Depois

Stephen King · Capítulo 25 de 72

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Depois

Capítulo 24

Não sei dizer se ele estava tão ruim quanto o cara do Central Park, aquilo tinha sido muito tempo antes. Talvez ele estivesse pior. Depois que você vê o que pode acontecer com um corpo humano que sofreu um ato de violência — um acidente, um suicídio, um assassinato — talvez não importe mais. Kenneth Therriault, também conhecido como Thumper, estava péssimo, o.k.? Péssimo de verdade.

Havia bancos dos dois lados do mercado, para as pessoas poderem comer as coisas que compravam lá dentro, acho. Therriault estava sentado em um deles com as mãos nas coxas da calça cáqui. As pessoas estavam passando, indo para seus destinos. Um garoto negro com um skate embaixo do braço entrou no mercado. Uma mulher saiu com um copo de papel cheio de café soltando fumaça. Nenhum dos dois olhou para o banco onde Therriault estava sentado.

Ele devia ser destro, porque aquele lado da cabeça dele não estava tão ruim. Havia um buraco na têmpora do tamanho de uma moeda de dez centavos, talvez um pouco menor, cercado de uma coroa preta que era um hematoma ou pólvora. Provavelmente pólvora. Duvido que o corpo dele tenha tido tempo de acumular sangue no local para formar um hematoma.

O verdadeiro dano estava do lado esquerdo, por onde a bala tinha saído. O buraco daquele lado era quase do tamanho de um prato de sobremesa e estava cercado de pontas irregulares de osso. A carne da cabeça estava inchada, como se ele tivesse uma infecção gigante. O olho esquerdo tinha sido empurrado para o lado e saltava da órbita. O pior de tudo era que tinha uma coisa cinza escorrendo pela bochecha. Era o cérebro dele.

— Não para — falei. — Segue em frente. — O cheiro de vômito estava forte no meu nariz e o gosto ainda estava na minha boca, grudento. — Por favor, Liz, eu não consigo.

Ela parou em frente a um hidrante perto do fim do quarteirão.

— Você precisa fazer isso. E eu também preciso. Desculpa, campeão, mas nós temos que saber. Segura a onda aí pras pessoas não olharem pra nós e acharem que estou abusando de você.

Mas está, pensei. E você não vai parar enquanto não conseguir o que quer.

O gosto na minha boca era do ravióli que eu tinha comido no refeitório da escola. Assim que percebi isso, abri a porta, me inclinei e vomitei mais um pouco. Como no dia do homem do Central Park, quando não cheguei a ir à festa da Lily no chiquérrimo Wave-Hill. Aquele era um déjà-vu de que eu não precisava.

— Campeão? Campeão?

Eu me virei para ela, e ela estava me oferecendo um bolinho de Kleenex (me mostra uma mulher sem lenço de papel na bolsa e eu te mostro que isso não existe).

— Limpa a boca e sai do carro. Tenta parecer normal. Vamos fazer logo isso.

Eu entendi o que ela queria dizer: nós não íamos embora enquanto ela não tivesse o que queria. Seja homem, pensei. Eu consigo fazer isso. Tenho que fazer, porque tem vidas em jogo.

Eu limpei a boca e saí do carro. Liz botou o papelzinho no painel, a versão policial da carta “Saída livre da prisão”, e foi até onde eu estava na calçada, olhando dentro de uma lavanderia automática, onde uma mulher estava dobrando roupas. Não era uma visão interessante, mas pelo menos me impediu de olhar para o homem dilacerado na rua. Ao menos por aquele momento. Em pouco tempo, eu teria que fazer isso. Pior ainda, ah, Deus. Eu teria que falar com ele. Isso se ele conseguisse falar.

Eu estiquei a mão sem pensar. Treze anos provavelmente era velho demais para andar de mãos dadas com uma mulher que as pessoas suporiam que era minha mãe (se parassem para pensar sobre nós), mas, quando ela segurou a minha mão, fiquei aliviado. Aliviado pra caramba.

Nós fomos na direção da loja. Eu queria que tivéssemos quilômetros pra andar, mas era só meio quarteirão.

— Onde ele está exatamente? — ela perguntou em voz baixa.

Arrisquei um olhar para ter certeza de que ele não tinha se movido. Não, ele ainda estava no banco, e agora eu podia olhar diretamente para a cratera que já tinha sido o lar dos pensamentos dele. A orelha ainda estava no lugar, mas estava torta, e me lembrei de repente do Senhor Cabeça de Batata que eu tinha aos quatro ou cinco anos. Meu estômago se contraiu de novo.

— Segura a onda, campeão.

— Não me chama mais disso — consegui dizer. — Eu odeio.

— Registrado. Onde ele está?

— Sentado no banco.

— Deste lado da porta ou…

— Deste lado, sim.

