aula de psicologia no segundo ano da faculdade, me dei conta de que, quando criança, eu tinha uma fixação clássica pela mãe e via Liz como minha rival.
Bom, dã.
Claro que eu sentia ciúmes e tinha bons motivos para isso. Eu não tinha pai, nem sabia quem era o filho da puta, porque minha mãe não falava dele. Depois, descobri que ela teve um bom motivo para isso, mas na época eu só sabia que “Somos você e eu contra o mundo, Jamie”. Até a Liz chegar, claro. E lembre-se disto, eu não tinha muito da minha mãe mesmo antes da Liz, porque minha mãe estava ocupada demais tentando salvar a agência depois que ela e o tio Harry se foderam nas mãos do James Mackenzie (eu odiava que ele e eu tínhamos o mesmo nome). Minha mãe estava sempre garimpando ouro no lodo, torcendo para encontrar outra Jane Reynolds.
Posso dizer que gostar e não gostar estavam bem equilibrados no dia em que fomos ao Chalé dos Paralelepípedos, com gostar um pouco na frente por pelo menos quatro motivos: os carrinhos e caminhões Matchbox não eram coisa pouca; sentar entre elas no sofá e ver The Big Bang Theory era divertido e aconchegante; eu queria gostar de quem minha mãe gostava; Liz a fazia feliz. Depois (olha essa palavra de novo), nem tanto.
Aquele Natal foi excelente. Eu ganhei presentes legais das duas e almoçamos cedo no Chinese Tuxedo antes de a Liz ter que ir trabalhar. Porque, ela disse, “Para o crime não tem feriado”. E minha mãe e eu fomos até o prédio antigo na Park Avenue.
Minha mãe manteve contato com o sr. Burkett depois que nos mudamos, e às vezes nós três nos encontrávamos.
— Porque ele é solitário — dizia minha mãe —, mas sabe por que mais, Jamie?
— Porque a gente gosta dele — eu respondia, e era verdade.
Nós fizemos a ceia de Natal no apartamento dele (na verdade, sanduíches de peru com molho de cranberry do Zabar) porque sua filha estava na Costa Oeste e não conseguiu voltar. Descobri mais sobre isso depois.
E, sim, porque a gente gostava dele.
Como posso já ter contado, o sr. Burkett era na verdade prof. Burkett, agora emérito, que eu entendia que significava que ele estava aposentado, mas ainda podia andar pela NYU e dar umas aulas ocasionais na superespecialidade dele, que por acaso era literatura europeia e inglesa. Uma vez, cometi o erro de chamar a matéria pela sigla LEI e ele me corrigiu, dizendo que lei era o que a gente tinha que obedecer.
Mesmo sem recheio de peru e só com cenouras de legume, a refeição foi gostosa e trocamos mais presentes depois. Dei um globo de neve para a coleção do sr. Burkett. Depois, descobri que a coleção era de sua esposa, mas ele admirou o globo, agradeceu e botou na prateleira da lareira com os outros. Minha mãe deu para ele um livrão chamado The New Annotated Sherlock Holmes, porque quando ele trabalhava em tempo integral dava uma aula chamada ficção inglesa gótica e de mistério.
Ele deu para a minha mãe um medalhão que disse que tinha sido da esposa. Minha mãe protestou e disse que ele devia guardar para a filha. O sr. Burkett disse que Siobhan tinha ficado com todas as boas joias de Mona e, além disso, “foi à roça perdeu a carroça”. Acho que isso queria dizer que, se a filha dele (pelo jeito como ele pronunciava, eu achava que o nome dela era Shivonn) não podia se dar ao trabalho de viajar para o leste, ela podia muito bem se danar. Eu meio que concordava com isso, porque quem sabia quantos outros Natais ela teria com o pai vivo? Ele era mais velho do que Deus. Além do mais, pais eram meu ponto fraco, já que eu não tinha um. Sei que dizem que não se sente falta do que nunca se teve, e há certa verdade nisso, mas eu sabia que estava faltando alguma coisa.
