Depois

Stephen King · Capítulo 70 de 72

Páginas do PDF

Depois

Capítulo 69

 

Estou quase terminando agora (e lembra quando eu achei que trinta páginas era muito!), mas ainda não terminei, então não desiste de mim antes de ler isto:

Meus avós, meus únicos avós, no fim das contas, morreram a caminho de uma festa de Natal. Um cara que encheu a cara de alegria natalina desviou por três pistas de uma rodovia de quatro e bateu de frente neles. O bêbado sobreviveu, como acontece tantas vezes. Meu tio (que também era meu pai, no fim das contas) estava em Nova York quando recebeu a notícia, visitando várias festas de Natal, batendo papo com editores, agentes e escritores. A agência dele era novinha na época, e o tio Harry (querido papai!) era um cara na floresta cuidando de uma pilha de gravetos pegando fogo, torcendo para virar uma fogueira.

Ele voltou para Arcola, uma cidadezinha em Illinois, para o enterro. Depois que acabou, houve uma recepção na casa dos Conklin. Lester e Norma eram queridos e muita gente foi. Algumas levaram comida. Algumas levaram bebida, que é a madrinha de muitos bebês surpresa. Thia Conklin, recém-saída da faculdade e trabalhando no primeiro emprego em uma firma de contabilidade, bebeu muito. O irmão dela também. Ô-ôu, né?

Depois que todo mundo volta para casa, Harry a encontra no quarto, deitada na cama de camisola, chorando muito. Harry se deita ao lado dela e a toma nos braços. Só como consolo, sabe, mas um consolo leva a outro. Só foi aquela vez, mas uma vez basta, e seis semanas depois Harry, de volta a Nova York, recebe um telefonema. Não muito tempo depois, minha mãe grávida se junta à empresa.

A Agência Literária Conklin teria tido sucesso naquele campo difícil e competitivo sem ela ou a pilha de gravetos e folhas do meu pai/tio teria se apagado em um filete de fumaça antes de ele conseguir acrescentar pedaços maiores de madeira? Difícil dizer. Quando a coisa decolou, eu estava deitado em um bercinho, fazendo xixi em uma Pampers e balbuciando gugu. Mas ela era boa no trabalho, isso eu sei. Se não fosse, a agência teria afundado depois, quando o mercado financeiro despencou.

Tenho que dizer que existem muitos mitos falsos sobre bebês nascidos de incesto, principalmente quando envolve pai e filha e irmã e irmão. Sim, pode haver problemas médicos e, sim, as chances disso são um pouco maiores quando envolve incesto, mas a ideia de que a maioria desses bebês nasce com mente fraca, um olho ou pés sem dedos? Porra nenhuma. Eu descobri que um dos defeitos mais comuns nos bebês de relacionamentos incestuosos são dedos dos pés ou das mãos colados. Eu tenho cicatrizes na parte de dentro do segundo e terceiro dedo da mão esquerda, de um procedimento médico para separá-los quando eu era pequeno. Na primeira vez que perguntei sobre as cicatrizes, eu devia ter uns quatro ou cinco anos, minha mãe me disse que os médicos fizeram antes de ela me levar para casa do hospital.

— Molezinha — disse ela.

E tem também a outra coisa com que eu nasci, que pode ter alguma coisa a ver com o fato de que, de vez em quando, sob influência da dor do luto e do álcool, meus pais se aproximaram mais do que irmãos e irmãs deviam fazer. Ou talvez ver gente morta não tenha nada a ver com isso. Pais que não conseguem ter ritmo nem tocando a campainha podem produzir um prodígio do canto; analfabetos podem produzir um grande escritor. Às vezes, o talento vem do nada, ou é o que parece.

Só que, espera só, tem mais uma coisa.

Essa história toda é ficção.

Não sei como Thia e Harry se tornaram pais de um bebezinho chamado James Lee Conklin porque não perguntei nenhum outro detalhe ao tio Harry. Ele teria me contado, os mortos não conseguem mentir, como acho que já estabelecemos. Mas eu não quis saber. Depois que ele disse aquelas duas palavra, sou eu, eu me virei e entrei no residencial para encontrar minha mãe. Ele não foi atrás, e eu nunca mais o vi. Achei que ele talvez fosse ao funeral, ou que fosse aparecer na cerimônia de enterro, mas ele não apareceu.

