Depois

Stephen King · Capítulo 61 de 72

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Depois

Capítulo 60

Liz desligou o motor e saiu. Ela me viu ainda sentado no banco do passageiro, os pés no meio de várias embalagens de comida, e me sacudiu.

— Vem, Jamie. Está na hora de você fazer o seu trabalho. Depois, você está livre.

Eu saí e a segui até a porta de entrada. No caminho, lancei outro olhar para o homem na frente da garagem dupla. Ele devia saber que eu o estava vendo porque levantou a mão. Verifiquei se Liz não estava olhando e levantei a minha em resposta.

Degraus de ardósia levavam a uma porta alta de madeira com aldrava de cabeça de leão. Liz nem bateu, só pegou o pedaço de papel do bolso e digitou mais números em um teclado numérico. A luz vermelha ficou verde e houve um estalo quando a porta foi destrancada.

Marsden tinha dado os números para uma mera transportadora? Eu não achava possível, e também não achava que a pessoa que contou para ela sobre os comprimidos saberia as senhas. Eu não gostava do fato de ela ter aquela informação, e, pela primeira vez, pensei em Therriault… ou na coisa que habitava agora o que restava dele. Eu tinha superado aquela coisa no Ritual de Chüd e talvez ela viesse se eu chamasse, sempre supondo que teria que honrar o acordo que fizemos. Mas isso ainda não tinha sido provado. Eu só faria isso como último recurso, porque morria de medo daquela criatura.

— Pode entrar.

Liz colocou o pedaço de papel no bolso de trás, e a mão que antes o estava segurando foi para o bolso do casacão. Dei mais uma olhada no homem, que eu supunha que era Teddy, parado na frente da garagem. Olhei para o buraco ensanguentado onde antes ficava sua boca e pensei nas manchas no suéter da Liz. Talvez tivessem sido feitas quando ela limpou o nariz.

Talvez não.

— Eu mandei entrar. — Não foi um convite.

Eu abri a porta. Não havia saguão nem hall de entrada, só uma sala enorme. No meio havia uma área mais baixa com sofás e cadeiras. Depois, descobri que esse tipo de coisa se chama sala de estar rebaixada. Havia mais móveis com jeito de caros em volta (talvez para que outras pessoas pudessem ser espectadoras das conversas acontecendo abaixo), um bar que parecia ser sobre rodas e coisas nas paredes. Digo coisas porque não me pareceu arte, só manchas e rabiscos, mas as manchas estavam emolduradas, então acho que era arte para Marsden. Havia um candelabro sobre a sala de estar rebaixada que parecia pesar pelo menos duzentos e cinquenta quilos, e eu que não ia querer sentar embaixo. Depois da sala rebaixada, do outro lado da sala grande, havia uma escadaria dupla enorme. A única remotamente parecida que eu tinha visto na vida real e não nos filmes e na televisão era da Apple Store na Quinta Avenida.

— Um lugar e tanto, né? — disse Liz.

Ela fechou a porta, TUM, e bateu com a base da mão nos interruptores ao lado. Mais archotes se acenderam, junto com o candelabro. Era uma coisa linda e emitia uma luz linda, mas eu não estava com humor para apreciar nada. Eu estava ficando mais e mais seguro de que a Liz já tinha estado ali e que tinha atirado no Teddy antes de ir me buscar.

Ela não vai precisar atirar em mim se não souber que eu o vi, falei para mim mesmo, e, embora isso fizesse certo sentido, eu sabia que não podia confiar na lógica para me guiar naquela situação. Ela estava completamente chapada, praticamente vibrando. Pensei de novo nas bombas do Thumper.

— Você não me perguntou — falei.

— Não perguntei o quê?

— Se ele está aqui.

— Bom, está? — Ela não perguntou com preocupação real na voz, mais como protocolo. O que estava acontecendo?

— Não.

Ela não pareceu chateada, como ficou quando estávamos caçando Therriault.

— Vamos olhar o segundo andar. Talvez ele esteja no quarto principal, relembrando os momentos felizes que passou lá comendo as putas dele. Foram muitas depois que a Madeline foi embora. Provavelmente antes também.

— Eu não quero ir lá em cima.

— Por que não? A casa não é assombrada, Jamie.

— É, se ele estiver lá em cima.

Ela pensou nisso e riu. A mão ainda estava no bolso do casaco.