Meu presente do sr. Burkett também foi um livro. Chamava-se Vinte contos de fadas sem censura.
— Você sabe o que significa sem censura, Jamie? — Uma vez professor, sempre professor, eu acho.
Eu fiz que não.
— O que você acha? — Ele estava inclinado para a frente com as mãos nodosas entre a coxas magrelas, sorrindo. — Será que você consegue adivinhar pelo contexto do título?
— Sem cortes? Tipo, pra maiores?
— Na mosca. Muito bem.
— Espero que não tenha muito sexo — disse minha mãe. — Ele lê em nível de ensino médio, mas só tem nove anos.
— Não tem sexo, só a famosa violência — disse o sr. Burkett (eu não o chamava de professor naquela época porque parecia arrogante). — Por exemplo, na história original da Cinderela, que você vai ver no livro, as irmãs malvadas…
Minha mãe se virou para mim e fingiu sussurrar:
— Alerta de spoiler.
O sr. Burkett nem quis saber. Ele tinha entrado no modo professor. Eu também não me importei, era interessante.
— No original, as irmãs malvadas cortam os dedos dos próprios pés pra tentar fazer o sapatinho de cristal caber.
— Eca! — Falei isso de uma forma que significava que horror, conta mais.
— E o sapatinho de cristal não era de cristal, Jamie. Isso parece ter sido um erro de tradução que foi imortalizado pelo Walt Disney, o homogeneizador de conto de fadas. O sapatinho na verdade era feito de pele de esquilo.
— Uau — falei. Não era tão interessante como as irmãs cortando os dedos dos pés, mas eu queria que ele continuasse falando.
— Na história original do Príncipe Sapo, a princesa não beija o sapo. O que ela faz é…
— Chega — disse a minha mãe. — Deixa ele ler as histórias e descobrir sozinho.
— É sempre melhor mesmo — concordou o sr. Burkett. — E podemos conversar depois, Jamie.
O senhor quer dizer que vai falar enquanto eu escuto, pensei, mas não teria problema nenhum.
— Que tal um chocolate quente? — perguntou minha mãe. — Também é do Zabar, e eles fazem o melhor do mundo. Posso esquentar em um minuto.
— Vem, Macduff — disse o sr. Burkett —, e que por todos seja amaldiçoado quem primeiro gritar: “Estou cansado!”. — Isso queria dizer sim, e nós tomamos o chocolate com chantili.
Na minha lembrança, esse foi meu melhor Natal da infância, desde as panquecas de Papai Noel que a Liz fez de manhã até o chocolate quente no apartamento do sr. Burkett, no mesmo andar onde eu e minha mãe morávamos antes. A véspera de Ano-Novo também foi boa, mas dormi no sofá entre a minha mãe e Liz antes de a bola descer na Times Square. Tudo ótimo. Mas, em 2010, as brigas começaram.
Antes disso, as duas tinham o que minha mãe chamava de “discussões animadas”, em geral sobre livros. Elas gostavam de muitos escritores em comum (o que as uniu foi o Regis Thomas, lembra?) e dos mesmos filmes, mas a Liz achava que a minha mãe se focava demais em coisas como vendas e adiantamentos e os registros de sucesso dos escritores e não nas histórias. E ela ria do trabalho de alguns clientes da minha mãe, chamando de “subliteratura”. Minha mãe respondia que os escritores de subliteratura pagavam o aluguel e a conta de luz. Sem mencionar que pagavam pelo lar onde o tio Harry marinava no próprio xixi.
Depois, as brigas começaram a se afastar do terreno mais ou menos seguro de livros e filmes e a ficarem mais acaloradas. Algumas eram sobre política. Liz amava um congressista chamado John Boehner. Minha mãe o chamava de John Brocha, que era como uns garotos que eu conhecia chamavam o pinto mole. Talvez ela estivesse falando do pincel, mas acho que não. Minha mãe achava a Nancy Pelosi (outra política, que você deve conhecer porque ela ainda está na ativa) uma mulher corajosa que trabalhava em um “meio masculino”. Liz a achava uma bostinha liberal qualquer.