No caminho de volta para a cidade (no ônibus, como antigamente), minha mãe me perguntou se havia alguma coisa errada. Eu disse que não, que eu só estava tentando me acostumar com a ideia de que o tio Harry tinha morrido mesmo.

— Parece com quando perdi meus dentes de leite — falei. — Tem um buraco em mim que eu fico sentindo.

— Eu sei — disse ela, me abraçando. — Eu sinto a mesma coisa. Mas não estou triste. Eu não esperava estar e não estou. Porque ele já tinha ido embora havia muito tempo.

Foi bom ser abraçado. Eu amava a minha mãe e ainda a amo, mas menti para ela naquele dia, e não só por omissão. Não foi como perder um dente; o que descobri foi como um dente novo nascendo, para o qual não havia espaço na minha boca.

Algumas coisas fazem a história que eu acabei de contar parecer mais provável. Lester e Norma Conklin foram mortos por um motorista bêbado enquanto estavam voltando de uma festa de Natal. Harry voltou a Illinois para o funeral; eu encontrei um artigo no Record Herald de Arcola que diz que ele fez o elogio fúnebre. Thia Conklin largou o emprego para ir a Nova York ajudar o irmão na agência literária nova dele no começo do ano seguinte. E James Lee Conklin fez sua estreia no mundo uns nove meses depois do funeral, no Lenox Hill Hospital.

Então, tá, tá, tá, tudo bem, pode ter sido como eu contei. Tem lógica suficiente para que seja assim. Mas também pode ter sido de outro jeito, um do qual eu gostaria bem menos. O estupro de uma jovem que bebeu até ficar inconsciente, por exemplo, o tal ato cometido pelo irmão mais velho, bêbado e cheio de tesão. O motivo para eu não ter perguntado foi simples: eu não queria saber. Se eu me pergunto se eles discutiram fazer um aborto? Às vezes. Se estou preocupado de ter herdado mais do meu tio/pai do que as covinhas que aparecem quando eu sorrio ou o fato de eu estar com os primeiros fios brancos no cabelo na tenra idade de vinte e dois anos? Para dizer abertamente, se estou com medo de começar a perder a sanidade na ainda tenra idade de trinta, trinta e cinco ou quarenta anos? Sim. Claro que estou. De acordo com a internet, meu pai-tio sofria de doença de Alzheimer familiar de início precoce. Ela está ligada aos genes PSEN1 e PSEN2, e, portanto, existe um exame para isso: é só cuspir em um tubo de ensaio e esperar a resposta. Acho que vou fazer.

Depois.

Mas tem uma coisa engraçada: ao olhar para essas páginas, vejo que a escrita foi melhorando ao longo da história. Não estou querendo dizer que estou no nível de um Faulkner nem de um Updike; o que estou dizendo foi que melhorei praticando, que acho que é o que acontece com a maioria das coisas da vida. Só vou ter que esperar que fique melhor e mais forte de outra formas quando encontrar novamente a coisa que pegou Therriault. Porque eu vou encontrar. Não a vejo desde aquela noite na casa de Marsden, quando o que Liz viu naquele espelho a deixou louca, mas aquilo ainda está esperando. Eu sinto. Sei, na verdade, apesar de não saber o que é.

Não importa. Eu não vou viver minha vida com a pergunta pendente se vou ou não perder a sanidade na meia-idade, e também não vou vivê-la com a sombra daquela coisa pairando acima de mim. Já tirou a cor de dias demais. O fato de eu ser filho de incesto parece risivelmente sem importância em comparação à casca preta de Therriault com a luz morta brilhando pelas rachaduras na pele.

Eu li muito nos anos desde que aquela coisa me pediu uma nova competição, outro Ritual de Chüd, e descobri muitas superstições e lendas antigas estranhas, coisas que nunca entraram nos livros de Roanoke de Regis Thomas nem no Drácula de Stoker. E, embora haja muitas coisas relacionadas à possessão dos vivos por demônios, eu ainda não encontrei uma que fale sobre uma criatura capaz de possuir os mortos. O mais perto que cheguei são histórias sobre fantasmas malignos, e não é a mesma coisa. Então, eu não tenho ideia de com que tenho que lidar. Só sei que preciso lidar. Vou assobiar, a coisa virá, vamos nos juntar em um abraço mútuo em vez da coisa de morder línguas do ritual, e depois… bom. Depois a gente vê, né?

É, a gente vê. A gente vê.

Depois.