Eu estava olhando para ele de novo, estávamos tão perto agora que não dava para não olhar, e vi uma coisa interessante. Um homem saiu do mercado com um jornal debaixo do braço e um cachorro-quente na mão. O cachorro-quente estava em um daqueles sacos de papel-alumínio que servem para que fiquem quentes (quem acredita nisso também acredita que a lua é feita de queijo). Ele ia se sentar no outro banco, já estava tirando o cachorro-quente do saco. Mas parou, olhou para mim e para Liz ou para o outro banco e seguiu pelo quarteirão para comer em outro lugar. Ele não viu Therriault; teria corrido se tivesse visto, provavelmente gritando. Mas acho que ele sentiu. Não, eu não só acho, eu sei. Eu queria ter prestado mais atenção na ocasião, mas eu estava chateado, como sei que você vai entender. Se não entender, você é idiota.

Therriault virou a cabeça. Foi um alívio porque o movimento escondeu boa parte do ferimento de saída da bala. Não foi um alívio porque o rosto dele estava normal de um lado e todo inchado e deformado do outro, como aquele Duas-Caras dos quadrinhos do Batman. O pior de tudo foi que ele olhou para mim.

Eu os vejo e eles sabem que eu os vejo. Sempre foi assim.

— Pergunta onde está a bomba — disse Liz. Ela estava falando com o canto da boca, como um espião de filme de comédia.

Uma mulher com um bebê em um canguru surgiu na calçada. Ela me olhou com desconfiança, talvez porque eu parecesse estranho ou porque estava com cheiro de vômito. Talvez as duas coisas. Eu já tinha passado do ponto de me importar. Só queria fazer o que Liz Dutton me levou lá para fazer e pular fora. Esperei até a mulher com o bebê entrar na loja.

— Onde está a bomba, sr. Therriault? A última bomba?

Ele não respondeu de primeira e eu estava pensando Beleza, ele estourou os miolos, está aqui, mas não consegue falar e fim. Mas aí ele falou. As palavras não combinaram exatamente com os movimentos da boca e me ocorreu que ele estava falando de outro lugar. Era como se fosse um delay de tempo direto do inferno. Isso me deixou cagando de medo. Se eu soubesse que foi nessa hora que uma coisa horrível surgiu nele e tomou o controle, teria sido bem pior. Mas eu sei? Tenho certeza? Não, mas quase.

— Não quero te contar.

Isso me deixou tão surpreso que fiquei sem palavras. Eu nunca tinha recebido uma resposta assim de uma pessoa morta. Era verdade que minha experiência era limitada, mas, até aquele momento, eu teria dito que eles tinham que falar a verdade sempre.

— O que ele disse? — perguntou Liz. Ainda falando com o canto da boca.

Eu a ignorei e falei com Therriault de novo. Como não tinha ninguém por perto, eu falei mais alto, enunciando cada palavra da forma como fazia para uma pessoa surda ou que entendia só um inglês muito básico. — Onde… está… a última… bomba?

Eu também teria dito que os mortos não sentem dor, que já passaram disso, e Therriault não parecia estar sofrendo do ferimento cataclísmico autoinfligido na cabeça, mas agora o rosto meio inchado se contorceu, como se eu o estivesse queimando ou enfiando uma faca na barriga em vez de só fazendo uma pergunta.

— Eu não quero contar!

— O que ele… — Liz começou a falar de novo, mas a mulher com o bebê saiu nessa hora. Ela estava segurando um bilhete da loteria. O bebê no canguru estava com um pedaço de KitKat sujando o rosto todo. Mas ele olhou para o banco onde Therriault estava sentado e começou a chorar. A mãe devia achar que o filho tinha olhado para mim porque me olhou de novo com uma megadesconfiança e saiu andando mais rápido.

— Campeão… quer dizer, Jamie…

— Cala a boca — falei. E, em seguida, porque minha mãe me odiaria por falar com qualquer adulto assim: — Por favor.

Olhei de novo para Therriault. A careta de dor dele fez o rosto destruído ficar mais destruído do que nunca, e na mesma hora decidi que não me importava. Ele tinha ferido tanta gente que dava para encher uma ala de hospital, tinha matado gente, e se o bilhete que ele tinha prendido no casaco não era mentira, tinha morrido tentando matar ainda mais. Concluí que eu queria que ele estivesse sofrendo.

— Onde… está… seu… filho da puta?

Ele fechou as mãos na frente da barriga, inclinado como se estivesse com cólica intestinal, e gemeu. Mas cedeu.

— No King Kullen. No supermercado King Kullen de Eastport.

— Por quê?

— Pareceu certo terminar onde eu tinha começado — disse ele, e desenhou um círculo no ar com o dedo. — Pra completar o círculo.

— Não, por que você fez isso? Por que botou as bombas?

Ele sorriu, e sabe o jeito como o sorriso contraiu o lado inchado da cara dele? Eu ainda vejo e nunca vou conseguir desver.

— Porque sim.

— Porque sim o quê?

— Porque eu tive vontade — disse ele.