A maior briga que elas tiveram sobre política foi quando Liz falou que não acreditava totalmente que o Obama tinha nascido nos Estados Unidos. Minha mãe a chamou de burra e racista. Elas estavam no quarto de porta fechada, era lá que a maioria das discussões acontecia, mas as vozes estavam altas e eu ouvi cada palavra na sala. Alguns minutos depois, Liz foi embora, batendo a porta ao sair, e só voltou quase uma semana depois. Quando voltou, elas fizeram as pazes. No quarto. Com a porta fechada. Eu também ouvi isso porque a parte de fazer as pazes era bem barulhenta. Tinha gemidos e risadas e o barulho das molas da cama.
Elas também discutiam sobre táticas policiais, e isso foi alguns anos antes do Black Lives Matter. Esse era um ponto sensível para Liz, como você pode imaginar. Minha mãe condenava o que chamava de “perfilamento racial” e Liz dizia que só se pode desenhar um perfil se as feições estiverem claras. (Não entendi na época e não entendo agora.) Minha mãe disse que, quando pessoas negras e pessoas brancas eram sentenciadas pelo mesmo tipo de crime, os negros recebiam sentenças mais pesadas, e às vezes os brancos nem chegavam a ser presos. Liz respondeu dizendo:
— Me mostra uma avenida Martin Luther King em qualquer cidade e eu te mostro que é uma área de alta criminalidade.
As discussões começaram a ter intervalos menores, e mesmo na minha tenra idade eu sabia o grande motivo disso: elas estavam bebendo demais. Os cafés da manhã com comidas quentes, que minha mãe fazia de duas a três vezes por semana, praticamente pararam. Eu acordava de manhã e elas estavam sentadas usando os roupões iguais, curvadas sobre canecas de café, os rostos pálidos e os olhos vermelhos. Havia três, às vezes quatro garrafas vazias de vinho no lixo com guimbas de cigarro dentro.
Minha mãe dizia:
— Bebe um suco e come cereal enquanto eu me visto, Jamie.
E Liz mandava que eu não fizesse muito barulho porque a aspirina ainda não tinha começado a fazer efeito, a cabeça dela estava estourando e ela teria inspeção ou teria que fazer tocaia por causa de algum caso. Mas não da força-tarefa do Thumper; ela não conseguiu entrar.
Eu tomava meu suco e comia meu cereal quieto como um ratinho nessas manhãs. Quando minha mãe estava vestida e pronta para me levar para a escola (ignorando o comentário da Liz de que eu estava grande o suficiente para ir sozinho), já estava começando a voltar ao normal.
Tudo isso me parecia comum. Acho que o mundo só começa a entrar em foco quando temos quinze ou dezesseis anos; até lá, a gente aceita o que vem e segue o baile. Aquelas duas mulheres de ressaca curvadas na frente do café era como eu começava o dia em algumas manhãs que acabaram virando muitas manhãs. Eu nem reparei no cheiro de vinho que começou a penetrar em tudo. Só uma parte de mim deve ter reparado, porque, anos depois, na faculdade, quando meu colega de quarto derramou uma garrafa de Zinfandel na sala do nosso apartamentinho, tudo voltou e foi como levar uma porrada na cara com uma tábua. O cabelo embaraçado da Liz. Os olhos fundos da minha mãe. O fato de eu saber que tinha que fechar o armário do cereal lenta e silenciosamente.
Falei para o meu colega de quarto que ia até o 7-Eleven comprar um maço de cigarros (sim, acabei incorporando esse mau hábito), mas precisava mesmo me afastar daquele cheiro. Se pudesse escolher entre ver mortos (sim, eu ainda vejo) e as lembranças trazidas pelo cheiro de vinho derramado, eu escolheria os mortos.
Sem nem piscar a porra dos olhos.