Depois
Capítulo 52
Kenneth Therriault desapareceu dos noticiários e foi substituído por outros monstros. E, como ele parou de me assombrar, também desapareceu da superfície da minha mente. Quando o outono esfriou e deu lugar ao inverno, eu continuei tendo a tendência de dar um passo para trás quando a porta do elevador se abria, mas quando fiz catorze anos essa mania já tinha desaparecido.
Eu vi outras pessoas mortas de tempos em tempos (e deve ter havido algumas que não percebi, porque elas pareciam gente normal, a não ser que tivessem morrido de ferimentos ou se eu chegasse bem perto). Vou contar sobre uma, apesar de não ter nada a ver com a minha história principal. Era um garotinho não muito mais velho do que eu no dia em que vi a sra. Burkett. Ele estava parado na divisória no meio da Park Avenue, de short vermelho e camiseta de Star Wars. Estava pálido como papel. Seus lábios estavam azuis. E acho que ele estava tentando chorar, embora não houvesse lágrimas. Como ele parecia vagamente familiar, eu atravessei um lado da Park e perguntei qual era o problema. Sabe como é, além de ele estar morto.
— Não consigo encontrar o caminho de casa!
— Você sabe seu endereço?
— Eu moro na Second Avenue, 490, apartamento 16B. — Ele repetiu como se fosse uma gravação.
— Tudo bem, é bem perto. Vem, garoto. Vou te levar lá.
Era um prédio chamado Kips Bay Court. Quando chegamos lá, ele se sentou no meio-fio. Ele não estava chorando mais e estava começando a ficar com aquele olhar distante que eles ficam e não gostei de deixá-lo lá, mas não sabia o que fazer. Antes de sair, eu perguntei o nome dele e ele disse que era Richard Scarlatti. Aí eu soube onde o tinha visto. A foto dele apareceu na NY1. Uns garotos maiores o afogaram no lago Swan, que fica no Central Park. Os garotos choraram pra caralho e disseram que era só brincadeira. Talvez fosse verdade. Talvez eu vá entender esse tipo de coisa depois, mas acho que não.