Depois
Capítulo 55
— Com que pessoa morta vou ter que falar desta vez? Seja lá quem for e o que quer que a pessoa saiba, acho que não vai impedir que você vá pra prisão.
— Ah, eu não vou pra prisão — disse ela. — Não acho que eu curtiria a comida e muito menos a companhia.
Nós passamos por uma placa indicando a ponte Cuomo, que todo mundo em Nova York ainda chama de Tappan Zee, ou só Tap. Eu não gostei disso.
— Aonde estamos indo?
— Renfield.
O único Renfield que eu conhecia era o ajudante comedor de moscas do Conde em Drácula.
— Onde fica isso? Em Tarrytown?
— Não. É uma cidadezinha ao norte de New Paltz. Vamos levar duas ou três horas, então relaxa e aprecia a viagem.
Fiquei olhando para ela, mais do que alarmado, quase horrorizado.
— Você só pode estar de sacanagem! Eu tenho que voltar pra casa pro jantar!
— Tudo indica que Thia vai comer em um esplendor solitário hoje. — Ela pegou um frasquinho com um pó branco-amarelado no bolso do casaco, do tipo que tem uma colherzinha dourada presa na parte de dentro da tampa. Abriu-o com uma das mãos, virou um pouco do pó nas costas da mão que estava usando para dirigir e cheirou. Fechou a tampa, ainda com apenas uma das mãos, e guardou o frasco. A destreza e velocidade do processo denunciaram a prática que ela tinha.
Ela viu minha expressão e sorriu. Seus olhos estavam com um novo brilho.
— Nunca viu ninguém fazer isso? Que vida protegida você tem, Jamie.
Eu já tinha visto adolescentes fumando maconha, já tinha até experimentado, mas coisas mais pesadas? Não. Já tinham me oferecido ecstasy em um baile da escola, mas recusei.
Ela passou a palma da mão no nariz de novo, um gesto não muito encantador.
— Eu ofereceria um pouco, porque acredito em dividir, mas essa é minha mistura especial: cocaína e heroína, em dois pra um, com um toque de fentanila. Eu desenvolvi tolerância. Ia fazer sua cabeça explodir.
Talvez ela tivesse mesmo tolerância, mas deu para perceber quando fez efeito. Ela se sentou mais ereta e começou a falar mais rápido, mas pelo menos ainda estava dirigindo direito e dentro do limite de velocidade.
— Isso é culpa da sua mãe, sabe. Durante anos, eu só levei as drogas do Ponto A, que costumava ser a marina da rua 79 ou o aeroporto Stewart, para o Ponto B, que podia ser qualquer lugar dos cinco distritos. No começo, era só cocaína, mas os tempos mudaram por causa do OxyContin. Essa merda vicia rápido, tipo pá-pum. Quando os médicos pararam de fornecer, os viciados começaram a comprar nas ruas. Então o preço subiu e eles perceberam que dava pra ter a mesma onda com uma carreira da branquinha, e mais barato. Aí recorreram a isso. É isso que o homem que estamos indo encontrar fornecia.
— O homem que está morto.
Ela franziu a testa.
— Não me interrompe, moleque. Você queria saber, eu estou contando.
A única coisa que me lembro de querer saber era aonde estávamos indo, mas não falei isso. Eu estava tentando não sentir medo. Estava dando um pouco certo porque ela ainda era a Liz, mas não muito porque ela não parecia em nada com a Liz que eu conheci.
— Não usa o que você fornece, é o que dizem, é o mantra, mas, depois que a Thia me expulsou de casa, comecei a experimentar um pouco. Só pra não ficar deprimida demais. Depois, comecei a experimentar muito. Depois de um tempo, não dava mais pra chamar de experimentar. Eu já estava usando.
— A minha mãe te expulsou porque você levou esse lixo pra nossa casa. A culpa foi sua.
Provavelmente seria mais inteligente ficar calado, mas não consegui me segurar. Ela tentar culpar minha mãe pelo que se tornou me deixou com raiva de novo. De qualquer forma ela nem prestou atenção.
— Mas vou te dizer uma coisa, cam… Jamie. Eu nunca injetei — ela falou com uma espécie de orgulho desafiador. — Nem uma vez. Porque quando a gente cheira a gente tem chance de se livrar. Quem injeta nunca mais volta.
— Seu nariz está sangrando. — Era só um filete descendo pelo vão que fica entre o nariz e o lábio superior.
— Ah, é? Valeu. — Ela limpou com a base da mão de novo e se virou para mim por um segundo. — Eu limpei tudo?
— Aham. Agora, olha pra estrada.
— Sim, senhor fiscal — disse ela, e por um momento pareceu a antiga Liz. Não partiu meu coração, mas o apertou um pouquinho.
Nós dirigimos. O trânsito não estava ruim para uma tarde de dia de semana. Eu pensei na minha mãe. Ela ainda devia estar na agência, mas logo iria para casa. No começo, não ia se preocupar. Depois, se preocuparia um pouco. E depois, muito.
— Posso ligar pra minha mãe? Não vou dizer onde eu estou, só que estou bem.
— Claro. Pode ligar.
