Depois
Capítulo 54
Foi duas ou três semanas depois disso que Liz me sequestrou. Você pode dizer que ela fez isso na primeira vez, com Therriault, mas aquilo também pode ser visto como um “sequestro relâmpago”. Dessa outra vez, foi pra valer. Ela não me empurrou para dentro do carro esperneando e gritando, mas me forçou mesmo assim. O que torna o que aconteceu sequestro, na minha opinião.
Eu era do time de tênis, voltando para casa depois de várias partidas de treino (que nosso treinador chamava de “aquecimento” por algum motivo idiota). Estava com a mochila nas costas e a bolsa de tênis na mão. Estava indo para o ponto de ônibus e vi uma mulher encostada em um Toyota surrado, olhando o celular. Passei direto sem nem olhar duas vezes. Nem passou pela minha cabeça que aquela mulher magrela, com o cabelo louro cor de palha voando em volta da gola de um casacão, com um suéter cinza enorme, botas de caubói surradas que desapareciam nas pernas de uma calça jeans larga, era a antiga amiga da minha mãe. A antiga amiga da minha mãe gostava de calças de boca larga de cores escuras e blusas de seda decotadas. A antiga amiga da minha mãe usava o cabelo preso em um rabo de cavalo curto. A antiga amiga da minha mãe parecia saudável.
— Ei, campeão. Uma velha amiga não merece nem um oi?
Eu parei e me virei. Por um momento, continuei sem reconhecê-la. O rosto dela estava ossudo e pálido. Havia manchas não disfarçadas por maquiagem na testa dela. Todas as curvas que admirei (de um jeito infantil, tenho que dizer) tinham sumido. O suéter largo embaixo do casaco mostrava só um rastro do que antes eram seios generosos. Meu palpite era que ela estava vinte ou vinte e cinco quilos mais magra e parecendo vinte anos mais velha.
— Liz?
— Eu mesma. — Ela abriu um sorriso para mim e o escondeu limpando o nariz com a base da mão. Chapada, eu pensei. Ela está chapada.
— Como você está?
Talvez não tenha sido a pergunta mais inteligente, mas a única em que consegui pensar considerando as circunstâncias. E tomei o cuidado de manter uma distância que considerei segura dela, para poder correr se ela tentasse alguma coisa estranha. E parecia uma possibilidade, porque ela estava estranha. Não como os atores fingindo serem viciados em drogas na televisão, mas como os verdadeiros que a gente vê de tempos em tempos, cochilando em bancos de parques ou nas entradas de prédios abandonados. Acho que Nova York está bem melhor do que era, mas os drogados ainda são parte ocasional do cenário.
— Como eu pareço estar? — Ela riu, mas não de um jeito alegre. — Nem responde. Mas, ei, nós fizemos um carnaval naquela época, hein? Eu mereço mais crédito por aquilo do que ganhei, mas e daí, a gente salvou várias vidas.
Pensei em tudo pelo que eu passei por causa dela. Nem foi só por causa de Therriault. Ela fodeu a vida da minha mãe. Liz Dutton fez nós dois passarmos momentos horríveis, e ali estava ela de novo. Uma maçã podre, aparecendo quando a gente menos espera. Fiquei com raiva.
— Você não mereceu nenhum crédito. Fui eu que fiz ele falar. E paguei um preço por isso. Você nem vai querer saber.
Ela inclinou a cabeça.
— Claro que quero. Me conta sobre o preço que você pagou, campeão. Uns pesadelos com o buraco na cabeça dele? Se você quer saber de pesadelos, dá uma olhada em três criaturas torradas em um carro queimado, sendo uma delas uma criança em uma cadeirinha de carro. Qual foi o preço que você pagou?
— Esquece — falei, e saí andando.
Ela esticou a mão e segurou a alça da minha bolsa de tênis.
— Não tão rápido. Preciso de você de novo, campeão, então se prepara.
— De jeito nenhum. E solta minha bolsa.
Ela não soltou e eu puxei. Ela caiu de joelhos, soltando um gritinho e deixando a alça escapar.
Um homem que estava passando parou e me olhou do jeito que os adultos olham para os adolescentes quando os veem fazendo uma coisa ruim.
— Não se faz isso com uma mulher, garoto.
— Vai se foder — disse Liz para ele, se levantando. — Sou da polícia.
— O.k, o.k. — disse o homem, e saiu andando. Ele não olhou para trás.
— Você não é mais da polícia. E eu não vou a lugar nenhum com você. Não quero nem falar com você, então me deixa em paz.
Eu ainda estava me sentindo meio mal por ter puxado com tanta força que ela caiu de joelhos. Eu me lembrava dela de joelhos no nosso apartamento, mas porque estava brincando de carrinho Matchbox comigo. Tentei dizer para mim mesmo que aquilo havia sido em outra vida, mas não deu certo porque não foi em outra vida. Foi na minha vida.
— Ah, mas você vem. Se não quiser que o mundo todo saiba quem realmente escreveu o último livro do Regis Thomas, claro. O maior best-seller que arrancou a Thia da falência bem a tempo? O best-seller póstumo?
— Você não faria isso. — E, quando o choque do que ela disse diminuiu um pouco: — Você não pode fazer isso. Seria a sua palavra contra a da minha mãe. A palavra de uma traficante de drogas. Além de drogada, pelo que parece, e quem acreditaria em você? Ninguém!
Ela tinha guardado o celular no bolso. Agora, ela o pegou.
— Thia não foi a única gravando naquele dia. Escuta isso.
O que ouvi deu um nó no meu estômago. Era a minha voz, bem mais jovem, mas ainda minha, dizendo para a minha mãe que Purity encontraria a chave que estava procurando debaixo de um toco podre de árvore no caminho para o lago Roanoke.
Minha mãe: “Como ela vai saber que toco?”.
Uma pausa.
Eu: “Martin Betancourt fez uma cruz com giz nele”.
Minha mãe: “O que ela faz com a chave?”.
Uma pausa.
Eu: “Leva pra Hannah Royden. Elas vão juntas ao pântano e encontram a caverna”.
Minha mãe: “Hannah faz a Fogueira da Busca? A mesma coisa que quase fez ela ser enforcada como bruxa?”.
Uma pausa.
Eu: “Isso mesmo. E ele diz que George Threadgill vai atrás delas. E ele diz que olhar pra Hannah deixa George intumescido. O que é isso, mãe?”.
Minha mãe: “Não imp…”.
Liz parou a gravação aí.
— Eu gravei bem mais. Não tudo, mas pelo menos uma hora. Não tenha dúvida, campeão: isso é você dizendo pra sua mãe o enredo do livro que ela escreveu. E você seria uma parte maior da história. James Conklin, o garoto médium.
Fiquei olhando para ela e meus ombros murcharam.
— Por que você não me mostrou isso antes? Quando a gente foi procurar o Therriault?
Ela olhou para mim como se eu fosse burro. Provavelmente porque eu era.
— Eu não precisei. Naquela época, você era um garoto fofo que queria fazer a coisa certa. Agora, você tem quinze anos, tem idade pra ser um pentelho. E isso pode até ser direito seu como adolescente, acho, mas essa é uma discussão que vai ter que ficar pra outro dia. Agora, a pergunta é a seguinte: você vai entrar no carro pra dar uma volta comigo ou vou procurar o repórter que conheço no Post pra dar pra ele um furo incrível sobre a agente literária que falsificou o último livro do cliente morto com a ajuda do filho que tem percepção extrassensorial?
— Dar uma volta até onde?
— Vai ser um passeio surpresa, campeão. Entra e descobre.
Eu não vi escolha.
— Tudo bem, mas só uma coisa. Para de me chamar de campeão, como se eu fosse seu cavalinho de estimação.
— Tudo bem, campeão. — Ela sorriu. — Brincadeira, é só brincadeira. Entra, Jamie.
Eu entrei.