Depois

Stephen King · Capítulo 3 de 72

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Depois

Capítulo 2

Pois é. Eu vejo gente morta. Pelo que lembro, sempre vi. Mas não é como naquele filme com o Bruce Willis. Pode ser interessante, pode ser assustador às vezes (o cara do Central Park), pode ser um saco, mas em geral só é. Tipo ser canhoto ou saber tocar música clássica aos três anos de idade ou ter Alzheimer precoce, como aconteceu com o tio Harry quando ele tinha só quarenta e dois anos. Aos seis anos, quarenta e dois me parecia bem velho, mas mesmo na época eu entendi que era cedo para esquecer quem você é. Ou os nomes das coisas; por algum motivo, isso era o que mais me assustava quando a gente ia ver o tio Harry. Os pensamentos dele não se afogaram em sangue por causa de uma artéria arrebentada no cérebro, mas se afogaram do mesmo jeito.

Minha mãe e eu seguimos até o 3C e minha mãe abriu a porta. Isso demorou um tempo, porque a porta tem três trancas. Ela dizia que era o preço que se paga por viver com estilo. Nós tínhamos um apartamento de seis cômodos com vista para a avenida. Minha mãe chamava de Palácio na Park. Nós tínhamos uma faxineira que ia duas vezes por semana. Minha mãe tinha um Range Rover na garagem que ficava na Segunda Avenida, e às vezes nós íamos até a casa do tio Harry em Speonk. Graças a Regis Thomas e alguns outros escritores (mas quase sempre o velho Regis), nós morávamos bem. Não durou muito tempo, um desenvolvimento deprimente que vou discutir daqui a pouco. Quando penso no passado, às vezes acho que minha vida parecia um livro do Dickens, só que cheio de palavrões.

Minha mãe jogou a sacola do manuscrito e a bolsa no sofá e se sentou. O sofá fez um barulho de peido que sempre fazia a gente rir, mas não naquele dia.

— Puta que pariu — disse minha mãe, e levantou a mão em um gesto de pare. — Você…

— Eu não ouvi, pode deixar — falei.

— Que bom. Preciso de uma coleira de eletrochoque ou alguma outra coisa que apite toda vez que eu falar um palavrão perto de você. Assim eu aprenderia. — Ela projetou o lábio inferior e soprou a franja. — Tenho umas duzentas páginas do livro mais novo do Regis pra ler…

— Qual é o nome desse? — perguntei, já sabendo que o título teria a palavra Roanoke. Sempre tinha.

— Donzela fantasma de Roanoke — disse ela. — É um dos melhores dele, com muito se… muitos beijos e abraços.

Eu franzi o nariz.

— Foi mal, moleque, mas a mulherada ama corações ardentes e coxas quentes. — Ela olhou para a sacola com Donzela fantasma de Roanoke dentro, preso com os seis ou oito elásticos de sempre, sendo que um sempre arrebentava e fazia a minha mãe falar os melhores palavrões. Muitos deles eu ainda uso. — Agora, não estou com vontade de fazer nada, só de tomar uma taça de vinho. Talvez até uma garrafa inteira. Mona Burkett era uma pentelha de marca maior, pode ser até que ele fique melhor sem ela, mas agora ele está arrasado. Só espero que ele tenha parentes, porque não estou curtindo a ideia de ser a Consoladora de Plantão.

— Ela também amava ele — falei.

Minha mãe me olhou de um jeito estranho.

— É? Você acha?

— Eu sei. Ela disse uma coisa feia sobre meu peru, mas depois ela chorou e deu um beijo na bochecha dele.

— Você imaginou isso, James — disse ela, mas sem muito entusiasmo. Ela já sabia, tenho certeza de que sabia, mas os adultos têm dificuldade em acreditar, e vou dizer por quê. Quando eles descobrem quando crianças que o Papai Noel é mentira e que Cachinhos Dourados não é uma menina de verdade e que o Coelhinho da Páscoa é enganação (são só três exemplos, eu poderia dar mais), isso gera um complexo e eles param de acreditar em tudo que não conseguem ver.

— Não, eu não imaginei. Ela falou que eu nunca seria Rembrandt. Quem é esse?

— Um artista — disse ela, e soprou a franja de novo. Não sei por que ela não cortava logo a franja ou não usava o cabelo de um jeito diferente. Ela podia porque era muito bonita.

— Quando a gente for lá comer, não vai dizer nada para o sr. Burkett sobre o que você acha que viu.

— Não vou falar nada, mas ela tinha razão. Meu peru está uma merda. — Eu estava me sentindo mal por isso.

E acho que ficou evidente, porque ela abriu os braços.

— Vem cá, moleque.

Eu fui e a abracei.

— Seu peru é lindo. É o peru mais bonito que eu já vi. Vou pendurar na geladeira e vai ficar lá pra sempre.

Eu a abracei com o máximo de força que consegui e escondi o rosto no ombro dela, para poder sentir o perfume.

— Eu te amo, mãe.

— Eu também te amo, Jamie, um milhão de muitos. Agora vai brincar ou ver televisão. Preciso fazer umas ligações antes de pedir comida chinesa.

— Tá. — Fui na direção do meu quarto e parei. — Ela botou os anéis na prateleira de cima do armário do corredor, atrás de uns álbuns.

Minha mãe me olhou de boca aberta.

— Por que ela faria isso?

— Eu perguntei e ela disse que não sabia. Disse que nessa hora os pensamentos dela já estavam se afogando em sangue.

— Ah, meu Deus — sussurrou minha mãe e levou a mão ao pescoço.

— Você precisa pensar em um jeito de dizer isso pra ele quando estivermos comendo. Pra ele não se preocupar. Posso comer frango General Tso?

— Pode — disse ela. — E arroz integral, não branco.

— Tá, tá, tá — falei, e fui brincar com meus Legos. Eu estava fazendo um robô.