Depois

Stephen King · Capítulo 6 de 72

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Depois

Capítulo 5

 

Estávamos na parte da 86th Street que atravessa o Central Park, indo para Wave Hill, no Bronx, onde ia ser a festa de aniversário de uma das minhas amigas da pré-escola. (“Isso que é mimar uma criança”, disse minha mãe.) O presente que eu ia dar para a Lily estava no meu colo. Nós passamos por uma curva e vimos um monte de gente parada na rua. O acidente devia ter acabado de acontecer. Um homem estava deitado metade na rua e metade na calçada, com uma bicicleta toda retorcida do lado. Alguém tinha colocado uma jaqueta sobre a parte de cima do corpo dele. A parte de baixo estava com um short preto de ciclismo com listras vermelhas dos lados, uma joelheira e tênis todos manchados de sangue. Nas meias e nas pernas também. Dava para ouvir as sirenes se aproximando.

De pé ao lado dele estava o mesmo homem com o mesmo short de ciclismo e a mesma joelheira. Ele tinha cabelo branco, que estava sujo de sangue. O rosto estava afundado bem no meio, acho que no lugar que bateu no meio-fio. O nariz parecia estar em dois pedaços e a boca também.

Havia carros parando e minha mãe disse:

— Fecha os olhos.

Ela estava olhando para o homem deitado no chão, claro.

— Ele está morto! — Eu comecei a chorar. — Aquele homem está morto!

Nós paramos. Tivemos que parar. Por causa dos outros carros na nossa frente.

— Não está, não — disse minha mãe. — Está dormindo, só isso. É o que acontece às vezes quando alguém bate a cabeça com força. Ele vai ficar bem. Agora, fecha os olhos.

Eu não fechei. O homem de cara esmagada levantou a mão e acenou para mim. Eles sabem quando eu os vejo. Sempre sabem.

— O rosto dele está em dois pedaços!

Minha mãe olhou de novo para ter certeza, viu que o homem estava coberto até a cintura e disse:

— Para de ficar metendo medo em você mesmo, Jamie. Só fecha os…

— Ele está ali! — Eu apontei. Meu dedo estava tremendo. Tudo estava tremendo. — Bem ali, parado ao lado dele mesmo!

Isso botou medo nela. Percebi pelo jeito como ela apertou a boca. Ela meteu a mão na buzina. Com a outra, ela apertou o botão que abria a janela e começou a acenar para os carros na frente.

— Anda! — gritou ela. — Sai daí! Para de olhar pra ele, pelo amor de Deus, isso aqui não é um filme, caralho!

Todos andaram, menos o carro na frente dela. O cara estava com o corpo para fora da janela, tirando uma foto com o celular. Minha mãe se aproximou e bateu no para-lama dele. O cara mostrou o dedo do meio. Minha mãe deu ré e foi para a outra pista para contornar o carro. Eu queria também ter mostrado o dedo do meio para ele, mas estava apavorado demais.

Minha mãe quase bateu na viatura da polícia vindo na direção oposta e foi dirigindo até o outro lado do parque o mais rápido que conseguiu. Ela estava quase lá quando soltei o cinto de segurança. Minha mãe gritou para eu não fazer isso, mas fiz mesmo assim. Eu abri a janela, me ajoelhei no banco e vomitei toda a comida na lateral do carro. Não consegui segurar. Quando chegamos ao lado do Central Park West, minha mãe encostou o carro e limpou meu rosto com a manga da blusa. Ela talvez tenha usado a blusa de novo, mas, se usou, eu não lembro.

— Meu Deus, Jamie. Você está branco como papel.

— Não consegui segurar — falei. — Eu nunca vi ninguém assim. Tinha um osso saindo do na-nariz… — Eu vomitei de novo, mas consegui que quase tudo fosse parar na rua e não no nosso carro. Nem tinha tanta coisa assim.

Ela fez carinho no meu pescoço e ignorou a pessoa (talvez o homem que nos mostrou o dedo do meio) que buzinou e contornou nosso carro.

— Querido, isso é a sua imaginação. Ele estava coberto.

— Não o do chão, o que estava de pé do lado dele. Ele deu tchau pra mim.

Ela ficou me olhando por tanto tempo que pareceu que ia dizer alguma coisa, mas só prendeu meu cinto de segurança.

