Depois

Stephen King · Capítulo 35 de 72

Páginas do PDF

Depois

Capítulo 34

No fim de junho, minha mãe e eu fizemos nossa visita mensal ao tio Harry. Ele quase não falava mais e quase nunca ia para o salão comunitário. Apesar de não ter nem cinquenta anos, o cabelo estava branco como neve.

— Jamie trouxe rugelach do Zabar, Harry. Quer? — disse minha mãe.

Mostrei a sacola de onde eu estava, parado na porta (eu não queria entrar), sorrindo e me sentindo uma das modelos do programa The Price is Right.

O tio Harry disse yig.

— Isso quer dizer sim? — perguntou minha mãe.

O tio Harry disse ng e balançou as duas mãos para mim. E não era preciso ser telepata para entender que queria dizer não quero porra de doce nenhum.

— Quer dar uma volta? O dia está lindo.

Eu não sabia se o tio Harry ainda sabia o que era dar uma volta.

— Eu te ajudo — disse a minha mãe e segurou o braço dele.

— Não! — disse o tio Harry. Não ng, não yig, não ug, não. Claro como água. Os olhos dele estavam maiores e começando a lacrimejar. Em seguida, com clareza perfeita: — Quem é esse?

— É o Jamie. Você conhece o Jamie, Harry.

Só que ele não me conhecia, não mais, e não era para mim que ele estava olhando. Ele estava olhando por cima do meu ombro. Eu não precisava me virar para saber quem eu veria ali, mas me virei mesmo assim.

— O que ele tem é hereditário — disse Therriault — e segue a parte masculina da família. Você vai ficar igual a ele, campeão. Antes mesmo de perceber você vai estar igual a ele.

— Jamie? — perguntou minha mãe. — Está tudo bem?

— Tudo — falei, olhando para Therriault. — Está tudo ótimo.

Mas não estava, e o sorriso de Therriault me disse que ele sabia disso.

— Vai embora! — disse o tio Harry. — Vai embora, vai embora, vai embora!

Nós fomos.

Nós três.