Depois

Stephen King · Capítulo 34 de 72

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Depois

Capítulo 33

Quando saí do nosso apartamento no último dia de aula, Therriault estava novamente no elevador. Sorrindo e me chamando. Ele devia esperar que eu recuasse, como fiz na primeira vez que o vi lá, mas não fiz isso. Eu estava com medo, sim, mas não tanto, porque eu estava me acostumando com ele, da mesma forma que podemos nos acostumar com uma verruga ou um sinal no rosto, mesmo que fosse feio. Daquela vez, eu estava mais com raiva do que com medo, porque ele não me deixava em paz.

Em vez de recuar, eu dei um pulo para a frente e estiquei o braço para não deixar a porta do elevador fechar. Eu não ia entrar lá com ele, meu Deus, não! Mas não ia deixar a porta fechar enquanto ele não me desse umas respostas.

— A minha mãe está mesmo com câncer?

Mais uma vez, o rosto dele se retorceu como se eu o estivesse machucando, e mais uma vez esperei que estivesse mesmo.

— A minha mãe está com câncer?

— Não sei. — A forma como ele estava me olhando… sabe aquela expressão, se um olhar matasse?

— Então, por que você falou que estava?

Ele estava no fundo do elevador agora, com as mãos encostadas no peito, como se eu estivesse botando medo nele. Ele virou a cabeça e mostrou o ferimento de saída enorme, mas, se ele achava que aquilo ia me fazer soltar a porta e me afastar, ele estava enganado. Por mais horrível que fosse, eu já tinha me acostumado.

— Por que você disse que estava?

— Porque eu te odeio — disse Therriault, e mostrou os dentes.

— Por que você ainda está aqui? Como pode estar?

— Não sei.

— Vai embora.

Ele não disse nada.

— Vai embora!

— Eu não vou embora. Não vou embora nunca.

Isso me assustou pra cacete e meu braço relaxou e desceu para a lateral do corpo, como se estivesse pesado.

— A gente se vê, campeão.

A porta do elevador fechou, mas o elevador não se moveu porque não tinha ninguém para apertar um botão lá dentro. Quando apertei o botão do lado de fora, a porta se abriu e revelou um elevador vazio, mas fui de escada mesmo assim.

Vou me acostumar com ele, pensei. Eu me acostumei com o buraco na cabeça dele e vou me acostumar com ele. Ele não pode me fazer mal.

Mas, de certa forma, ele já tinha feito: o D- na prova de matemática e nadar mal na competição de natação foram só dois exemplos. Eu estava dormindo mal (minha mãe já tinha comentado sobre as minhas olheiras), e pequenos ruídos, até um livro caindo na sala de estudos, me faziam dar um pulo. Eu ficava pensando que ia abrir o armário para pegar uma camisa e ele estaria lá dentro, meu bicho-papão pessoal. Ou debaixo da cama. E se ele agarrasse meu pulso ou meu pé pendurado para fora da cama quando eu estivesse dormindo? Eu achava que ele não era capaz de segurar, mas também não tinha certeza disso, principalmente se ele estivesse ficando mais forte.

E se eu acordasse e ele estivesse deitado na cama comigo? Talvez até segurando meu pau?

Essa era uma ideia que, depois de pensada, não podia ser despensada.

E tinha outra coisa, uma coisa bem pior. E se ele ainda estivesse me assombrando (porque era exatamente isso) quando eu tivesse vinte anos? Ou quarenta? E se ele estivesse presente quando eu morresse aos oitenta e nove anos, esperando para me receber na vida após a morte, onde continuaria me assombrando até depois de eu estar morto?

Se é isso que você consegue fazendo uma boa ação, pensei uma noite, olhando pela janela e vendo Thumper do outro lado da rua, debaixo da luz do poste, eu nunca mais quero fazer outra.