Depois

Stephen King · Capítulo 47 de 72

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Depois

Capítulo 46

Naquela noite, recebi um e-mail dele, enviado pelo iPad. Ele era a única pessoa que eu conhecia que usava uma saudação quando escrevia e que escrevia cartas de verdade em vez de coisas como td bem e LOL e brinks.

Prezado Jamie,

Depois que você e sua mãe foram embora hoje de manhã, fiz umas pesquisas

sobre a descoberta da bomba no supermercado de Eastport, uma coisa que devia

ter feito antes. O que descobri foi bem interessante. Elizabeth Dutton não apareceu

de forma proeminente em nenhuma das notícias. O Esquadrão Antibombas levou a

maior parte do crédito (principalmente os cachorros, porque as pessoas amam

cachorros; acho que o prefeito talvez tenha até dado uma medalha para um dos

cachorros). Ela foi mencionada só como “uma detetive que recebeu uma dica de

uma fonte antiga”. Achei peculiar ela não ter participado da coletiva de imprensa que

aconteceu depois de a bomba ser desarmada e ela não ter recebido nenhum elogio

oficial. Mas ela conseguiu ficar no emprego. Talvez essa fosse a única recompensa

que ela queria e tudo que seus superiores acharam que ela merecia.

Considerando minha pesquisa nessa questão, junto com a estranha falta de

energia no seu prédio no momento do seu confronto com Therriault e outras

questões que você revelou para mim, eu me vejo incapaz de desacreditar nas

coisas que você me contou.

Preciso acrescentar uma palavra de cautela. Eu não gostei da expressão de

confiança no seu rosto quando você disse que era sua vez de assombrar a coisa, e

que você poderia assobiar e ela viria. Talvez venha, mas peço que você não faça

isso. Quem anda na corda bamba às vezes cai. Os domadores de leões podem ser

atacados pelos felinos que eles acreditam estarem domados. Sob certas condições,

até o melhor cachorro pode se virar e morder o dono.

Meu conselho para você, Jamie, é deixar essa coisa em paz.

Com os melhores desejos do seu amigo,

Prof. Martin Burkett (Marty)

P.S.: Estou muito curioso para saber os detalhes exatos da sua experiência

extraordinária. Se você puder vir me ver, eu ouviria com grande interesse. Estou

supondo que você continue não querendo botar o peso da história nas costas da

sua mãe, agora que parece que as coisas chegaram a uma conclusão satisfatória.

Eu respondi na mesma hora. Minha resposta foi bem mais curta, mas tomei o cuidado de escrever do mesmo jeito que ele, como uma carta de papel.

Prezado prof. Burkett,

Eu ficaria feliz em fazer isso, mas só posso na quarta-feira por causa de um

passeio ao Metropolitan Museum of Art na segunda-feira e de um campeonato de

vôlei de garotos contra garotas na terça-feira. Se puder ser na quarta-feira, vou

depois da escola, por volta de três e meia, mas só posso ficar por uma hora. Vou

dizer para a minha mãe que eu só queria te visitar, o que é verdade.

Seu amigo,

James Conklin

O prof. Burkett devia estar com o iPad no colo (eu conseguia imaginá-lo sentado na sala, com todas as fotografias antigas nos porta-retratos), porque ele respondeu na mesma hora.

Prezado Jamie,

Quarta-feira está ótimo. Vou esperá-lo às três e meia e vou oferecer biscoitos de

passas. Você prefere chá ou um refrigerante?

Seu amigo,

Marty Burkett

Eu nem me dei ao trabalho de fazer minha resposta como se fosse uma carta tradicional, só digitei Eu não me importaria de tomar café. Depois de pensar nisso, acrescentei: Minha mãe deixa. Não era totalmente mentira, e ele me mandou um emoji em resposta: um sinal de positivo. Achei bem moderno.

Eu falei com o prof. Burkett de novo, mas não com bebida nem com comida. Ele não precisava mais dessas coisas porque estava morto.