— Você até tem razão, mas, como é ele que estamos procurando, sobe. Ándale, ándale.

Indiquei o corredor que levava para longe do lado direito da sala.

— Pode ser que ele esteja na cozinha.

— Preparando um lanchinho? Acho que não. Acho que ele está lá em cima. Vai.

Pensei em discutir mais um pouco ou simplesmente recusar, mas aí a mão dela podia sair do bolso do casaco, e eu tinha uma boa ideia do que ela estaria segurando. Por isso, comecei a subir a escada pela direita. O corrimão era de vidro verde fosco, liso e frio. Os degraus eram feitos de pedra verde. Havia quarenta e sete degraus no total, eu contei, e cada um devia valer o preço de um Kia.

Na parede no alto daquela escada havia um espelho com moldura dourada que devia ter dois metros de altura. Tinha um idêntico do outro lado. Eu me vi aparecer no espelho com Liz logo atrás de mim, olhando por cima do meu ombro.

— Seu nariz — falei.

— Estou vendo. — As duas narinas dela estavam sangrando agora. Ela limpou o nariz e secou a mão no suéter. — É o estresse. O estresse faz isso acontecer porque todos os capilares aqui dentro estão frágeis. Quando encontrarmos Marsden e ele nos contar onde estão os comprimidos, o estresse vai passar.

Sangrou quando você atirou no Teddy?, me perguntei. O quanto foi estressante fazer isso, Liz?

O corredor no alto era uma sacada circular, na verdade, quase uma passarela com amurada na altura da cintura. Olhar por ela provocou uma sensação ruim no meu estômago. Se alguém caísse (ou fosse empurrado), essa pessoa ia fazer um trajeto curto até o meio da sala rebaixada, onde o tapete colorido não ajudaria a aliviar o impacto do piso de pedra embaixo.

— Pra esquerda, Jamie.

O que queria dizer longe da sacada, e isso era bom. Nós seguimos por um corredor comprido com portas só do lado esquerdo, para que quem estivesse naqueles quartos pudesse apreciar a vista. A única porta que estava aberta era na metade. Era uma biblioteca circular, com todas as prateleiras lotadas de livros. Minha mãe teria desmaiado de empolgação. Havia poltronas e um sofá na frente da única parede sem livros. Essa parede era uma janela, claro, com vidro curvo com vista para uma paisagem que agora estava ficando roxa com o anoitecer. Deu para ver o ninho de luz que devia ser a cidade de Renfield, e eu teria dado quase qualquer coisa para estar lá.

Liz também não perguntou se Marsden estava na biblioteca. Nem olhou para dentro. Chegamos ao fim do corredor e ela usou a mão que não estava no bolso do casaco para apontar para a última porta.

— Tenho quase certeza de que ele está aí dentro. Abre.

Eu abri e, realmente, Donald Marsden estava lá dentro, deitado em uma cama tão grande que parecia uma cama tripla ou quádrupla e não de casal. Ele mesmo tinha tamanho quádruplo, Liz estava certa sobre isso. Aos meus olhos de criança, o volume do corpo dele era quase uma alucinação. Um bom terno poderia ter disfarçado boa parte da gordura, mas ele não estava de terno. Ele estava usando uma cueca boxer gigantesca e mais nada. A pança imensa, os peitos enormes e os braços flácidos estavam todos marcados com cortes rasos. O rosto de lua cheia estava machucado e um dos olhos estava fechado. Havia uma coisa estranha enfiada na boca que depois aprendi (em um daqueles sites que você não quer que sua mãe descubra) que era uma bola usada como mordaça, chamada ball gag. Os pulsos dele tinham sido presos com algemas na cabeceira da cama. Liz devia ter levado só duas algemas, porque os tornozelos tinham sido presos com fita adesiva nas colunas aos pés da cama. Ela devia ter usado um rolo inteiro em cada um.

— Eis o homem da casa — disse Liz.

O olho bom dele piscou. Você diria que eu devia ter percebido pelas algemas e pela fita adesiva. Eu devia ter sabido porque alguns dos cortes ainda estavam sangrando. Mas eu não soube. Eu fiquei chocado e não soube. Só quando ele deu aquela única piscadela.

— Ele está vivo!

— Eu posso resolver isso — disse Liz. Ela tirou a arma do bolso do casaco e deu um tiro na cabeça dele.