Peguei o celular do bolso e, de repente, o aparelho sumiu. Ela o pegou com a velocidade de um lagarto pegando um inseto. Antes que eu percebesse o que estava acontecendo, ela tinha aberto a janela e jogado o aparelho na estrada.
— Por que você fez isso? — gritei. — Era meu!
— Que bom que você me lembrou do seu celular. — Agora estávamos seguindo as placas para a I-87, a Thruway. — Eu tinha esquecido. Não é à toa que chamam isso de entorpecente, sabe. — E ela riu.
Eu dei um soco no ombro dela. O carro foi para o lado, mas voltou a seguir em linha reta. Buzinaram para nós. Liz lançou outro olhar para mim, mas ela não estava sorrindo agora. Ela estava com o olhar que devia fazer quando estava lendo os direitos das pessoas. Dos meliantes.
— Se você me bater de novo, Jamie, vou bater nas suas bolas com tanta força que vou te fazer vomitar. Deus sabe que não seria a primeira vez que alguém ia vomitar nessa lata-velha.
— Você quer tentar brigar comigo enquanto dirige?
Agora o sorriso voltou, os lábios se abrindo só o suficiente para eu ver as pontas dos dentes.
— Quer ver?
Eu não quis. Não tentei nada, nem (caso você esteja querendo saber) gritar para chamar a criatura que habitava Therriault, embora ela estivesse agora teoricamente sob meu comando: eu assobio e você vem a mim, meu rapaz, lembra disso? A verdade é que ele (ou ela) nem passou pela minha cabeça. Eu esqueci, do mesmo jeito que a Liz esqueceu de tirar meu celular de cara, e eu nem tinha cheirado droga para botar a culpa nisso. Talvez não tivesse chamado de qualquer forma. Quem sabia se ela viria? E, se viesse… bom, eu tinha medo da Liz, mas tinha mais medo da coisa da luz morta. Morrer, ficar louco, destruir sua própria alma, o professor dissera.
— Pensa bem, moleque. Se você ligasse e dissesse que estava bem, mas dando uma volta com a sua velha amiga Liz Dutton, você acha que ela só diria “Tudo bem, Jamie, ótimo, manda ela comprar alguma coisa pra você jantar”?
Eu não falei nada.
— Ela ia chamar a polícia. Mas isso não é o mais importante. Eu devia ter me livrado do seu celular na mesma hora porque ela pode rastrear.
Eu arregalei os olhos.
— Pode porra nenhuma!
Liz assentiu, sorrindo de novo, os olhos na estrada novamente enquanto nós passávamos por um caminhão de cabine dupla.
— Ela botou um aplicativo de localização no primeiro celular que te deu, quando você tinha dez anos. Fui eu que ensinei como esconder, pra você não encontrar e ficar todo putinho.
— Eu ganhei um celular novo dois anos atrás — murmurei. Havia lágrimas ardendo nos cantos dos meus olhos, não sei por quê. Eu me senti… não sei qual é a palavra. Espera aí, talvez eu saiba, sim. Ludibriado. Eu me senti ludibriado.
— Você acha que ela não botou o aplicativo no celular novo? — Liz soltou uma gargalhada amarga. — Você está de sacanagem? Você é o único filho dela, moleque, o principezinho dela. Ela vai continuar te rastreando daqui a dez anos, quando você estiver casado, trocando a fralda do seu primeiro filho.
— Mentirosa filha da puta — falei, mas falei olhando para o meu colo.
Ela cheirou um pouco mais da mistura especial quando saímos da cidade, os movimentos ágeis e treinados como antes, mas, desta vez, o carro oscilou um pouco, e recebemos outra buzinada de reclamação. Pensei em uma luz da polícia nos iluminando e primeiro achei que seria bom, que acabaria com aquele pesadelo, mas talvez não fosse bom. No estado pilhado em que ela estava, Liz poderia tentar fugir de um policial e acabar matando nós dois. Pensei no cara do Central Park. O rosto e o tronco dele tinham sido cobertos pela jaqueta de alguém para que os passantes não vissem o pior, mas eu vi.
Liz se animou de novo.
— Você seria um detetive e tanto, Jamie. Com sua habilidade particular, seria uma estrela. Nenhum assassino escaparia porque você poderia falar com as vítimas.
Essa ideia já tinha passado pela minha cabeça uma ou duas vezes. James Conklin, Detetive dos Mortos. Ou talvez pelos mortos. Eu nunca cheguei a uma conclusão de qual soava melhor.
— Mas não da polícia de Nova York — continuou ela. — São todos uns babacas do caralho. Seja detetive particular. Até consigo ver seu nome na porta. — Ela levantou as duas mãos do volante para indicar uma moldura.
Outra buzinada.
— Dirige a porra do carro — falei, tentando não parecer alarmado. Não deve ter dado certo, porque eu estava alarmado.
— Não se preocupa comigo, campeão. Eu já esqueci mais sobre dirigir do que você vai aprender na sua vida toda.
— Seu nariz está sangrando de novo.
Ela limpou com a base da mão e limpou a mão no suéter. Não pela primeira vez, ao que parecia.
— Meu septo já era — disse ela. — Vou ter que consertar. Quando eu estiver limpa.
Depois disso, ficamos em silêncio por um tempo.