Depois

Stephen King · Capítulo 60 de 72

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Depois

Capítulo 59

O asfalto terminou de repente, mas a estrada de terra que vinha depois era até melhor: bem batida, compactada, lisa. Havia uma placa laranja enorme que dizia ESTRADA PARTICULAR, NÃO ENTRE.

— E se tiver gente aí? — perguntei. — Tipo guarda-costas?

— Se tivesse, seria pra proteger o corpo. Mas o corpo já foi levado, e o cara que cuidava do portão também não vai estar aí. Não havia ninguém além do jardineiro e da empregada. Se você está imaginando um cenário de filme de ação, com homens de ternos pretos e óculos de sol e semiautomáticas protegendo o rei das drogas, esquece. O cara no portão era o único armado, e, mesmo se o Teddy por acaso ainda estiver aí, ele me conhece.

— E a esposa do sr. Marsden?

— Não tem esposa. Ela foi embora cinco anos atrás. — Liz estalou os dedos. — Sumiu no ar. Puff.

Nós fizemos outra curva. Uma montanha cheia de abetos podia ser vista à frente e bloqueava a metade oeste do céu. O sol brilhava por um trecho de vale, mas se poria em breve. Na nossa frente havia um portão feito de estacas de ferro. Fechado. Havia um interfone e um teclado numérico de um lado. Do outro lado do portão havia uma guarita, supostamente onde o homem que cuidava do portão passava o tempo.

Liz parou, desligou o carro e guardou a chave.

— Fique parado, Jamie. Isso vai acabar mais rápido do que você pensa.

As bochechas dela estavam vermelhas e os olhos estavam brilhando. Tinha um filete de sangue escorrendo por uma das narinas, que ela limpou. Ela saiu e foi até o interfone, mas as janelas do carro estavam fechadas e eu não ouvi o que ela disse. Ela foi até a guarita e desta vez eu a ouvi, porque ela elevou a voz.

— Teddy? Está aí? É sua amiga Liz. Queria prestar minhas homenagens, mas preciso saber onde!

Não houve resposta e ninguém saiu. Liz foi até o outro lado do portão. Pegou um pedaço de papel no bolso de trás, consultou-o e digitou uns números no teclado numérico. O portão se abriu lentamente. Ela voltou para o carro, sorrindo.

— Parece que a casa é toda nossa, Jamie.

Ela entrou. O caminho era de asfalto, liso como vidro. Tinha outra curva em S e Liz dirigiu por ela, com tochas elétricas acesas dos dois lados do trajeto. Depois, descobri que esse tipo de iluminação se chama archote. Ou talvez isso seja só para aquelas tochas que as multidões usam quando invadem o castelo nos filmes velhos de Frankenstein.

— Bonito — falei.

— É, mas olha aquela porra, Jamie!

Do outro lado do S, a casa de Marsden apareceu. Parecia uma daquelas mansões de Hollywood Hills que a gente vê no cinema: grande e empoleirada perto de um precipício. O lado virado para nós era todo de vidro. Imaginei Marsden tomando o café de manhã, vendo o sol nascer. Devia dar para ver até Poughkeepsie, talvez mais longe. Por outro lado… vista de Poughkeepsie? Não é de causar tanta inveja.

— A casa que a heroína construiu. — Liz falou com crueldade. — Com tudo que tem direito, e um Mercedes e um Porsche Boxster na garagem. As coisas que me fizeram perder o emprego.

Pensei em dizer você teve escolha, que é o que minha mãe sempre me dizia quando eu fazia besteira, mas fiquei de boca calada. Ela estava tão pronta para explodir quanto as bombas do Thumper, e eu não queria provocar essa explosão.

Houve mais uma curva até chegarmos ao pátio pavimentado na frente da casa. Liz dirigiu por ela, e vi um homem parado na porta da garagem dupla onde os carros chiques do Marsden estavam (não tinham levado Donnie Grandão para o necrotério no Porsche, claro). Abri a boca para dizer que devia ser Teddy, do portão, pois o cara era tão magro que não podia ser Marsden, mas vi que a boca dele tinha sumido.

— O Boxster está lá dentro? — perguntei, na esperança de a minha voz estar mais ou menos normal. Apontei para a garagem e para o homem parado na frente.

Ela deu uma olhada.

— Está, mas, se você queria dar uma volta ou mesmo uma olhada, você vai se decepcionar. Nós temos que cuidar das nossas coisas.

Ela não o viu. Só eu vi. E, considerando o buraco onde antes ficava a boca, ele não tinha tido uma morte natural.

Como eu falei, essa história é de terror.