Depois

Stephen King · Capítulo 7 de 72

Páginas do PDF

Depois

Capítulo 6

 

Quando minha mãe percebeu como as coisas estavam ruins, eu a ouvi falando no telefone com Anne Staley, sua amiga editora, sobre o tio Harry.

— Ele já era ruim da cabeça antes de ficar ruim da cabeça. Só percebi agora.

Aos seis anos eu não entenderia. Mas eu já tinha oito anos, quase nove, e entendi, ao menos um pouco. Ela estava falando sobre a confusão em que o irmão tinha se metido (e a levado junto) antes mesmo do Alzheimer precoce ter roubado o cérebro dele como um ladrão no meio da noite.

Eu concordei com ela, claro; ela era minha mãe e éramos nós contra o mundo, um time de dois. Eu odiei o tio Harry pela situação em que ele nos meteu. Só depois, quando eu tinha uns doze ou catorze anos, foi que percebi que minha mãe também tinha uma parte da culpa. Ela talvez tivesse conseguido sair enquanto ainda havia tempo, provavelmente conseguiria, mas não saiu. Como o tio Harry, que fundou a Agência Literária Conklin, ela sabia muito sobre livros, mas não o suficiente sobre dinheiro.

Ela até recebeu dois avisos. Um foi da amiga Liz Dutton. Liz era detetive da polícia de Nova York e grande fã da série Roanoke, do Regis Thomas. Minha mãe a conheceu em uma festa de lançamento de um dos livros e elas se deram bem. O que acabou não sendo muito bom. Vou chegar nessa parte, mas agora só vou dizer que Liz falou para a minha mãe que o Fundo Mackenzie era bom demais para ser verdade. Isso pode ter sido mais ou menos na época em que a sra. Burkett morreu, não tenho tanta certeza disso, mas sei que foi antes da crise de 2008, quando a economia virou de cabeça para baixo. Inclusive a nossa parte nela.

Tio Harry jogava raquetebol em um clube chique perto do Píer 90, onde ficam as lanchas bacanas. Um dos amigos com quem ele jogava era um produtor da Broadway, que contou para ele sobre o Fundo Mackenzie. O amigo chamou de licença para fabricar dinheiro, e tio Harry o levou a sério nisso. Por que não levaria? O amigo tinha produzido um zilhão de musicais que ficavam em cartaz na Broadway por um zilhão de anos, e também por todo o país, e a grana dos direitos autorais chovia. (Eu sabia exatamente o que eram direitos autorais, eu era filho de uma agente literária.)

Tio Harry deu uma olhada, conversou com um figurão que trabalhava no fundo (mas não com o próprio James Mackenzie, porque o tio Harry era só uma figurinha no grande esquema das coisas) e investiu um monte de dinheiro. O lucro foi tão bom que ele investiu mais. E mais. Quando ficou com Alzheimer — e ele foi morro abaixo muito rápido — minha mãe assumiu todas as contas, e não só ficou com o Fundo Mackenzie como também botou mais dinheiro lá.

Monty Grisham, o advogado que ajudava com os contratos na época, não só falou para ela não botar mais como falou para ela sair enquanto ainda estava lucrando. Esse foi o segundo aviso que ela recebeu, e logo depois de assumir a Agência Conklin. Ele também disse que, se uma coisa parecia boa demais para ser verdade, provavelmente era mesmo.

Estou contando tudo que descobri pelas migalhas, como a conversa que ouvi entre a minha mãe e a amiga editora. Sei que você entende e sei que você não precisa que eu diga que o Fundo Mackenzie era, na verdade, um grande esquema de pirâmide. A coisa funcionava assim: Mackenzie e seu grupinho de bandidos alegres recebiam muitos milhões e pagavam lucros de porcentagens altas enquanto levavam embora a maior parte da grana dos investimentos. Eles mantinham o esquema atraindo novos investidores, que ouviam que eram especiais porque só algumas pessoas seletas podiam participar do Fundo. As pessoas seletas, no fim das contas, eram milhares, desde produtores da Broadway a viúvas ricas que deixaram de ser ricas da noite para o dia.

