Depois
Capítulo 11
Eu ainda estava comendo as últimas batatas fritas (que já estavam frias, mas não me importei) quando entramos em uma ruazinha sem saída chamada Alameda dos Paralelepípedos. Talvez já tivesse sido de paralelepípedos, mas agora era de asfalto liso. A casa no final era o Chalé dos Paralelepípedos. Era uma casa grande de tijolos com janelas elegantes e musgo no telhado. Você me ouviu, musgo. Maluquice, né? Tinha um portão, mas estava aberto. Havia placas nas laterais do portão, que eram feitas da mesma pedra cinza da casa. Uma dizia PROIBIDA A ENTRADA, ESTAMOS CANSADOS DE ESCONDER OS CORPOS. A outra mostrava um pastor-alemão rosnando e dizia CUIDADO COM O CÃO FEROZ.
Liz parou e olhou para a minha mãe, as duas sobrancelhas erguidas.
— O único corpo que o Regis enterrou foi do papagaio de estimação, Francis — disse minha mãe. — Batizado em homenagem a Francis Drake, o explorador. E ele nunca teve cachorro.
— Por causa da alergia — falei no banco de trás.
Liz dirigiu até a casa, parou e desligou a luz azul no painel.
— A porta da garagem está fechada e não estou vendo nenhum carro. Quem está aqui?
— Ninguém — disse minha mãe. — A empregada o encontrou. A sra. Quayle. Davina. Ela e um jardineiro que trabalhava meio período eram os únicos funcionários. É uma boa mulher. Ela me ligou logo depois que chamou a ambulância. Ambulância me fez pensar se ela tinha mesmo certeza de que ele estava morto, e ela disse que tinha, porque trabalhou em uma clínica pra idosos antes de ir trabalhar para o Regis, mas ele tinha que ser levado para o hospital antes mesmo assim. Falei para ela ir pra casa assim que o corpo fosse retirado da casa. Ela estava bem nervosa. Perguntou sobre Frank Wilcox, o gerente de negócios do Regis, e falei que faria contato com ele. E vou mesmo, mas, na última vez que falei com o Regis, ele disse que o Frank e a esposa estavam na Grécia.
— E a imprensa? — perguntou Liz. — Ele era um escritor famoso.
— Meu Deus do céu, não sei. — Minha mãe olhou em volta como louca, como se esperando ver repórteres escondidos nos arbustos. — Não estou vendo nenhum.
— Talvez nem saibam ainda — disse Liz. — Se souberem, se ouviram no radioamador, eles vão atrás da polícia e do atendimento de emergência primeiro. O corpo não está aqui, então a história não está aqui. A gente tem tempo, calma.
— A falência está bufando no meu cangote, eu tenho um irmão que pode ter que viver em um asilo pelos próximos trinta anos e um filho que pode querer fazer faculdade um dia, então não me manda ficar calma. Jamie, você está vendo ele? Você sabe como ele é, né? Me diz que está vendo.
— Eu sei como ele é, mas não estou vendo ele — falei.
Minha mãe soltou um gemido e bateu com a base da mão na pobre franja embaraçada.
Fui levar a mão à maçaneta e, surpresa! Não tinha maçaneta. Pedi pra Liz me deixar sair e ela deixou. Nós todos saímos.
— Bate na porta — disse Liz. — Se ninguém atender, a gente dá a volta e levanta o Jamie, pra ele olhar pelas janelas.
A gente pôde fazer isso porque as janelas, com detalhes entalhados nelas todas, estavam abertas. Minha mãe correu para tentar a porta, e fiquei sozinho com a Liz por um momento.
— Você não acha mesmo que vê gente morta que nem aquele garoto do filme, né, campeão?
Eu não ligava se ela acreditava, mas teve alguma coisa no tom dela, como se tudo fosse uma grande piada, que me irritou.
— A minha mãe contou sobre os anéis da sra. Burkett, né?
Liz deu de ombros.
— Pode ter sido um palpite de sorte. Você por acaso não viu ninguém morto no caminho até aqui, viu?
Eu falei que não, mas é difícil saber se a gente não falar com eles… ou eles com a gente. Uma vez, quando minha mãe e eu estávamos no ônibus, eu vi uma garota que tinha cortado os pulsos tão fundo que pareciam pulseiras vermelhas, e eu tive certeza de que ela estava morta, apesar de ela não estar tão nojenta quanto o cara do Central Park. E naquele mesmo dia, quando saímos da cidade, vi uma senhora de roupão rosa parada na esquina da 8th Avenue. Quando o sinal abriu para os pedestres, ela ficou parada, olhando em volta como uma turista. Ela estava com aquelas coisas de enrolar o cabelo. Podia estar morta, mas também podia ser uma pessoa viva andando por aí, como a minha mãe dizia que o tio Harry fazia às vezes antes de ela o colocar no primeiro lar. Minha mãe me disse que, quando o tio Harry começou a fazer isso, às vezes de pijama, ela parou de achar que ele poderia melhorar.
— Quem é vidente dá sorte o tempo todo — disse Liz. — E tem um ditado antigo que diz que até um relógio parado acerta duas vezes por dia.
— Então você acha que a minha mãe está maluca e que estou ajudando na maluquice dela?
Ela riu.
— Isso se chama facilitação, campeão, e não, eu não acho isso. Acho que ela está chateada e se agarrando ao salva-vidas que encontrar. Sabe o que isso quer dizer?