— Acho que a gente não devia ir à festa. O que você acha?

— Bom — falei. — Eu não gosto mesmo da Lily. Ela me belisca escondido na hora da historinha.

Nós fomos para casa. Minha mãe perguntou se eu aguentaria tomar uma xícara de chocolate quente e eu disse que sim. Nós tomamos o chocolate juntos na sala. Eu ainda estava com o presente da Lily. Era uma bonequinha com roupa de marinheira. Quando dei para ela na semana seguinte, em vez de me beliscar escondido, ela me deu um beijo na boca. Pegaram no meu pé por causa disso e nunca me incomodei.

Enquanto a gente estava tomando o chocolate quente (o dela talvez tivesse uma coisa a mais), minha mãe disse:

— Eu prometi pra mim mesma quando engravidei que nunca ia mentir para o meu filho, então lá vai. Sim, aquele cara devia estar mesmo morto. — Ela fez uma pausa. — Não, ele estava morto. Acho que nem um capacete teria salvado o cara, e não vi capacete nenhum.

Não, ele não estava de capacete. Porque, se estivesse usando quando bateram nele (foi um táxi, a gente acabou descobrindo), ele estaria usando quando parou de pé ao lado do corpo. Eles sempre estão usando o que estavam na hora que morreram.

— Mas você só imaginou que viu o rosto dele, querido. Não dava pra você ter visto. Ele foi coberto com uma jaqueta. Por uma pessoa muito gentil.

— Ele estava com uma camiseta com um farol desenhado — falei. E pensei em outra coisa. Era só um pouco bom, mas depois de uma coisa assim, acho que a gente aproveita o que pode. — Pelo menos ele era bem velho.

— Por que você diz isso? — Ela estava me olhando de um jeito estranho. Pensando bem, acho que foi nessa hora que ela começou a acreditar, pelo menos um pouco.

— O cabelo dele era branco. Menos as partes com sangue, né.

Eu comecei a chorar de novo. Minha mãe me abraçou e me embalou e peguei no sono com ela fazendo isso. Vou te dizer uma coisa, não tem nada como ter a mãe por perto quando a gente está pensando umas merdas que dão medo.

O Times era entregue na nossa porta. Minha mãe costumava ler à mesa de roupão durante o café da manhã, mas, no dia seguinte ao homem do Central Park, ela estava lendo um manuscrito. Quando o café da manhã acabou, ela mandou eu me vestir porque a gente talvez fosse dar um passeio de barco, então devia ser sábado. Lembro que pensei que era o primeiro fim de semana depois da morte do homem do Central Park. Isso tornou a história toda real de novo.

Eu fiz o que ela falou, mas primeiro fui até seu quarto enquanto ela estava no banho. O jornal estava na cama, aberto na página onde botam os mortos que são famosos a ponto de aparecerem no Times. O retrato do homem do Central Park estava lá. O nome dele era Robert Harrison. Aos quatro anos, eu já lia no nível de terceiro ano, minha mãe sentia muito orgulho disso, e não havia nenhuma palavra difícil na manchete, que foi a única coisa que eu li: CEO da fundação farol morre em acidente de trânsito.

Vi algumas pessoas mortas depois disso (aquele ditado que diz que na vida estamos na morte é mais verdadeiro do que a maioria das pessoas sabe) e às vezes falava alguma coisa para a minha mãe, mas em geral não falava, porque eu via que ela ficava chateada. Só quando a sra. Burkett morreu e minha mãe encontrou os anéis dela no armário foi que voltamos a falar disso.

Naquela noite, depois que ela saiu do meu quarto, eu pensei que não conseguiria dormir, que sonharia com o homem do Central Park com a cara aberta e os ossos para fora do nariz ou com a minha mãe no caixão, mas também sentada nos degraus do púlpito, onde só eu a veria. Mas, até onde consigo lembrar, eu não sonhei com nada. Acordei na manhã seguinte me sentindo bem, e minha mãe estava se sentindo bem, e nós brincamos como costumávamos brincar, e ela prendeu meu peru na geladeira e deu um beijo de batom no desenho, o que me fez rir, e ela me levou a pé para a escola, e a professora Tate falou sobre dinossauros, e a vida prosseguiu por dois anos do jeitinho bom de sempre. Até que tudo desmoronou, claro.