Depois

Stephen King · Capítulo 22 de 72

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Depois

Capítulo 21

O cara que se chamava Thumper colocou sua primeira bomba em Eastport, uma cidade de Long Island não muito longe de Speonk, lar da Cabana do Tio Harry (piada literária). Isso foi em 1996. Thumper jogou uma banana de dinamite com um timer preso nela em uma lata de lixo em frente aos banheiros do supermercado King Kullen. O timer não passava de um despertador barato, mas funcionou. A dinamite explodiu às nove da noite, na hora que o supermercado estava fechando. Três pessoas se machucaram, todas funcionárias da loja. Duas só sofreram ferimentos superficiais, mas o terceiro cara estava saindo do banheiro masculino quando a bomba explodiu. Ele perdeu um olho e o braço direito até o cotovelo. Dois dias depois, chegou um bilhete na Delegacia de Polícia do Condado de Suffolk. Foi datilografado em uma IBM Selectric. Dizia: Gostaram do meu trabalho até agora? Vem mais por aí! THUMPER.

Thumper colocou dezenove bombas antes de conseguir matar uma pessoa.

— Dezenove! — exclamou Liz. — E ele bem que estava tentando. Ele as colocou nos cinco distritos e duas em Nova Jersey, em Jersey City e Fort Lee, por garantia. Sempre dinamite, e de fabricação canadense.

Mas o placar de feridos era alto. Estava perto de cinquenta quando ele finalmente matou o homem que pegou o telefone público errado na avenida Lexington. Cada cabum era seguido de um bilhete para a polícia responsável pela área onde o dito cabum aconteceu, e os bilhetes eram sempre iguais: Gostaram do meu trabalho até agora? Vem mais por aí! THUMPER.

Antes de Richard Scalise (o nome do homem do telefone público), um longo período se passava entre cada explosão. As duas mais próximas tiveram seis semanas de intervalo. O maior de todos foi perto de um ano. Mas, depois de Scalise, Thumper acelerou. As bombas ficaram maiores e os timers, mais sofisticados. Dezenove explosões entre 1996 e 2009… vinte, contando a do telefone público. Entre 2010 e o belo dia de maio de 2013 em que Liz voltou para a minha vida, ele explodiu mais dez, ferindo vinte e matando três. Àquela altura, Thumper não era só uma lenda urbana nem só o assunto principal do NY1; ele estava famoso no país todo.

Ele era bom em evitar câmeras de segurança, e as que não dava para evitar só mostravam um cara de casaco, óculos escuros e um boné dos Yankees bem enfiado na cabeça. Ele mantinha a cabeça baixa. Tinha um pouco de cabelo branco aparecendo nas laterais e na parte de trás do boné, mas podia ser de uma peruca. Ao longo dos dezessete anos do seu “reinado de terror”, três forças-tarefa diferentes foram organizadas para pegá-lo. A primeira foi desfeita durante um intervalo longo no “reinado”, quando a polícia supôs que ele tinha terminado. A segunda acabou depois de uma grande reorganização na polícia. A terceira começou em 2011, quando ficou claro que Thumper estava em velocidade máxima. Liz não me contou isso tudo a caminho do Central Park; eu descobri depois, assim como várias outras coisas.

Finalmente, dois dias antes, fizeram a descoberta que estavam esperando sobre o caso. O Filho de Sam foi pego por causa de uma multa de estacionamento irregular. Ted Bundy foi pego porque esqueceu de acender os faróis. Thumper, cujo verdadeiro nome era Kenneth Alan Therriault, foi pego porque um zelador de prédio teve um pequeno acidente no dia de coleta de lixo. Ele estava empurrando um carrinho cheio de latas de lixo por uma viela até o ponto de coleta na esquina. Ele passou em um buraco e uma das latas de lixo virou. Quando foi limpar a sujeira, ele encontrou um emaranhado de fios e um pedaço de papel amarelo com a palavra CANACO impressa. Talvez ele não tivesse chamado a polícia se isso fosse tudo, mas não era. Preso a um dos fios havia um detonador Dyno Nobel.

Nós chegamos ao Central Park e paramos junto a alguns carros comuns de polícia (outra coisa que descobri depois é que o Central Park tem distrito próprio, o 22o). Liz botou a plaquinha de policial no painel e seguimos pela 86th Street por um tempo antes de entrarmos em um caminho que levava ao monumento a Alexander Hamilton. Isso eu não descobri depois; eu só li a porra do letreiro. Ou placa. Tanto faz.

— O zelador tirou uma foto dos fios, do pedaço de papel e do detonador com o celular, mas a força-tarefa só recebeu no dia seguinte.

— Ontem.

— Certo. Assim que vimos, soubemos que era nosso cara.

— Claro, por causa do detonador.

— É, mas não só isso. Sabe o pedaço de papel? Canaco é uma empresa canadense que fabrica dinamite. Nós pegamos uma lista de todos os moradores do prédio e eliminamos a maioria sem nenhum trabalho de campo, porque nós sabíamos que estávamos procurando um homem, provavelmente solteiro, provavelmente branco. Só havia seis moradores que preenchiam todos esses requisitos, e só um cara que já tinha trabalhado no Canadá.

