Depois
Capítulo 37
O prof. Burkett era tão das antigas que não tinha saquinhos de chá, só folhas soltas em uma latinha. Enquanto eu esperava que a água da chaleira fervesse, ele me mostrou onde encontrar o que chamou de “infusor” e me ensinou quanto de chá colocar dentro. Preparar chá era um processo interessante. Eu sempre vou preferir café, mas às vezes um bule de chá é a melhor coisa. Preparar chá parece uma coisa formal, de certa forma.
O prof. Burkett me contou que o chá tinha que ficar cinco minutos em infusão em água recém-fervida, nem mais nem menos. Ele botou um cronômetro, mostrou onde estavam as xícaras e foi para a sala. Ouvi o suspiro de alívio quando ele se sentou na poltrona favorita. Também ouvi um peido. Não um sopro de trompete, estava mais para um de oboé.
Fiz duas xícaras de chá e coloquei em uma bandeja junto de um açucareiro e o leite semidesnatado do refrigerador (que nenhum de nós dois usou, o que deve ter sido uma coisa boa, porque já tinha vencido um mês antes). O prof. Burkett tomou o dele puro e estalou os lábios depois do primeiro gole.
— Parabéns, Jamie. Perfeito na sua primeira tentativa.
— Obrigado. — Carreguei no açúcar do meu. A minha mãe teria gritado na terceira colherada, mas o prof. Burkett não deu um pio.
— Agora, conte sua história. Tempo não me falta.
— Você acredita em mim? Sobre os anéis?
— Bem, eu acredito que você acredita. E sei que os anéis foram encontrados. Os dois estão no meu cofre do banco. Me diga uma coisa, Jamie: se eu perguntasse pra sua mãe, ela confirmaria sua história?
— Confirmaria, mas, por favor, não faça isso. Eu decidi falar com você porque não quero falar com ela. Ela ia ficar nervosa.
Ele tomou seu chá com uma mão ligeiramente trêmula, botou a xícara na mesa e olhou para mim. Ou talvez para dentro de mim. Ainda vejo aqueles olhos azuis brilhantes me observando por baixo das sobrancelhas peludas espetadas para todo lado.
— Então fale comigo. Convença-me.
Como ensaiei minha história na caminhada, consegui contar tudo em uma narrativa bem direta. Comecei com Robert Harrison (você lembra, o cara do Central Park) e falei sobre ver a sra. Burkett e os outros. Demorei um bom tempo. Quando terminei, meu chá estava morno (talvez até quase frio), mas tomei um gole grande mesmo assim porque minha garganta estava seca.
O prof. Burkett refletiu e falou:
— Pode ir até o meu quarto, Jamie, pegar meu iPad? Está na mesa de cabeceira.
O quarto dele tinha um cheiro parecido com o do tio Harry no residencial para idosos, mas junto com um aroma pungente que achei que devia ser da pomada que ele devia estar usando no quadril. Peguei o iPad dele e levei para a sala. Ele não tinha iPhone, só o telefungo fixo que ficava pendurado na parede da cozinha como uma coisa de filme antigo, mas ele amava o tablet. Ele o abriu quando entreguei para ele (a tela inicial era a foto de um casal jovem com trajes de casamento que supus serem ele e a sra. Burkett) e começou a cutucar a tela na mesma hora.
— Você está pesquisando o Therriault?
Ele balançou a cabeça sem erguer o rosto.
— Seu homem do Central Park. Você disse que estava na pré-escola quando o viu?
— Isso mesmo.
— Então deve ter sido em 2003… possivelmente 2004… Ah, aqui está. — Ele leu, curvado sobre o tablet e tirando o cabelo dos olhos algumas vezes (ele tinha muito). Finalmente, ele levantou o olhar e disse: — Você o viu caído morto e também parado ao lado do corpo. Sua mãe também confirmaria isso?
— Ela sabia que eu não estava mentindo porque eu sabia o que o cara estava usando em cima, apesar de essa parte dele estar coberta. Mas eu realmente não quero que…
— Entendido, perfeitamente. Agora, sobre o último livro do Regis Thomas. Não estava escrito…
— Isso, só os primeiros capítulos, acho.
— Mas sua mãe conseguiu obter detalhes suficientes para escrever o resto ela mesma, usando você como médium?
Eu nunca tinha pensado em mim como médium, mas, de certa forma, ele estava certo.
— Acho que sim. Tipo em Invocação do mal. — E, por causa da expressão dele de quem não entendeu: — É um filme. Sr. Burkett… professor… você acha que sou maluco? — Eu quase não me importei, porque o alívio de contar tudo foi enorme.
