Depois
Capítulo 15
Minha mãe passou quatro meses escrevendo O segredo de Roanoke com o gravador de confiança sempre do lado. Perguntei uma vez se escrever o livro do sr. Thomas era como pintar um quadro. Ela pensou e disse que era mais como aqueles quadros de pintar seguindo os números, quando a gente só precisa seguir as instruções e acaba com uma coisa que está, supostamente, “pronta para ser emoldurada”.
Ela contratou uma assistente para poder trabalhar no livro praticamente em tempo integral. E me disse em uma das nossas caminhadas da escola para casa — que foram o único ar fresco que ela tomou no inverno de 2009 e 2010 — que não tinha dinheiro para contratar uma assistente, mas não podia se dar ao luxo de não contratar. Barbara Means tinha acabado de estudar inglês na Vassar College e estava disposta a ralar pela agência por um salário mequetrefe só pela experiência, e na verdade ela era muito boa, o que foi uma grande ajuda. Eu gostava dos grandes olhos verdes dela, que achava lindos.
Minha mãe escreveu, minha mãe reescreveu, minha mãe leu os livros de Roanoke e praticamente mais nada durante aqueles meses, querendo se imergir totalmente no estilo de Regis Thomas. Ela ouvia minha voz. Voltava e adiantava a gravação. Ia preenchendo a imagem. Uma noite, no meio da segunda garrafa de vinho, eu a ouvi dizer para Liz que, se precisasse escrever mais uma frase no estilo “seios firmes e empinados com mamilos rosados”, ficaria maluca. Ela também tinha que atender as ligações comerciais (e uma vez do Page Six do New York Post) sobre o estado do último livro do Thomas, porque havia boatos de todos os tipos se espalhando. (Relembrei vividamente tudo isso quando Sue Grafton morreu sem escrever o livro final da série policial das letras do alfabeto.) Minha mãe dizia que odiava ter que mentir.
— Ah, mas você faz isso tão bem. — Lembro de Liz dizer, o que a fez ganhar um dos olhares gelados que eu via cada vez mais no rosto da minha mãe no final do relacionamento delas.
Ela também mentiu para a editora do Regis, disse que o Regis falou pouco antes de morrer que o manuscrito de Segredo devia ser mantido guardado e longe dos olhos de todo mundo (exceto da minha mãe, claro) até 2010 “para que o interesse dos leitores crescesse”. Liz disse que achava a desculpa meio ruim, mas minha mãe disse que daria certo.
— A Fiona nunca editou os livros dele mesmo — disse ela, falando de Fiona Yarbrough, que trabalhava na Doubleday, editora do sr. Thomas. — O único trabalho dela era escrever uma carta para o Regis depois que recebia cada manuscrito, dizendo que ele tinha se superado de novo.
Quando o livro foi finalmente entregue, minha mãe passou uma semana andando de um lado para o outro e sendo ríspida com todo mundo (eu não fui excluído dessa rispidez), esperando Fiona ligar e dizer Regis não escreveu esse livro, não parece nem um pouco o estilo dele, acho que foi você, Thia. Mas, no fim das contas, deu tudo certo. Fiona não percebeu ou não se importou. E os críticos não suspeitaram de nada quando o livro entrou em produção e foi lançado no outono de 2010.
Publishers Weekly: “Thomas guardou o melhor para o final!”.
Kirkus Reviews: “Os fãs de ficção histórica tiraram a sorte grande”.
Dwight Garner, do New York Times: “A prosa lenta e insípida é típica de Thomas: o equivalente a um prato enorme de comida do bufê de um restaurante duvidoso de beira de estrada”.
Minha mãe não ligou para as críticas; ela só queria saber do adiantamento enorme e dos direitos autorais renovados dos volumes anteriores da série Roanoke. Ela reclamou muito de só receber quinze por cento depois de ter escrito o livro todo, mas sua pequena vingança foi dedicar o livro para si mesma.
— Porque eu mereço — disse ela.
— Não tenho tanta certeza — disse Liz. — Se você pensar bem, Ti, você só foi a secretária. Acho que devia ter dedicado ao Jamie.
Isso fez Liz ganhar outro olhar gelado da minha mãe, mas achei que ela tinha certa razão. Se bem que, se pensarmos bem mesmo, eu também só fui o secretário. O livro continuou sendo do sr. Thomas, morto ou não.