— Sei. Que ela está maluca.
Liz balançou a cabeça de novo, com mais ênfase agora.
— Ela está passando por muito estresse. Eu entendo. Mas inventar coisas não vai ajudar. Espero que você entenda isso.
Minha mãe voltou.
— Ninguém atendeu e a porta está trancada. Eu tentei abrir.
— Tudo bem — disse Liz. — Vamos espiar pela janela.
Nós contornamos a casa. Deu para olhar pelas janelas da sala de jantar porque elas iam até o chão, mas eu era baixo demais para as outras. Liz fez pezinho para eu olhar nessas. Vi uma sala grande com uma televisão enorme e móveis caros. Vi uma sala de jantar com uma mesa comprida onde cabia todo o time do Mets e talvez até os arremessadores da reserva. Era bem estranho para um cara que odiava companhia. Vi uma sala que minha mãe chamou de salinha de visitas e atrás ficava a cozinha. O sr. Thomas não estava em nenhum desses lugares.
— Talvez ele esteja lá em cima. Eu nunca fui lá, mas, se ele morreu na cama… ou no banheiro… pode ser que ainda esteja…
— Duvido que ele tenha morrido no trono, como o Elvis, mas acho que é possível.
Isso me fez rir, chamar a privada de trono sempre me fazia rir, mas parei quando vi a cara da minha mãe. O assunto era sério e ela estava perdendo as esperanças. Havia uma porta na cozinha e ela tentou girar a maçaneta, mas estava trancada, como a porta da frente.
Ela se virou para Liz.
— Será que a gente pode…
— Nem pensar — disse Liz. — A gente não vai invadir a casa, Ti. Já tenho muitos problemas no departamento sem disparar o alarme da casa de um autor best-seller que acabou de morrer e tentar explicar o que estamos fazendo aqui quando os caras da empresa de segurança aparecerem. Ou a polícia local. E, falando em polícia… ele morreu sozinho, né? A empregada o encontrou?
— É, a sra. Quayle. Ela me ligou, eu falei…
— A polícia vai querer fazer umas perguntas a ela. Já devem estar fazendo isso agora mesmo. Ou talvez ao legista. Não sei como fazem as coisas no Condado de Westchester.
— Porque ele é famoso? Porque acham que alguém pode ter assassinado ele?
— Porque é rotina. E sim, porque ele é famoso, eu acho. A questão é que eu gostaria que a gente estivesse longe quando aparecerem.
Os ombros da minha mãe murcharam.
— Nada, Jamie? Nem sinal dele?
Eu balancei a cabeça.
Minha mãe suspirou e olhou para Liz.
— Será que a gente pode olhar a garagem?
Liz deu de ombros, como quem diz a festa é sua.
— Jamie? O que você acha?
Eu não conseguia imaginar por que o sr. Thomas estaria na garagem, mas achei que era possível. Talvez ele tivesse um carro favorito.
— Acho que a gente deve. Já que estamos aqui.
Nós começamos a andar para a garagem, mas eu parei. Havia um caminho de cascalho depois da piscina do sr. Thomas, que estava vazia. O caminho tinha árvores dos dois lados, mas, como estávamos no fim da estação e as folhas tinham caído quase todas, deu para ver uma construção verde. Eu apontei nessa direção.
— O que é aquilo?
Minha mãe bateu na testa de novo. Eu estava começando a ficar com medo de ela provocar um tumor cerebral ou algo do tipo.
— Ah, meu Deus, La Petite Maison dans le Bois! Por que não pensei em ir lá primeiro?
— O que é? — perguntei.
— O escritório! É onde ele escreve! Se ele estiver em algum lugar aqui, vai ser lá! Vamos!
Ela segurou minha mão e me puxou pela parte rasa da piscina, mas, quando chegamos ao começo do caminho de cascalho, eu firmei os pés e parei. Minha mãe continuou andando, e se Liz não tivesse segurado meu ombro acho que eu teria caído de cara no chão.
— Mãe? Mãe!
Ela se virou com expressão impaciente. Só que essa não é a palavra certa. Ela parecia quase maluca.
— Vem! Estou dizendo que, se ele estiver em algum lugar aqui, vai ser lá!
— Você precisa se acalmar, Thia — disse Liz. — A gente vai olhar o chalé de escrita dele e depois acho que a gente tem que ir.
— Mãe!
Minha mãe me ignorou. Ela estava começando a chorar, uma coisa que ela quase não fazia. Ela nem chorou quando soube o quanto o Imposto de Renda queria. Naquele dia, ela só socou a mesa e os xingou de filhos da mãe e sanguessugas, mas agora ela estava chorando.
— Pode ir se quiser, mas nós vamos ficar até Jamie ter certeza de que não rolou. Pode ser só um passeio divertido pra você, pra fazer a vontade da maluca…
— Isso não é justo!
— … mas estamos falando da minha vida…
— Sei disso…
— … e da vida do Jamie e…
— MÃE!
Uma das piores coisas de ser criança, acho que a pior de todas, é como os adultos te ignoram quando começam com as merdas deles.
— MÃE! LIZ! AS DUAS! PAREM!
Elas pararam. Elas me olharam. Lá estávamos nós, duas mulheres e um garotinho de moletom do New York Mets, do lado de uma piscina vazia em um dia nublado de novembro.
Apontei para o caminho de cascalho que levava à casa no bosque em que o sr. Thomas escrevia seus livros sobre Roanoke.
— Ele tá bem ali.