Um esquema desses depende de os investidores estarem felizes com o lucro e não só de deixarem seus investimentos iniciais, mas de botarem mais dinheiro. Funcionou por um tempo, mas, quando a economia quebrou em 2008, quase todo mundo do Fundo pediu seu dinheiro de volta e o dinheiro não estava lá. Mackenzie era ladrão de galinhas em comparação a Bernard Madoff, o rei dos esquemas de pirâmide, mas botou o velho Bern para suar mesmo assim: depois de receber mais de vinte bilhões de dólares, ele só tinha nas contas do Mackenzie meros quinze milhões. Ele foi preso, uma coisa satisfatória, mas minha mãe às vezes dizia: “Sopa não é jantar e vingança não paga boleto”.

— A gente tá bem, a gente tá bem — disse ela quando Mackenzie começou a aparecer em todos os canais de notícias e no Times. — Não se preocupa, Jamie. — Mas as olheiras no rosto dela diziam que ela estava bem preocupada, e tinha muitos motivos para estar mesmo.

Descobri mais coisas depois: minha mãe só tinha uns duzentos mil em bens nos quais podia botar as mãos, e isso incluía os seguros, dela e meu. O que ela tinha no contas a pagar você nem queira saber. Só lembre que nosso apartamento ficava na Park Avenue, o escritório da agência ficava na avenida Madison e o residencial geriátrico onde tio Harry vivia (sou capaz de ouvir minha mãe acrescentar “se é que podemos chamar aquilo de viver”) ficava em Pound Ridge, que é tão caro quanto parece.

Fechar o escritório da Madison foi o primeiro passo da minha mãe. Depois disso, ela passou a trabalhar no Palácio na Park, ao menos por um tempo. Ela pagou uma parte do aluguel adiantado com o dinheiro dos seguros que mencionei, inclusive o do irmão, mas isso só duraria uns oito ou dez meses. Alugou a casa do tio Harry em Speonk. Vendeu o Range Rover (“A gente não precisa de carro na cidade, Jamie”, disse ela) e várias primeiras edições de livro, inclusive uma autografada de Thomas Wolfe, do livro Look Homeward, Angel. Ela chorou por causa desse livro e disse que não recebeu nem metade do que valia, porque o mercado de livros raros também tinha descido pelo ralo, graças a vários vendedores tão desesperados por grana na mão quanto ela. Nosso quadro do Andrew Wyeth também foi. E todos os dias ela xingava James Mackenzie por ser ladrão, ganancioso, filho da puta, pau no cu e basicamente uma hemorroida ambulante. Às vezes, ela também xingava o tio Harry, dizendo que ele estaria morando atrás de uma caçamba de lixo até o fim do ano e que seria bem feito. E, para ser justo, mais para a frente ela xingou a si mesma por não ter ouvido Liz e Monty.

— Me sinto o gafanhoto que brincou o verão todo em vez de trabalhar — disse ela uma noite. Acho que de janeiro ou fevereiro de 2009. Àquela altura, a Liz dormia na nossa casa às vezes, mas não naquela noite. Acho que foi a primeira vez que reparei que havia fios brancos no cabelo ruivo lindo da minha mãe. Ou talvez eu lembre porque ela começou a chorar e foi a minha vez de consolá-la, apesar de eu ser só uma criança e não saber fazer isso.

Naquele verão, nós nos mudamos do Palácio na Park para um apartamento bem menor na Décima Avenida.

— Não é um buraco — disse minha mãe — e o preço é justo. — E também: — Me recuso a sair da cidade. Seria uma rendição. Eu começaria a perder clientes.

A agência se mudou com a gente, claro. O escritório era no que eu acho que seria meu quarto se as coisas não estivessem horríveis pra caralho. Meu quarto era uma alcova adjacente à cozinha. Era quente no verão e gelado no inverno, mas pelo menos o cheiro era bom. Acho que costumava ser a despensa.

Ela levou tio Harry para um residencial em Bayonne. Quanto menos for dito sobre aquele local, melhor. A única coisa boa dele, acho, era que o pobre tio Harry não sabia mesmo onde estava; ele teria mijado na calça do mesmo jeito se estivesse no Hilton de Beverly Hills.

