Depois
Capítulo 16
Agora, olha só isso: eu contei pelo menos alguns dos motivos para eu gostar da Liz, e devia haver alguns outros. Contei os motivos para eu não gostar da Liz, e também devia haver alguns outros. O que só considerei bem depois (é, olha a palavra aí de novo) foi a possibilidade de que ela não gostava de mim. Por que eu pensaria nisso? Eu estava acostumado a ser amado, tinha uma atitude quase blasé quanto a isso. Eu era amado pela minha mãe e pelos meus professores, principalmente pela profa. Wilcox, a do terceiro ano, que me abraçou e disse que sentiria saudade de mim no último dia de aula. Eu era amado pelos meus melhores amigos, Frankie Ryder e Scott Abramowitz (embora, claro, nós não falássemos nem pensássemos a respeito). E não esqueça Lily Rhinehart, que me deu um selinho uma vez. Ela também me deu um cartão da Hallmark antes de eu mudar de escola. Tinha a imagem de um cachorrinho de cara triste na frente e dentro dizia vou sentir sua falta todos os dias em que você estiver longe. Ela assinou com um coraçãozinho em cima do i no nome. E mandou beijos e abraços.
Liz pelo menos gostava de mim, ao menos por um tempo, tenho certeza. Mas isso começou a mudar depois do Chalé dos Paralelepípedos. Foi nessa época que ela começou a me ver como uma aberração da natureza. Eu acho… não, eu sei que foi nessa época que Liz começou a ter medo de mim, e é difícil gostar das coisas de que se tem medo. Talvez seja impossível.
Apesar de achar que nove anos era idade suficiente para eu ir andando para a escola sozinho, Liz às vezes ia me buscar no lugar da minha mãe quando ela tinha que trabalhar no que chamava de “turno quebra-galho”, que começava às quatro da manhã e terminava ao meio-dia. Era um turno que os detetives tentavam evitar, mas Liz caía nele com frequência. Essa foi outra coisa que eu nunca questionei, mas depois (olha aí de novo, tá, tá, tá) percebi que os chefes não gostavam muito dela. Nem confiavam. Não tinha a ver com o relacionamento que ela tinha com a minha mãe; quando o assunto era sexo, a polícia de Nova York estava chegando lentamente no século XXI. Também não era a bebida, porque ela não era a única policial que gostava de encher a cara. Mas certas pessoas com quem ela trabalhava tinham começado a desconfiar de que Liz fosse uma policial corrupta. E — alerta de spoiler! — eles estavam certos.