Depois

Stephen King · Capítulo 45 de 72

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Depois

Capítulo 44

Voltei para casa por volta de duas e quinze, um pouco atrasado, mas não a ponto de ouvir “onde você estava, eu fiquei preocupada”. Eu estava com um arranhão enorme em um braço e o joelho da minha calça rasgou quando um dos garotos do ensino médio esbarrou em mim e eu caí com força, mas estava me sentindo ótimo mesmo assim. Valeria não foi, mas duas amigas dela foram. Uma delas disse que a Valeria gostava de mim e a outra disse que eu devia falar com ela, talvez me sentar com ela no almoço.

Meu Deus, as possibilidades!

Eu entrei e vi que alguém (provavelmente o sr. Provenza, zelador do prédio) tinha fechado as caixas de correspondência que tinham se aberto quando Therriault foi embora. Ou, para dizer de forma mais precisa, quando ele fugiu do local. O sr. Provenza também tinha limpado o vidro quebrado e colocado uma placa na frente do elevador dizendo COM DEFEITO. Isso me fez lembrar o dia em que a minha mãe e eu chegamos da escola, eu segurando o peru verde, e encontramos o elevador do Palácio na Park quebrado. Porra de elevador, minha mãe disse na época. Você não ouviu isso, moleque.

Velhos tempos.

Subi de escada, entrei e vi que minha mãe tinha levado a cadeira do escritório para a janela da sala, onde ela estava lendo e tomando café.

— Eu já ia te ligar — disse ela, e, olhando para baixo: — Ah, meu Deus, essa calça jeans era nova!

— Desculpa. Será que você pode remendar?

— Eu tenho muitas habilidades, mas costurar não é uma delas. Vou levar pra sra. Abelson da Tinturaria Dandy. O que você almoçou?

— Um hambúrguer. Com alface e tomate.

— Isso é verdade?

— Eu não consigo mentir — falei, e claro que isso me fez pensar em Therriault, e tremi de leve.

— Me deixa ver seu braço. Vem cá pra eu olhar direito. — Eu fui até lá e mostrei minha cicatriz de batalha. — Não precisa de band-aid, acho, mas você precisa passar Neosporin.

— Posso assistir a ESPN depois de fazer isso?

— Poderia se a gente tivesse energia. Por que você acha que estou lendo na janela e não à minha mesa?

— Ah. Deve ser por isso que o elevador não está funcionando.

— Seus poderes de dedução me espantam, Holmes. — Essa era uma das piadas literárias da minha mãe. Ela tem dezenas. Talvez centenas. — É só no nosso prédio. O sr. Provenza diz que alguma coisa quebrou todos os disjuntores. Algum tipo de sobrecarga. Ele disse que nunca viu nada igual. Vai tentar consertar até de noite, mas acho que vamos precisar de velas e lanternas depois que escurecer.

Therriault, pensei, mas claro que não foi ele. Foi a coisa de luz morta que estava agora ocupando Therriault. Quebrou a lâmpada, abriu algumas das caixas de correspondência e fritou os disjuntores só por garantia na hora de ir embora.

Fui ao banheiro pegar o Neosporin. Estava bem escuro lá dentro e mexi no interruptor. Merda de hábito. Eu me sentei no sofá passando a pomada antibiótica no arranhão, olhando para a televisão apagada e me perguntando quantos disjuntores havia em um prédio do tamanho do nosso e quanta energia era necessária para fritar todos.

Eu poderia assobiar para chamar aquela coisa. E, se fizesse isso, será que ela iria até o rapaz chamado Jamie Conklin? Era muito poder para um garoto que só poderia tirar habilitação três anos depois.

— Mãe.

— O quê?

— Você acha que tenho idade pra ter uma namorada?

— Não, querido. — Sem tirar o olhar do manuscrito.

— Quando vou ter idade?

— Que tal vinte e cinco anos?

Ela começou a rir e eu ri com ela. Talvez, pensei, quando eu tivesse vinte e cinco anos, eu chamasse Therriault para me pegar um copo de água. Mas, pensando melhor, qualquer coisa que ele trouxesse poderia ser veneno. Talvez, só pra rir pra caralho, eu pedisse que ele plantasse bananeira, fizesse um espacate, talvez andasse no teto. Ou eu poderia deixar aquela coisa pra lá. Mandar tomar chá de sumiço. Claro que eu não precisava esperar até ter vinte e cinco anos. Eu poderia fazer isso a qualquer momento. Só que não queria. Ela que fosse minha prisioneira por um tempo. Aquela luz maldita e horrenda reduzida a pouco mais do que um vagalume em um pote de vidro. Ela tinha que ver o que era bom.

A eletricidade voltou às dez da noite e tudo ficou direito no mundo.