— Vocês procuraram no Google, né? — Eu estava ficando interessado.

— Isso mesmo. Dentre outra coisas, descobrimos que Kenneth Therriault tem dupla cidadania, americana e canadense. Ele teve vários tipos de emprego em construção lá no norte gelado, além de ter trabalhado em locais de fraturamento hidráulico e de xisto betuminoso. Ele era o Thumper, tinha que ser.

Dei só uma olhada rápida em Alexander Hamilton, o suficiente para ler a placa e reparar na calça engraçada. Liz estava me segurando pela mão, me levando para um caminho um pouco depois da estátua. Estava me puxando, na verdade.

— Nós entramos com uma equipe da SWAT, mas o apartamento estava vazio. Bom, não vazio vazio, as coisas dele estavam lá, mas ele não. O zelador não guardou sua grande descoberta para si, infelizmente, apesar de ter recebido instruções pra isso. Ele falou com alguns moradores e a notícia se espalhou. Uma das coisas que encontramos no apartamento dele foi uma IBM Selectric.

— É uma máquina de escrever?

Ela assentiu.

— Essas belezinhas vinham com tipos diferentes pra fontes diferentes. A da máquina batia com os bilhetes do Thumper.

Antes de chegarmos no caminho e no banco que não estava lá, preciso contar outras coisas que descobri depois. Ela estava contando a verdade quando disse que Therriault acabou fazendo merda, mas ficava dizendo nós. Nós isso e nós aquilo, mas Liz não estava na força-tarefa do Thumper. Ela tinha sido parte da segunda, a que terminou com a reorganização do departamento quando todos estavam correndo de um lado para outro como galinhas sem cabeça, mas em 2013 a única coisa que Liz ainda tinha na polícia de Nova York era um dedinho, e só porque os policiais têm um sindicato foda. O resto dela já estava quase no olho da rua. A Divisão de Assuntos Internos estava rodeando como um bando de abutres em volta de carniça, e no dia em que ela me buscou na escola ela não seria colocada nem em uma força-tarefa dedicada a pegar gente que joga lixo no chão. Ela precisava de um milagre e eu deveria ser esse milagre.

— Hoje todos os policiais dos distritos já estavam com o nome e a descrição de Kenneth Therriault. Todas as saídas da cidade estavam sendo monitoradas por olhos humanos e por câmeras… e, como sei que você sabe, são muitas câmeras. Pegar esse cara morto ou vivo virou nossa maior prioridade, porque estávamos com medo de que ele decidisse acabar com tudo em algum tipo de explosão gloriosa. Talvez com uma bomba na frente da Saks da Quinta Avenida ou na estação Grand Central. Só que ele nos fez um favor.

Ela parou e apontou para um lugar na lateral do caminho. Reparei que a grama estava amassada, como se muita gente tivesse ficado parada ali.

— Ele veio para o parque, se sentou em um banco e estourou o cérebro com uma Ruger calibre quarenta e cinco.

Olhei para o local, impressionado.

— O banco está no laboratório forense da polícia de Nova York em Jamaica, mas foi aqui que ele se matou. E a grande pergunta é a seguinte: Você o vê? Ele está aqui?

Olhei ao redor. Eu não tinha ideia de como Kenneth Alan Therriault era, mas, se ele tinha estourado os miolos, eu não achava que ele passaria despercebido. Vi alguns garotos jogando um frisbee para o cachorro pegar (o cachorro estava sem coleira, o que não era permitido no Central Park), vi duas mulheres correndo, dois skatistas e dois caras idosos lendo jornal mais para a frente, mas não vi ninguém com um buraco na cabeça e falei isso para ela.

— Porra — disse Liz. — Bom, tudo bem. Nós temos mais duas chances, pelo menos na minha opinião. Ele trabalhou no hospital City of Angels, na 70th Street, uma mudança radical da época que trabalhou com construção, mas ele já estava na casa dos setenta anos. Tem também o prédio onde ele mora, que fica no Queens. O que você acha, campeão?

— Acho que quero ir pra casa. Ele pode estar em qualquer lugar.

— É mesmo? Você não disse que eles ficam em lugares onde passaram um tempo quando estavam vivos? Antes de, sei lá, se apagarem de vez?

Eu não conseguia lembrar se tinha dito isso pra ela exatamente, mas era verdade. Mesmo assim, eu estava me sentindo cada vez mais como Ramona Sheinberg. Sequestrado, em outras palavras.

— Pra quê? Ele está morto, né? Caso encerrado.

— Não exatamente. — Ela se inclinou para me encarar. Não precisou se inclinar muito em 2013, porque eu estava ficando mais alto. Nem perto do 1,82 metro que tenho agora, mas alguns centímetros. — Tinha um bilhete preso na jaqueta dele. Dizia: Tem mais uma, e das grandes. Fodam-se, vejo vocês no inferno. Estava assinado thumper.

Bom, isso mudava as coisas de perspectiva.