— Não — disse ele, mas alguma coisa, talvez a minha expressão de alívio, tenha feito com que ele levantasse um dedo de aviso. — Isso não quer dizer que acredito na sua história, ao menos não sem corroboração da sua mãe, que concordei em não pedir. Mas vou dizer o seguinte: eu não necessariamente desacredito. Principalmente por causa dos anéis, mas também porque aquele último livro do Thomas realmente existe. Não que eu tenha lido. — Ele fez uma careta ao dizer isso. — Você diz que a amiga da sua mãe, ex-amiga, também poderia corroborar a última e mais colorida parte da sua história.
— Sim, mas…
Ele levantou a mão, como devia ter feito mil vezes para os alunos que não paravam de falar em uma aula.
— Você também não quer que eu fale com ela e entendo isso. Eu só a vi uma vez e nem gostei muito dela. Ela realmente levou drogas pra dentro da sua casa?
— Eu não vi, mas, se a minha mãe disse que levou, ela levou.
Ele botou o tablet de lado e mexeu em sua bengala favorita, que tinha um punho branco grande no alto.
— Então Thia fez bem de se livrar dela. E esse Therriault, que você diz que te assombra. Ele está aqui agora?
— Não. — Mas olhei em volta para ter certeza.
— Você quer se livrar dele, claro.
— Quero, mas não sei como fazer isso.
Ele tomou um gole de chá, ficou pensando com a xícara perto do rosto, colocou-a na mesa e fixou os olhos azuis em mim de novo. Ele era velho; seus olhos, não.
— É um problema interessante, principalmente pra um cavalheiro idoso que já encontrou todo tipo de criatura sobrenatural em sua vida de leitor. Os góticos estão cheios delas, e o monstro de Frankenstein e o conde Drácula são só o par que aparece com mais frequência nas marquises de cinema. Há muitos mais na literatura europeia e nas histórias folclóricas. Vamos supor, ao menos por enquanto, que esse Therriault não exista só na sua cabeça. Vamos presumir que ele realmente existe.
Eu me segurei para não protestar, dizendo que ele existia. O professor já sabia em que eu acreditava, ele mesmo tinha dito.
— Vamos um passo à frente. Com base no que você me contou sobre as outras visões que teve de pessoas mortas, inclusive a minha esposa, todos somem uns dias depois. Desaparecem e vão para… — Ele balançou a mão. — … para algum lugar. Mas não esse Therriault. Ele ainda está aqui. Na verdade, você acha que ele pode estar ficando mais forte.
— Eu tenho certeza de que está.
— Se está, talvez ele não seja mais Kenneth Therriault. Talvez o que restou de Therriault depois da morte tenha sido infestado, e essa é a palavra certa, não possuído, por um demônio. — Ele devia ter visto minha expressão, porque acrescentou rapidamente: — Nós estamos só especulando, Jamie. Vou falar francamente e dizer que acho bem mais provável que você esteja sofrendo de um estado localizado de fuga que provocou alucinações.
— Em outras palavras, maluco. — Àquela altura, eu ainda estava feliz de ter contado, mas a conclusão dele era deprimente ao extremo, apesar de eu estar mais ou menos esperando.
Ele balançou a mão.
— Tolice. Não acho nem um pouco que você seja maluco. Você está operando no mundo real tão bem quanto sempre, obviamente. E tenho que admitir que sua história é cheia de fatos difíceis de explicar em termos estritamente racionais. Não duvido que você tenha acompanhado Thia e a ex-amiga dela até a casa do falecido sr. Thomas. Também não duvido que a detetive Dutton tenha te levado até o lugar de trabalho de Therriault e ao prédio dele. Se ela fez essas coisas, e estou canalizando Ellery Queen aqui, um dos meus apóstolos da dedução favoritos, ela devia acreditar nos seus talentos mediúnicos. O que, por sua vez, nos leva à casa do sr. Thomas, onde a detetive Dutton deve ter visto alguma coisa que a convenceu.
— Eu me perdi — falei.
— Deixa pra lá. — Ele se inclinou para a frente. — Só estou dizendo que, apesar de eu ter tendência para o racional, o conhecido e o empírico, considerando que nunca vi um fantasma nem tive nenhum tipo de precognição, eu tenho que admitir que há elementos na sua história que não posso desconsiderar. Vamos dizer, então, que Therriault, ou algo ruim que habitou o que resta de Therriault, realmente existe. A pergunta passa a ser: Dá pra você se livrar dele?
Agora, eu estava inclinado para a frente, pensando no livro que ele tinha me dado, o que era cheio de contos de fadas que eram, na verdade, histórias de terror com bem poucos finais felizes. As irmãs postiças cortaram os dedos dos pés, a princesa jogou o sapo na parede, splat!, em vez de beijá-lo, Chapeuzinho Vermelho encorajou o lobo mau a comer a vovozinha para herdar a propriedade dela.
— Dá? Você leu tantos livros, deve haver um jeito em pelo menos um! Ou… — Uma nova ideia me ocorreu. — Exorcismo! Que tal isso?
— Acho que não dá nem pra considerar — disse o prof. