Depois

Stephen King · Capítulo 64 de 72

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Depois

Capítulo 63

Ele parecia um tronco queimado com fogo ainda dentro. Não sei dizer de outra forma. Ele tinha ficado preto, mas a pele estava rachada em vários lugares e aquela luz morta brilhante brilhava pelas rachaduras. Estava saindo pelo nariz, pelos olhos, até pelas orelhas. Quando ele abriu a boca, saiu por lá também.

Ele sorriu e levantou os braços.

— Vamos tentar o ritual de novo e ver quem ganha desta vez. Acho que você me deve isso, já que te salvei dela.

Ele desceu a escada correndo na minha direção, pronto para a grande cena de reencontro. Os instintos me mandavam me virar e sair correndo, mas algo mais profundo me disse para me manter firme por mais que eu quisesse fugir daquele horror. Se eu fugisse, ele me agarraria por trás, passaria os braços queimados em volta de mim e esse seria o fim. A coisa venceria e eu me tornaria escravo dele, obrigado a ir quando ela chamasse. Aquela criatura me possuiria vivo como tinha possuído Therriault morto, o que seria pior.

— Para — falei, e a casca preta que era Therriault parou no pé da escada. Aqueles braços esticados estavam a menos de trinta centímetros de mim.

— Vai embora. Minha história com você acabou. Pra sempre.

— Sua história comigo nunca vai acabar. — E ele disse mais uma palavra, que fez minha pele ficar com carocinhos de arrepio e o cabelo da minha nuca ficar em pé. — Campeão.

— Espera pra ver — falei. Palavras corajosas, mas não consegui afastar o tremor da minha voz.

Os braços ainda estavam esticados, as mãos pretas com as rachaduras brilhantes a centímetros do meu pescoço.

— Se você quiser mesmo se livrar de mim de vez, segura. Vamos fazer o ritual de novo, e vai ser mais justo, porque desta vez estou pronto pra você.

Fiquei estranhamente tentado, não me pergunte por quê, mas uma parte de mim que ia além do ego e mais profunda que os instintos prevaleceu. É possível vencer o diabo uma vez (por providência, coragem, pura sorte ou uma combinação disso tudo), mas não duas vezes. Acho que ninguém além dos santos vencem o diabo duas vezes, e talvez nem eles.

— Vai. — Foi minha vez de apontar como o último fantasma do Scrooge. Eu apontei para a porta.

A coisa repuxou o lábio queimado e preto de Therriault em uma expressão de desprezo.

— Você não pode me mandar embora, Jamie. Você não entendeu ainda? Estamos unidos. Você não pensou nas consequências. Mas aqui estamos.

Eu repeti minha única palavra. Foi a única coisa que consegui fazer passar por uma garganta que de repente pareceu ter a largura de um alfinete.

O corpo de Therriault pareceu pronto para acabar com a distância entre nós, para pular em mim e me envolver em seu horrível abraço, mas ele não fez isso. Talvez não pudesse.

Liz se encolheu para longe quando passou por ela. Eu esperei que fosse passar direto pela porta, da mesma forma que eu atravessei Marsden, mas, o que quer que aquela coisa fosse, não era um fantasma. A mão segurou a maçaneta e girou, com mais pele se abrindo e mais luz brilhando pelas rachaduras. A porta se abriu.

A coisa se virou para mim.

— Ah, assobie e eu virei a você, meu rapaz.

E foi embora.