Depois

Stephen King · Capítulo 33 de 72

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Depois

Capítulo 32

Durante minha última prova de matemática daquele ano, olhei pela janela e vi Kenneth Therriault parado na quadra de basquete. Ele repetiu o de sempre, sorriu e me chamou com o dedo. Olhei para o papel e voltei a olhar para fora. Ele ainda estava lá, só que mais perto. Ele virou a cabeça e pude dar uma boa olhada na cratera roxa e preta, e também nas presas de osso projetadas ao redor. Olhei para o papel de novo e, quando ergui o rosto na direção do lado de fora pela terceira vez, ele tinha sumido. Mas eu sabia que voltaria. Ele não era como os outros. Não era nada como os outros.

Quando o sr. Laghari nos mandou virar a prova para baixo, eu ainda não tinha resolvido os últimos cinco problemas. Tirei D- na prova e havia um recadinho no alto: Que decepcionante, Jamie. Você precisa se sair melhor. O que eu digo pelo menos uma vez em todas as aulas? O que ele dizia era que quem ficava para trás em matemática nunca conseguia recuperar.

A matemática não era tão especial assim, apesar de o sr. Laghari achar que sim. Aquilo era verdade para a maioria das matérias. Como se para deixar isso bem claro, eu me afundei na prova de história no mesmo dia. Não porque Therriault estava parado perto do quadro nem nada, mas porque eu não conseguia parar de pensar que ele poderia estar parado perto do quadro.

Eu achava que ele queria que eu fosse mal nas matérias. Você pode rir disso, mas tem outra coisa que dizem por aí, de que não é paranoia se é verdade. Algumas provas ruins não iam me fazer repetir em tudo, não tão perto do fim do ano letivo, e depois viriam as férias de verão, mas e o ano seguinte? E se ele ainda estivesse rondando?

Tinha outra coisa: e se ele estivesse ficando mais forte? Eu não queria acreditar nisso, mas só o fato de ele ainda estar por perto sugeria que podia ser verdade. Que devia ser verdade.

Contar para alguém talvez ajudasse, e a minha mãe era a escolha lógica. Ela acreditaria, mas eu não queria assustá-la. Ela já tinha passado muito medo quando achou que a agência ia afundar e ela não conseguiria cuidar de mim e do irmão. O fato de eu a ter ajudado a sair do perrengue talvez a fizesse se culpar pelo que eu estava passando agora. Não fazia sentido para mim, mas talvez fizesse para ela. Além do mais, ela queria deixar essa coisa de ver gente morta para trás. E tem mais uma coisa: o que ela poderia fazer se eu contasse? Culpar Liz por me levar para falar com Therriault, mas mais nada.

Pensei brevemente em falar com a sra. Peterson, que era a orientadora da escola, mas ela ia supor que eu estava tendo alucinações, talvez um colapso nervoso. Ela ia contar para a minha mãe. Eu até pensei em procurar Liz, mas o que a Liz poderia fazer? Puxar a arma e atirar nele? Boa sorte nisso, já que ele já estava morto. Além do mais, minha história com a Liz tinha acabado, ou era o que eu achava. Eu estava por minha conta e era uma perspectiva solitária e assustadora.

Minha mãe foi à competição de natação, e eu nadei mal demais em todos os eventos. No caminho para casa, ela me abraçou e me disse que todo mundo tinha dias ruins e que eu me sairia bem na próxima vez. Eu quase contei tudo nessa hora, terminando com meu medo (que agora achava razoavelmente justificado) de Kenneth Therriault estar tentando destruir minha vida por estragar sua última e maior bomba. Se não estivéssemos em um táxi, eu talvez tivesse contado. Como estávamos, eu só apoiei a cabeça no ombro dela, como fiz quando era pequeno e achei que meu desenho de peru era a melhor obra de arte depois da Mona Lisa. Quer saber de uma coisa, a pior parte de crescer é como isso faz com que a gente cale a boca.