Depois

Stephen King · Capítulo 58 de 72

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Depois

Capítulo 57

 

Nós atravessamos o centro de Renfield, que devia ter uma grande população de universitários, a julgar por todos os bares, livrarias e lanchonetes na única rua principal. Do outro lado, a rua virava para oeste e começava a subir pelas Catskills. Depois de uns cinco quilômetros, nós chegamos a uma área de piqueniques com vista para o rio Wallkill. Liz entrou ali e desligou o motor. Éramos os únicos lá. Ela pegou o frasco de mistura especial, pareceu que ia desenroscar a tampa, mas depois guardou. O casaco se abriu e vi mais manchas de sangue seco no suéter. Pensei nela dizendo que o septo já era. Pensar em como o pó que ela cheirava estava corroendo a carne dela por dentro foi pior que os filmes Premonição e Jogos mortais porque era real.

— Hora de te contar por que eu te trouxe aqui, moleque. Você precisa saber o que esperar e o que eu espero de você. Acho que não vamos continuar amigos depois, mas pode ser que dê pra nos despedirmos em termos relativamente bons.

Duvido foi outra coisa que eu não disse.

— Se você quiser saber como o ramo das drogas funciona, assista à série A escuta. Ela se passa em Baltimore e não em Nova York, mas o ramo das drogas não muda muito de lugar pra lugar. É uma pirâmide, como qualquer outra organização com muito dinheiro. Tem os traficantes menores na parte de baixo, e a maioria é menor de verdade, e quando eles são pegos eles são julgados como menores de idade. Na vara de família um dia, de volta à esquina das ruas no seguinte. Depois vem os traficantes sênior, os que servem as casas noturnas, que foi onde eu fui recrutada. E tem os figurões, que economizam comprando no atacado.

Ela riu, e eu também não entendi o que havia de engraçado nisso.

— Se subirmos um pouco, temos os fornecedores, os executivos juniores que deixam as coisas funcionando com tranquilidade, os contadores, os advogados e os caras grandes de verdade. É tudo compartimentalizado, ou pelo menos é pra ser assim. As pessoas de baixo sabem quem está diretamente acima, mas mais nada. As pessoas do meio conhecem todo mundo abaixo, mas só uma camada acima também. Eu era diferente. Estava fora da pirâmide. Fora da, hã, hierarquia.

— Porque você era transportadora. Como naquele filme do Jason Statham.

— Basicamente isso. Os transportadores só devem conhecer duas pessoas, as que nos entregam a carga no Ponto A e as que a recebem no Ponto B. As do Ponto B são distribuidoras sênior, que botam a droga pra se espalhar pirâmide abaixo e levam até seu destino final, os usuários.

“Só que, sendo policial, ainda que corrupta, eu presto atenção, né? Não faço muitas perguntas porque fazer isso é perigoso, mas eu escuto. Além do mais, eu tenho acesso, ou tinha, às bases de dados da polícia de Nova York e do departamento antidrogas. Não foi difícil rastrear a pirâmide até o topo. Tem umas doze pessoas importando os três principais tipos de drogas pras regiões de Nova York e da Nova Inglaterra, mas o que eu estava procurando mora aqui em Renfield. Morava, devo dizer. O nome dele é Donald Marsden, e, quando ele declarava imposto, ele listava desenvolvedor como antiga ocupação e aposentado como atual. Ele está aposentado, sim.”

Morava, devo dizer. Aposentado.

Era Kenneth Therriault tudo de novo.

— O garoto entendeu — disse Liz. — Fantástico. Você se importa se eu fumar? Eu não devo cheirar mais nada até isso acabar. Depois, vou me permitir uma dose dupla. É o limite pra pressão arterial.

Ela não esperou que eu desse permissão, só acendeu o cigarro. Mas, pelo menos, ela abriu a janela para a fumaça sair. A maior parte, pelo menos.

— Donnie Marsden era conhecido pelos colegas, pela equipe dele, como Donnie Grandão, e por um bom motivo. Ele era um filho da puta gordo pra caralho, e peço perdão por ser politicamente incorreta. Cento e cinquenta quilos era pouco, ele estava quase nos duzentos. Ele estava pedindo e aconteceu ontem. Hemorragia cerebral. Explodiu o cérebro dele e nem precisou de arma.

Ela tragou fundo e jogou o cigarro pela janela. A luz do dia continuava forte, mas as sombras estavam ficando compridas. Em pouco tempo, a luz começaria a sumir.

— Uma semana antes do derrame, eu soube por dois dos meus antigos contatos, dois caras do Ponto B com quem mantive amizade, que Donnie recebeu um carregamento da China. Um carregamento enorme, eles disseram. Não de pó, de comprimidos. OxyContin genérico, muita quantidade pra venda pessoal do Donnie. Talvez uma espécie de bônus. Esse é meu palpite, pelo menos, porque não existe topo da pirâmide, Jamie. Até os chefes têm chefes.

