Depois
Capítulo 56
Depois que pegamos a Thruway, Liz se serviu de outra porção da sua mistura especial. Eu diria que ela estava começando a me assustar, mas já tínhamos passado muito desse ponto.
— Quer saber como chegamos aqui? Eu e você, Holmes e Watson partindo pra mais uma aventura?
Aventura não era a palavra que eu teria escolhido, mas não falei nada.
— Estou vendo pela sua cara que não. Tudo bem. A história é longa e não é muito interessante, mas vou contar só o seguinte: nenhuma criança nunca disse que queria ser mendigo, reitor de faculdade ou policial corrupto quando crescesse. Nem coletar lixo no condado de Westchester, que é o que meu cunhado faz atualmente.
Ela riu, mas eu não entendi na ocasião o que havia de engraçado em ser lixeiro.
— Tem uma coisa que pode te interessar. Eu levei muita droga do Ponto A para o Ponto B e fui paga por isso, mas o pó que a sua mãe achou no bolso do meu casaco naquela vez era só um frila pra um amigo. É irônico se a gente pensar bem. Naquela época, a Divisão de Assuntos Internos já estava de olho em mim. Não tinham certeza, mas quase. Eu morri de medo da Thia falar. Aquela era a hora de eu parar, mas já não dava mais. — Ela fez uma pausa e pensou. — Ou eu não quis. Ao olhar pra trás, é difícil saber qual das duas coisas. Mas me faz pensar em uma coisa que Chet Atkins disse uma vez. Você já ouviu falar de Chet Atkins?
Eu balancei a cabeça.
— Como os grandes são esquecidos rápido. Joga no Google quando você voltar. Um excelente guitarrista, no nível do Clapton e do Knopfler. Ele estava falando em como era péssimo em afinar o instrumento. “Quando percebi que não era bom nessa parte do trabalho, eu já estava rico demais pra parar.” Foi assim comigo e minha carreira de transportadora. Mas vou te dizer uma coisa, já que estamos matando tempo aqui na New York Thruway. Você acha que a sua mãe foi a única que sofreu quando a economia deu ruim em 2008? Não é verdade. Eu tinha um portfólio de aplicações, que era bem pequenininho, mas era meu, e virou pó.
Ela passou por outra mudança de faixa e tomou o cuidado de ligar a seta antes de ir para a esquerda e depois voltar para a direita. Considerando a quantidade de droga que ela tinha aspirado, eu fiquei impressionado. E grato. Eu não queria estar com ela, mas, mais do que isso, não queria morrer com ela.
— Mas o principal foi minha irmã, Bess. Ela se casou com um cara que trabalhava em uma das empresas grandes de investimento. Você não deve conhecer a Bear Stearns, do mesmo jeito que não conhecia Chet Atkins, né?
Eu não sabia se devia fazer que sim ou que não, então fiquei parado.
— O Danny, meu cunhado, que agora está se formando em gerenciamento de resíduos, estava começando na Bear quando a Bess se casou com ele, mas tinha um caminho claro pela frente. O futuro era tão brilhante que ele tinha que usar óculos de sol, se posso pegar emprestada a letra de uma música antiga. Eles compraram uma casa em Tuckahoe Village. Com hipoteca alta, mas todo mundo garantiu a eles, inclusive eu, malditos olhos esses meus, que os valores de propriedade naquela área só iam subir. Tipo o mercado de ações. Eles arrumaram uma au pair para o filho. Entraram de sócios no country club. Eles exageraram? Pra caralho. Bessie olhou com desprezo pros meus reles setenta mil por ano? Sem dúvida. Mas sabe o que meu pai dizia?
Como eu poderia saber?, pensei.
— Ele dizia que quem tenta fugir da própria sombra acaba caindo de cara. Danny e Bess estavam falando em mandar fazer uma piscina quando a casa caiu. A Bear Stearns era especializada em garantia hipotecária e, de repente, o papel que eles tinham era mesmo só papel.
Ela estava falando nisso quando passamos por uma placa que dizia NEW PALTZ 95 POUGHKEEPSIE 112 e RENFIELD 125. Estávamos a pouco mais de uma hora do nosso destino final, olhar para aquela placa me deu uma sensação de premonição e a ideia me deu arrepios. Premonição foi um filme de terror bem nojento que vi com meus amigos. Não chegava aos pés da série Jogos mortais, mas foi bem sangrento.
— A Bear Stearns? Que piada. Em uma semana as ações eram vendidas por mais de cento e setenta dólares cada, na seguinte valiam dez pratas. A JP Morgan Chase catou os caquinhos. Outras empresas seguiram pelo mesmo caminho. Os figurões do topo se saíram bem, eles sempre se saem. Os pequenos, nem tanto. Entra no YouTube, Jamie, e você vai encontrar vídeos de pessoas saindo dos prédios comerciais chiques de Midtown com as carreiras inteiras em caixas de papelão. Danny Miller foi um desses caras. Seis meses depois de entrar no Green Hills Country Club, ele estava na traseira de um caminhão de lixo Greenwise. E ele foi um dos que tiveram sorte. Quanto à casa, estava no negativo. Sabe o que isso quer dizer?
Por acaso, eu sabia.
— Eles deviam mais do que ela valia.
— Muito bem, cam… Jamie. Pode ficar na frente da turma. Mas era o único bem que eles tinham, sem mencionar um lugar onde Bess, Danny e minha sobrinha Francine podiam deitar a cabeça no travesseiro protegidos da chuva. Bess disse que tinha amigos dormindo em trailers. Quem você acha que ajudou pra eles conseguirem manter os pagamentos daquele elefante branco com quatro quartos?
— Imagino que tenha sido você.
— Certo. Bess parou de esnobar meus setenta mil por ano, isso eu posso garantir. Mas dava pra fazer isso só com meu salário e todas as horas extras que eu pudesse fazer? Não mesmo. Ou por causa do trabalho de meio período como segurança em algumas boates que eu arrumei? Outro não mesmo. Mas eu conheci gente lá, fiz contatos, recebi propostas. Certas linhas de trabalho não sofrem com a recessão. Funerárias sempre se viram. Empresas de cobrança e de empréstimo pra fianças. Lojas de bebida. E o ramo das drogas. Porque, tanto nos bons quanto nos maus momentos, as pessoas vão querer ficar chapadas. E, é verdade, eu gosto de coisas boas. Não vou me desculpar por isso. Acho as coisas boas um consolo e sentia que as merecia. Eu estava garantindo o telhado acima da cabeça da minha irmã, depois de tantos anos em que Bess me esnobou por ser mais bonita, mais inteligente, por ter estudado em uma faculdade de verdade e não comunitária. E, claro, ela era hétero. — Liz quase rosnou quando falou isso.
— O que houve? Como você perdeu o emprego?
— A Divisão de Assuntos Internos me pegou de surpresa com um teste de urina para o qual eu não estava preparada. Não que eles já não soubessem, mas eles não podiam se livrar de mim facilmente depois que contribuí com Therriault. Não pegaria bem. Então eles esperaram, e acho que foi uma decisão inteligente. Depois, quando me pegaram, ou quando acharam que pegaram, eles tentaram me usar. Me botar pra usar escuta e toda aquela merda estilo Serpico. Mas tem outra coisa que dizem, uma coisa que não aprendi com o meu pai: quem dedura leva atadura. E eles não sabiam que eu tinha um ás na manga.
— Que ás? — Pode me achar burro se quiser, mas foi uma pergunta honesta.
— Você, Jamie. Você é meu ás. E depois de Therriault, eu sabia que chegaria uma hora em que eu teria que usá-lo.