Depois
Capítulo 50
Fui até o Palácio na Park, bem mais velho e mais alto do que o garotinho que saiu da escola em um dia de outono segurando a mão da mãe, com o desenho de um peru verde na outra mão. Mais velho, mais alto e talvez até mais sábio, mas ainda a mesma pessoa. Nós mudamos, mas não mudamos. Não sei explicar. É um mistério.
Eu não tinha como entrar no prédio porque não tinha chave, mas não precisei, porque o prof. Burkett estava sentado na escada, usando o terno marrom da viagem. Eu me sentei ao lado dele. Uma senhora passou com um cachorrinho peludo. O cachorro olhou para o professor. A senhora, não.
— Oi, professor.
— Oi, Jamie.
Cinco dias tinham se passado desde que ele morreu no avião e a voz dele estava fazendo aquela coisa de diminuir que normalmente acontece. Como se ele estivesse falando comigo de longe, ficando cada vez mais longe. E, embora ele parecesse tão gentil quanto sempre era, ele também parecia meio, sei lá, desconectado. A maioria fica assim. Até a sra. Burkett ficou assim, embora estivesse mais falante do que a maioria (e alguns não falam nada se não for para responder a perguntas). Seria por estarem vendo o desfile em vez de estarem participando? Acho que é quase isso, mas não exatamente. É como se eles tivessem outras coisas mais importantes na cabeça, e pela primeira vez eu me dei conta de que a minha voz devia estar distante para ele também. O mundo devia estar se apagando.
— Você está bem?
— Estou.
— Doeu? O ataque cardíaco?
— Doeu, mas passou rápido. — Ele estava olhando para a rua, não para mim. Como se guardando as informações.
— Tem alguma coisa que você precisa que eu faça?
— Só uma coisa. Nunca chame Therriault. Porque Therriault se foi. O que viria é a coisa que o possuiu. Acredito que, na literatura, esse tipo de entidade se chama entrante.
— Não vou chamar, prometo. Professor, por que essa coisa conseguiu possuir ele? Porque Therriault era mau por natureza? Foi por isso?
— Não sei, mas parece provável.
— Você ainda quer saber o que aconteceu quando eu o agarrei? — Eu pensei no e-mail dele. — Os detalhes?
— Não. — Isso me decepcionou, mas não me surpreendeu. As pessoas mortas perdem o interesse na vida dos vivos. — Só lembra o que eu falei.
— Vou lembrar, não se preocupe.
Uma leve sombra de irritação surgiu na voz dele.
— Eu fico pensando… Você foi absurdamente corajoso, mas também deu uma sorte absurda. Você não entende porque é só uma criança, mas acredite na minha palavra. Aquela coisa é de fora do universo. Existem horrores que ninguém consegue conceber. Se você permuta com ela, corre o risco de morrer ou ficar louco ou destruir sua própria alma.
Eu nunca tinha ouvido ninguém falar em permutar, acho que era outra palavra das antigas do professor, como refrigerador para geladeira. Mas entendi a ideia. E, se ele queria me assustar, tinha conseguido. Destruir minha alma? Meu Deus!
— Não vou chamar. Não vou mesmo.
Ele não respondeu. Só olhou para a rua com as mãos nos joelhos.
— Vou sentir saudades, professor.
— Certo. — A voz dele estava ficando cada vez mais baixa. Em pouco tempo, eu não conseguiria mais ouvir, só conseguiria ver os lábios se movendo.
— Posso perguntar só mais uma coisa? — Pergunta idiota. Quando a gente pergunta, eles têm que responder, embora nem sempre a gente possa gostar do que vai ouvir.
— Pode.
Eu fiz a minha pergunta.