Depois
Capítulo 45
No domingo, minha mãe sugeriu uma visita ao prof. Burkett, para nós vermos como ele estava e para pegarmos a travessa da torta.
— E a gente podia levar uns croissants da Haber’s.
Eu falei que era uma boa ideia. Ela ligou para ele, e ele disse que adoraria nos ver, então andamos até a padaria e pegamos um táxi. Minha mãe se recusava a usar Uber. Ela disse que não era a cara de Nova York. Os táxis é que eram a cara de Nova York.
Acho que o milagre da cura continua mesmo quando estamos velhos, porque o prof. Burkett estava usando só uma bengala e estava se movendo muito bem. Não que fosse voltar a correr a maratona de Nova York (se é que ele já tinha corrido alguma vez), mas ele deu um abraço na minha mãe na porta e não fiquei com medo de ele cair de cara no chão quando ele apertou minha mão. Ele me olhou com perspicácia, eu assenti de leve, e ele sorriu. Nós nos entendemos.
Minha mãe se ocupou para servir os croissants com manteiga e os potinhos de geleia que os acompanhavam. Nós comemos na cozinha com o sol do meio da manhã entrando pela janela. Foi uma refeição agradável. Quando acabamos, minha mãe transferiu os restos da torta (a maior parte, ainda; acho que gente velha não come muito) para um tupperware e lavou a travessa. Deixou secando e pediu licença para usar o banheiro.
Assim que ela saiu, o prof. Burkett se inclinou por cima da mesa.
— O que aconteceu?
— Ele estava no saguão quando saí do elevador ontem. Eu nem pensei, só corri e agarrei ele.
— Ele estava lá? O tal Therriault? Você o viu? Sentiu? — Ainda meio convencido de que era tudo coisa da minha cabeça, sabe. Dava para ver no rosto dele, e quem podia culpá-lo?
— É. Mas não é Therriault, não mais. A coisa dentro, é uma luz, tentou escapar, mas eu segurei. Foi assustador, mas eu soube que seria ruim pra mim se eu soltasse. Finalmente, quando vi que Therriault estava se apagando…
— Se apagando? Como assim?
Ouvimos a descarga. Minha mãe só voltaria depois de lavar as mãos, mas isso não demoraria.
— Eu falei o que você me disse pra dizer, professor. Que, se eu assobiasse, ela tinha que vir até mim. Que era a minha vez de assombrar ela. A coisa concordou. Eu fiz com que ela dissesse em voz alta, e ela disse.
Minha mãe voltou antes que ele pudesse fazer mais perguntas, mas vi que ele estava com a expressão perturbada e que ainda estava pensando que o confronto tinha sido coisa da minha cabeça. Eu entendia isso, mas fiquei meio puto mesmo assim; ele sabia as coisas, sobre os anéis e o livro do sr. Thomas. Mas, pensando melhor agora, eu entendo. A crença é um obstáculo alto para se pular e acho que é ainda mais alto para as pessoas inteligentes. As pessoas inteligentes sabem muito, e talvez isso as faça achar que sabem tudo.
— Nós temos que ir, Jamie — disse minha mãe. — Eu tenho um manuscrito pra terminar.
— Você sempre tem um manuscrito pra terminar — falei, o que a fez rir porque era verdade. Havia pilhas de coisas a serem lidas no escritório da agência e no de casa, e ambas as pilhas eram sempre altas. — Antes de irmos, conta para o professor o que aconteceu no nosso prédio ontem.
Ela se virou para o prof. Burkett.
— Foi tão estranho, Marty. Todos os disjuntores do prédio estouraram. De uma vez! O sr. Provenza, o zelador, disse que deve ter havido algum tipo de pico de luz. Ele disse que nunca tinha visto nada igual.
O professor pareceu sobressaltado.
— Só no seu prédio?
— Só no nosso — concordou ela. — Vem, Jamie. Vamos lá, deixar o Marty descansar.
Sair foi quase idêntico a chegar. O prof. Burkett me olhou de um jeito sério e eu assenti de leve.
Nós nos entendíamos.