Depois

Stephen King · Capítulo 18 de 72

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Depois

Capítulo 17

Preciso contar sobre duas ocasiões específicas em que Liz foi me buscar depois da aula. Nas duas ocasiões, ela estava com o carro dela mesma, não com o que usou para irmos até o Chalé dos Paralelepípedos, mas o que ela chamava de pessoal. A primeira vez foi em 2011, quando ela e a minha mãe ainda estavam juntas. A segunda foi em 2013, um ano depois que elas deixaram de estar. Vou chegar nessa parte, mas uma coisa de cada vez.

Eu saí da escola naquele dia de março com a mochila pendurada em um ombro só (que era o que os garotos descolados do sexto ano faziam) e Liz estava me esperando junto ao meio-fio no Honda Civic. Na vaga para pessoas com deficiência, mas ela estava com o pequeno letreiro que dizia POLICIAL DE SERVIÇO no painel para isso… e você pode argumentar que isso deveria ter me dito algo sobre o caráter dela mesmo na tenra idade de onze anos.

Eu entrei, tentando não franzir o nariz por causa do cheiro de fumaça velha de cigarro que nem o aromatizador em formato de pinheiro pendurado no retrovisor conseguia disfarçar. Àquela altura, graças a O segredo de Roanoke, nós já tínhamos apartamento próprio e não precisávamos mais morar na agência, então eu estava esperando carona até em casa, mas Liz foi para o centro.

— Aonde estamos indo? — perguntei.

— Vamos dar um passeio, campeão — disse ela. — Você vai ver.

O passeio foi até o cemitério Woodlawn, no Bronx, local de descanso final de Duke Ellington, Herman Melville e Bartholomew “Bat” Masterson, dentre outros. Sei sobre eles porque pesquisei e depois escrevi um trabalho sobre Woodlawn para a escola. Liz entrou lá pela avenida Webster e começou a dirigir pelas vias. Foi legal, mas meio assustador.

— Sabe quanta gente foi plantada aqui? — perguntou ela, e, quando fiz que não: — Trezentas mil. Menos do que a população de Tampa, mas não muito. Eu olhei na Wikipédia.

— Por que a gente está aqui? É legal, mas eu tenho dever de casa. — Não era mentira, mas era o tipo de coisa que dava para acabar em meia hora. O dia estava ensolarado e colorido e ela parecia bem normal, só a Liz amiga da minha mãe, mas, mesmo assim, aquele passeio estava meio sinistro.

Ela ignorou completamente minha jogada do dever de casa.

— Tem gente sendo enterrada aqui o tempo todo. Olha pra sua esquerda. — Ela apontou e reduziu de quarenta quilômetros por hora para um ritmo de tartaruga. O local para onde ela estava apontando estava com gente em volta de um caixão colocado ao lado de um buraco aberto. Havia um pastor na cabeceira do túmulo com um livro aberto na mão. Eu sabia que ele não era rabino porque não estava de chapeuzinho.

Liz parou o carro. Ninguém do funeral prestou atenção. As pessoas estavam absortas no que o pastor estava dizendo.

— Você vê gente morta — disse ela. — Já aceito isso agora. É difícil não aceitar depois do que aconteceu na casa do Thomas. Tem alguma aqui?

— Não — falei, mais incomodado do que nunca. Não por causa da Liz, mas porque eu tinha acabado de receber a notícia de que estávamos cercados por trezentos mil cadáveres. Apesar de eu saber que os mortos iam embora depois de alguns dias, no máximo uma semana, eu quase esperava vê-los parados ao lado dos túmulos ou bem em cima. E depois vindo para cima de nós, como em uma porra de filme de zumbi.

— Tem certeza?

Olhei para o funeral (ou cerimônia de enterro, sei lá como chamam isso). O pastor devia ter começado uma oração, porque todas as pessoas estavam com a cabeça baixa. Todas menos uma. Ele só estava parado olhando despreocupado para o céu.

— O cara de terno azul — falei por fim. — O que não está de gravata. Ele pode estar morto, mas não tenho certeza. Se não tem nada de errado com eles quando eles morrem, nada que fique exposto, eles meio que são iguais a todo mundo.

— Não estou vendo nenhum homem sem gravata — disse ela.

— Bem, então ele tá morto mesmo.

— Eles sempre vão aos próprios enterros? — perguntou Liz.

— Como eu vou saber? É a primeira vez que entro em um cemitério, Liz. Eu vi a sra. Burkett no funeral dela, mas não sei sobre o cemitério porque eu e minha mãe não fomos nessa parte. Nós fomos pra casa.

— Mas você vê ele. — Ela estava olhando para o grupo como se estivesse em transe. — Você poderia ir até lá e falar com ele, como falou com Regis Thomas naquele dia.

— Eu que não vou lá! — Não gosto de dizer que falei choramingando, mas foi assim mesmo. — Na frente de todos os amigos dele? Na frente da esposa e dos filhos? Você não pode me obrigar.

— Calma aí, campeão — disse ela e bagunçou meu cabelo. — Só estou tentando entender direito. Como você acha que ele veio parar aqui? Claro que ele não veio de Uber.

— Não sei. Eu quero ir pra casa.

— Daqui a pouco — disse ela, e continuamos a rodar pelo cemitério, passando por tumbas e monumentos e por um bilhão de lápides comuns.

Passamos por mais três cerimônias de enterro no caminho, duas pequenas como a primeira, em que a estrela do show era uma presença invisível, e uma enorme, em que umas duzentas pessoas tinham se reunido em uma encosta e o cara no comando (com chapeuzinho… e um xale bem irado) estava usando um microfone. Em cada um, Liz me perguntou se eu via a pessoa morta, e cada vez eu disse que não tinha ideia.

— Você provavelmente não me contaria se visse — disse ela. — Estou vendo que você está todo rabugento.

— Eu não estou rabugento.

— Está, sim, e se contar pra Thia que eu te trouxe aqui a gente provavelmente vai brigar. Será que você não pode dizer que a gente foi tomar sorvete?

Nós estávamos quase de volta na avenida Webster e eu estava me sentindo um pouco melhor. Estava dizendo para mim mesmo que Liz tinha o direito de ficar curiosa, que qualquer pessoa ficaria.

— Talvez, se você comprar um pra mim.

— Suborno! É um delito de classe B! — Ela riu, bagunçou meu cabelo e tudo ficou bem de novo.

Nós saímos do cemitério e eu vi uma jovem de vestido preto sentada em um banco, esperando o ônibus. Uma garotinha de vestido branco e sapatos pretos brilhantes estava sentada ao lado dela. A garotinha tinha cabelo dourado e bochechas rosadas e um buraco na garganta. Eu acenei para ela. Liz não me viu fazer isso; ela estava esperando uma folga no tráfego para poder entrar na rua. Não contei para ela o que vi. Naquela noite, Liz foi embora depois do jantar, para trabalhar ou para voltar para casa, e eu quase contei para a minha mãe. Mas acabei não contando. Acabei guardando a garotinha de cabelo dourado só para mim. Depois, eu pensaria que o buraco na garganta era porque a garota engasgou com comida e cortaram a garganta dela para ela poder respirar, mas era tarde demais. Ela estava sentada lá, ao lado da mãe, e a mãe não sabia. Mas eu sabia. Eu vi. Quando eu acenei para ela, ela acenou para mim.