Outras coisas de que me lembro de 2009 e 2010: minha mãe parou de ir ao salão fazer o cabelo. Parou de almoçar com as amigas e só almoçava com os clientes da agência se realmente precisasse (porque a conta sempre ficava na mão dela). Começou a comprar bem menos roupas e, quando comprava, era em pontas de estoque. E começou a beber mais vinho. Bem mais. Havia noites em que ela e a amiga Liz, a fã do Regis Thomas que também era detetive, que mencionei antes, enchiam a cara juntas. No dia seguinte, minha mãe acordava mal-humorada e rabugenta, andando pelo escritório de pijama. Às vezes, ela cantava: “Crappy days are here again, the skies are fucking drear again” — os dias ruins estão de volta, o céu está sombrio outra vez. Nesses dias, era um alívio ir para a escola. Escola pública, claro; meus dias de escola particular tinham acabado, graças a James Mackenzie.

Havia alguns raios de luz em meio às trevas. O mercado de livros raros podia estar descendo pelo ralo, mas as pessoas estavam lendo livros comuns de novo; romances para fugir da realidade e livros de autoajuda porque, vamos ser realistas, em 2009 e 2010 as pessoas precisavam se autoajudar. Minha mãe sempre foi leitora de mistério e estava construindo essa parte do estábulo da Conklin desde que assumiu a posição do tio Harry. Ela tinha uns dez ou doze autores de mistério. Não eram grandes campeões de vendas, mas os quinze por cento deles eram suficientes para pagar o aluguel e a energia da nossa casa nova.

Além disso, havia Jane Reynolds, uma bibliotecária da Carolina do Norte. O livro dela, um mistério chamado Vermelho morto, apareceu de repente, e minha mãe ficou louca pela história. Houve um leilão para decidir quem publicaria. Todas as editoras grandes participaram, e os direitos acabaram sendo vendidos por dois milhões de dólares. Trezentos mil dessa quantia eram nossos, e minha mãe começou a sorrir de novo.

— Vai demorar pra gente voltar pra Park Avenue — disse ela — e nós temos muito que melhorar até sairmos do buraco que o tio Harry cavou pra gente, mas acho que a gente consegue.

— Eu não quero mesmo voltar pra Park Avenue — falei. — Gosto daqui.

Ela sorriu e me abraçou.

— Você é meu amorzinho. — Ela esticou os braços, ainda me segurando, e me observou. — Que nem está mais tão inho assim. Sabe o que eu espero, moleque?

Eu balancei a cabeça.

— Que a Jane Reynolds vire uma escritora de um livro por ano. E que façam um filme do Vermelho morto. Mesmo que nenhuma das duas coisas aconteça, tem nosso fiel Regis Thomas e a Saga Roanoke. Ele é a joia da nossa coroa.

Só que Vermelho morto acabou sendo o último raio de sol antes da chegada da grande tempestade. O filme não foi feito e os editores que entraram no leilão do livro se enganaram, como acontece às vezes. O livro foi um fracasso, o que não nos afetou financeiramente (o dinheiro já tinha sido pago), mas outras coisas aconteceram, e os trezentos mil sumiram como poeira ao vento.

Primeiro, os sisos da minha mãe inflamaram. Ela teve que tirar todos. Isso foi ruim. Depois, o tio Harry, o problemático tio Harry, que ainda não tinha cinquenta anos, tropeçou no residencial geriátrico de Bayonne e fraturou o crânio. Isso foi bem pior.

Minha mãe conversou com o advogado que a ajudava com os contratos de livros (e cobrava um valor alto por esse trabalho). Ele recomendou outro advogado, especializado em processos de responsabilidade e negligência. O novo advogado disse que a gente tinha um bom caso, e talvez tivéssemos mesmo, mas, antes que o caso chegasse perto de um tribunal, o residencial de Bayonne decretou falência. A única pessoa que ganhou dinheiro com a situação foi o advogado trambiqueiro chique, que embolsou quase quarenta mil dólares.

— Essa gente que cobra por hora é uma merda — disse minha mãe uma noite, quando ela e Liz Dutton estavam no meio da segunda garrafa de vinho. Liz riu porque não eram dela os quarenta mil. Minha mãe riu porque estava altinha. Só eu não vi graça, porque não foi só a conta do advogado. A gente também tinha que pagar as contas médicas do tio Harry.

Pior de tudo, a Receita Federal veio atrás da minha mãe por causa de uns impostos que o tio Harry devia. Ele estava adiando o pagamento do outro tio, o Sam, para poder botar mais dinheiro no Fundo Mackenzie. Só sobrou Regis Thomas.

A joia da nossa coroa.