Depois
Capítulo 3
O apartamento dos Burkett era menor do que o nosso, mas era bonito. Depois do jantar, quando estávamos comendo biscoitos da sorte (o meu dizia Uma pena na mão é melhor do que um pássaro no ar, o que não faz sentido nenhum), minha mãe disse:
— Já procurou nos armários, Marty? Os anéis?
— Por que ela colocaria os anéis em um armário? — Foi uma pergunta bem sensata.
— Bom, se ela estava tendo um derrame, é possível que não estivesse pensando com clareza.
Estávamos comendo na mesinha redonda na cozinha. A sra. Burkett estava sentada em um dos banquinhos na frente da bancada e assentiu vigorosamente quando minha mãe falou isso.
— Pode ser que eu olhe — disse o sr. Burkett. Ele falou de uma forma meio vaga. — Agora, estou muito cansado e chateado.
— Olha o armário do quarto quando for lá — disse minha mãe. — Vou olhar o do corredor agora. Vai ser bom me alongar um pouco depois desse porco agridoce.
— Ela pensou nisso sozinha? Eu não sabia que ela era inteligente assim — comentou a sra. Burkett. Ela já estava ficando difícil de ouvir. Depois de um tempo, eu não conseguiria ouvir mais, só ver a boca se movendo, como se ela estivesse atrás de uma vidraça grossa. E, pouco depois disso, ela sumiria.
— Minha mãe é bem inteligente — falei.
— Nunca falei que não era — disse o sr. Burkett —, mas, se ela encontrar os anéis no armário do corredor de entrada, como meu chapéu.
Nesse momento, minha mãe falou:
— Bingo!
E apareceu com os anéis na palma da mão esticada. A aliança de casamento era bem comum, mas o anel de noivado era grande como um olho. Um baita diamante.
— Ah, meu Deus! — exclamou o sr. Burkett. — Como é possível…?
— Eu rezei pra São Longuinho — disse minha mãe, mas lançou um olhar rápido na minha direção. — “São Longuinho, São Longuinho, se eu encontrar os anéis dou três pulinhos!” Como você pode ver, deu certo.
Pensei em perguntar ao sr. Burkett se ele queria temperar o chapéu com sal e pimenta, mas não falei nada. Não era a hora certa para ser engraçadinho. Além do mais, é como minha mãe sempre diz: ninguém gosta de um espertinho.