Depois

Stephen King · Capítulo 66 de 72

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Depois

Capítulo 65

 

A policial passou o braço nos meus ombros e me levou para fora. Eu comecei a tremer. Ela devia ter achado que foi por causa do ar da noite, mas claro que não foi. Ela tirou o casaco e botou nos meus ombros, mas não adiantou. Enfiei os braços nas mangas longas demais e abracei o casaco contra meu próprio corpo. Estava pesado com coisas de policial nos bolsos, mas, por mim, tudo bem. O peso deu uma sensação boa.

Havia três viaturas no pátio, duas ladeando o carrinho da Liz e uma atrás. Enquanto estávamos lá parados, outro carro chegou, esse um utilitário com CHEFE DE POLÍCIA DE RENFIELD na lateral. Devia ter sido feriado para os bêbados e motoristas que ultrapassavam o limite de velocidade, porque a maioria da força policial da cidade devia estar ali.

Outro policial saiu pela porta e se juntou à primeira.

— O que aconteceu lá dentro, garoto?

Antes que eu pudesse responder, a policial botou um dedo nos meus lábios. Eu não me importei; até que foi bom.

— Nada de perguntas, Dwight. Esse menino está em choque. Ele precisa de atendimento médico.

Um homem corpulento de camisa branca e um distintivo pendurado no pescoço, supus que o chefe de polícia, tinha saído do utilitário e chegou a tempo de ouvir essa última coisa.

— Cuida dele, Caroline. Leva ele pra ser examinado. Tem mortos confirmados?

— Tem um corpo no pé da escada. Parece uma mulher. Não tenho como confirmar se está morta, mas, pela posição da cabeça dela…

— Ah, ela está morta, sim — falei, e comecei a chorar.

— Vai, Caro — disse o chefe. — E não precisa ir até o condado. Leva ele ao MedNow. Nada de perguntas enquanto eu não chegar lá. E enquanto não tivermos um adulto responsável por ele. Pegou o nome dele?

— Ainda não — disse a policial Caroline. — Está uma loucura. Não tem luz lá dentro.

O chefe se inclinou na minha direção, as mãos nas coxas, me fazendo me sentir com cinco anos de novo.

— Qual é seu nome, meu filho?

E a história de nada de perguntas?, pensei.

— Jamie Conklin, e é a minha mãe que está vindo. O nome dela é Thia Conklin. Eu já liguei pra ela.

— Aham. — Ele se virou para Dwight. — Por que não tem luz lá dentro? Todas as casas no caminho estavam com energia.

— Não sei, chefe.

— Se apagaram quando ela estava correndo pela escada atrás de mim. Acho que foi por isso que ela caiu.

Percebi que eles queriam perguntar mais, mas ele só falou para a policial Caroline me levar. Quando ela manobrou pelo pátio e seguiu pelo caminho sinuoso, enfiei a mão no bolso da calça e encontrei o celular da Liz, apesar de não me lembrar de o ter colocado lá.

— Posso ligar pra minha mãe de novo e dizer que estamos indo pra clínica?

— Claro.

Enquanto eu fazia a ligação, me dei conta de que, se a policial Caroline descobrisse que eu estava usando o celular da Liz, eu poderia ficar encrencado. Ela poderia perguntar como eu sabia a senha da morta, e eu não conseguiria dar uma boa resposta. Mas ela não perguntou.

Minha mãe disse que estava em um Uber (que provavelmente custaria uma pequena fortuna, então era bom que a agência estava tendo lucro de novo) e que eles estavam indo bem rápido. Ela perguntou se eu estava mesmo bem. Falei que sim e que a policial Caroline estava me levando para o MedNow em Renfield, mas só para ser examinado. Ela me disse para não responder perguntas enquanto ela não chegasse, e falei que não responderia.

— Vou ligar pra Monty Grisham — disse ela. — Ele não faz esse tipo de trabalho, mas vai saber de alguém que faça.

— Eu não preciso de advogado, mãe. — A policial Caroline me olhou de lado quando falei isso. — Eu não fiz nada.

— Se a Liz matou uma pessoa e você estava junto, você precisa de um. Vai haver investigação… imprensa… sei lá. É culpa minha. Eu levei aquela filha da puta pra nossa casa. — E acrescentou com desprezo: — Liz filha da puta!

— Ela era boa no começo. — Era verdade, mas, de repente, me senti muito, muito cansado. — Te vejo quando você chegar.

Encerrei a ligação e perguntei à policial Caroline quanto tempo levaria para chegarmos ao médico. Ela disse vinte minutos. Olhei para trás, pela grade que isolava o banco de trás, com uma certeza repentina de que ela estaria ali. Ou, muito pior, Therriault. Mas estava vazio.

— Estamos só eu e você aqui, Jamie — disse a policial Caroline. — Não se preocupe.

— Não estou preocupado — falei, mas tinha uma coisa com a qual eu tinha que me preocupar, e graças a Deus eu lembrei, senão eu e a minha mãe estaríamos muito encrencados. Eu encostei a cabeça na janela e me virei meio de costas para ela. — Vou tirar um cochilo.

— Boa ideia. — Havia um sorriso na voz dela.

Eu cochilei mesmo. Mas primeiro liguei o telefone da Liz, escondendo-o com o corpo, e apaguei a gravação que ela tinha feito de quando passei a história de O segredo de Roanoke para a minha mãe. Se pegassem o celular e descobrissem que não era meu, eu inventaria alguma coisa. Ou diria que não lembrava, o que seria mais seguro. Mas eles não podiam ouvir aquela gravação.

De jeito nenhum.