Isso me fez pensar em uma coisa que minha mãe e o tio Harry cantarolavam às vezes. Eles aprenderam quando eram crianças, acho, e o tio Harry continuou lembrando mesmo quando todas as coisas importantes já tinham desaparecido da cabeça dele. As pulgas grandes têm pulguinhas nas costas que as mordem, e as pulguinhas têm pulgas menores ainda, e assim eternamente. Acho que eu talvez cantarole isso para os meus próprios filhos um dia. Se tiver a oportunidade de tê-los, claro.

— Comprimidos, Jamie. Comprimidos! — Ela pareceu extasiada, e isso foi sinistro demais. — Fácil de transportar e mais fácil ainda de vender! Enorme podia significar dois ou três mil, talvez dez mil. E o Rico, um dos meus caras do Ponto B, diz que são de quarenta miligramas. Sabe quanto custam os comprimidos de quarenta miligramas nas ruas? Deixa pra lá, eu sei que você não sabe. Oitenta pratas por comprimido. E sem o estresse da trabalheira de transportar heroína em sacos de lixo, dá pra carregar isso em uma porra de mala.

Saiu fumaça pelos lábios dela, e ela ficou olhando a fumaça voar na direção das grades com a placa dizendo FIQUE LONGE DA BEIRADA.

— Nós vamos pegar esses comprimidos, Jamie. Você vai descobrir onde ele guardou. Meus amigos pediram pra entrar na jogada se eu conseguisse descobrir, e claro que eu disse sim, mas esse negócio é meu. Além do mais, podem não ser dez mil comprimidos. Podem ser só oito mil. Ou oitocentos.

Ela inclinou a cabeça e a balançou. Como se discutindo com ela mesma.

— Vão ser uns dois mil. Dois mil pelo menos, tem que ser. Provavelmente mais. O bônus executivo do Donnie por fazer um bom trabalho de fornecimento pra clientela de Nova York. Mas, se eu começar a dividir, daqui a pouco só sobram uns trocados idiotas, e eu não sou idiota. Tenho um probleminha com drogas, mas isso não me torna idiota. Sabe o que eu vou fazer, Jamie?

Eu fiz que não com a cabeça.

— Vou pra Costa Oeste. Vou desaparecer desta parte do mundo pra sempre. Com roupas novas, outra cor de cabelo, uma nova eu. Vou encontrar alguém lá que compre esse Oxy. Posso não conseguir oitenta por comprimido, mas vou conseguir bastante, porque o Oxy ainda é muito especial, e essa porra chinesa é tão boa quanto a de verdade. Depois, vou arrumar uma nova identidade que combine com meu cabelo novo e as roupas novas. Vou pra uma reabilitação e vou ficar limpa. Vou arrumar um emprego, talvez do tipo em que eu possa começar a compensar o passado. Expiação é como os católicos chamam. Que tal?

Parece um sonho alucinado, pensei.

Deve ter ficado evidente na minha cara, porque o sorriso feliz que ela tinha aberto congelou.

— Você não acha que vai dar certo? Tudo bem. Observe.

— Eu não quero observar — falei. — Quero ir pra bem longe de você.

Ela levantou a mão e eu me encolhi no banco, achando que ela pretendia me bater, mas ela só suspirou e limpou o nariz.

— Não posso te culpar por isso. Então, vamos fazer acontecer. A gente vai até a casa dele, a última na estrada Renfield, totalmente isolada, e você vai perguntar pra ele onde estão os comprimidos. Meu palpite é que estão no cofre pessoal dele. Se estiverem lá, você vai pedir a combinação. Ele vai ter que contar, porque os mortos não podem mentir.

— Eu não tenho certeza disso — falei, uma mentira que provava que eu ainda estava vivo. — Não é como se eu tivesse perguntado coisas a centenas deles. Na maior parte das vezes, eu nem falo com eles. Por que falaria? Eles estão mortos.

— Mas Therriault te contou onde estava a bomba, apesar de não querer contar.

Eu não podia discutir com isso, mas havia outra possibilidade.

— E se o cara não estiver lá? E se estiver no lugar pra onde o corpo foi? Ou sei lá, e se estiver visitando os pais na Flórida? Pode ser que, depois de mortos, eles possam se teletransportar pra qualquer lugar.

Eu achei que isso a abalaria, mas ela não pareceu nada incomodada.

— O Thomas estava na casa dele, não estava?

— Isso não quer dizer que todos ficam, Liz!

— Tenho quase certeza de que Marsden vai estar. — Ela pareceu bem segura. Ela não entendia que os mortos podem ser imprevisíveis. — Vamos fazer isso. E vou te conceder seu maior desejo. Você nunca mais vai precisar me ver.

Ela disse isso de um jeito triste, como se eu devesse sentir pena dela, mas eu não senti. A única coisa que senti foi medo.