Depois

Stephen King · Capítulo 32 de 72

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Depois

Capítulo 31

 

Eu o vi de novo na sexta, em frente à escola. Havia alguns pais esperando os filhos (sempre tem às sextas, provavelmente por eles estarem indo viajar no fim de semana) e ninguém viu Therriault, mas devem ter sentido, porque todo mundo passava longe do lugar onde ele estava. Ninguém estava empurrando um carinho de bebê, mas, se estivesse, eu sabia que o bebê estaria olhando para o lugar vazio na calçada e chorando de berrar.

Voltei para dentro da escola e olhei alguns pôsteres em frente à diretoria, me perguntando o que fazer. Acho que eu teria que falar com ele, descobrir o que ele queria, e decidi fazer isso naquela hora mesmo, enquanto ainda havia gente ao redor. Eu achava que ele não poderia me machucar, mas não sabia.

Fui ao banheiro masculino primeiro porque, de repente, precisava fazer xixi, mas, quando parei na frente do mictório, não consegui produzir nem uma gota. Então, saí, segurando a mochila pela alça em vez de pendurada nas costas. Eu nunca tinha sido tocado por uma pessoa morta, nunquinha, mas, se Therriault tentasse tocar em mim (ou me segurar) eu pretendia bater nele com a mochila cheia de livros.

Só que ele tinha sumido.

Uma semana se passou, e duas. Eu relaxei, achando que ele devia ter passado do prazo de validade.

Eu era da equipe júnior de natação da ACM e, em um sábado do fim de maio, tivemos nosso treino final para uma competição que aconteceria no Brooklyn no fim de semana seguinte. Minha mãe me deu dez dólares para comer alguma coisa depois e me disse (como sempre dizia) para não esquecer de trancar o armário, para ninguém roubar meu dinheiro ou meu relógio (apesar de eu não ter ideia de por que alguém ia querer roubar um Timex vagabundo). Eu perguntei se ela ia à competição. Ela ergueu o olhar do manuscrito que estava lendo e disse:

— Pela quarta vez, Jamie, sim. Eu vou à competição. Está na minha agenda.

Era só a segunda vez que eu perguntava (talvez a terceira), mas eu não disse nada, só beijei a bochecha dela e segui pelo corredor até o elevador. Quando a porta se abriu, Therriault estava lá, sorrindo daquele jeito e me olhando com o olho bom e com o saltado.

— Sua mãe tem câncer, campeão. Por causa dos cigarros. Ela vai morrer em seis meses.

Fiquei paralisado com a boca aberta.

A porta do elevador se fechou. Fiz um som que foi meio guincho, meio gemido, sei lá, e me apoiei na parede para não cair.

Eles têm que falar a verdade, pensei. Minha mãe vai morrer.

Mas meus pensamentos se organizaram um pouco e um pensamento melhor surgiu. Eu me agarrei a ele como um homem se afogando se agarra a um pedaço de madeira que flutua. Mas talvez eles só precisem dizer a verdade quando a gente faz perguntas. Pode ser que eles possam contar qualquer porra de mentira que quiserem se não for assim.

Eu não queria mais ir ao treino de natação, mas, se eu não fosse, o treinador poderia acabar ligando para a minha mãe para saber onde eu estava. Aí, ela ia querer saber onde eu estava, e o que eu ia dizer? Que estava com medo do Thumper estar me esperando na esquina? No saguão da ACM? Ou (a perspectiva mais horrível) no vestiário, invisível para os meninos pelados tirando o excesso de cloro no chuveiro?

Eu tinha que dizer pra ela que ela tinha câncer, porra?

Por isso, eu fui. E, como você pode imaginar, nadei mal pra caralho. O treinador me mandou ajeitar a posição da cabeça e eu precisei beliscar o sovaco para não cair no choro. Precisei beliscar com força.

Quando cheguei em casa, minha mãe ainda estava mergulhada no manuscrito. Eu não a via fumando desde que a Liz foi embora, mas sabia que ela às vezes bebia quando eu não estava, com os autores e vários editores, e inspirei fundo quando a beijei, mas não senti nenhum cheiro além de um pouco de perfume. Ou talvez creme hidratante, porque era sábado. Alguma coisa de mulher, pelo menos.

— Está ficando resfriado, Jamie? Você se secou direito depois de nadar, né?

— Me sequei. Mãe, você não fuma mais, né?

— Então é isso. — Ela botou o manuscrito de lado e se alongou. — Não, eu não fumei nenhum cigarro desde que a Liz foi embora.

Desde que você a expulsou, pensei.

— Você foi ao médico recentemente? Fazer checkup?

Ela me olhou sem entender.

— Por que você está falando isso? Você está com aquela ruguinha entre as sobrancelhas.

— Bom, você é a única pessoa que eu tenho. Se acontecesse alguma coisa com você, eu não poderia ir morar com o tio Harry, né?

Ela fez uma careta, riu e me abraçou.

— Eu estou bem, moleque. Fiz o checkup anual dois meses atrás, na verdade. Passei com louvor.

E ela afastou o olhar. No auge da saúde, como dizem. Não tinha perdido mais peso e não estava tossindo até quase cuspir os pulmões. Se bem que o câncer não precisava só estar na garganta ou nos pulmões da pessoa, eu sabia disso.

— Ah… que bom. Fico feliz.

— Somos dois. Agora faz um café pra sua mãe e me deixa terminar esse manuscrito.

— É bom?

— É muito bom, sim.

— Melhor do que os livros do sr. Thomas sobre Roanoke?

— Bem melhor, mas não tão comercial.

— Posso tomar café?

Ela suspirou.

— Meia xícara. Agora, me deixa ler.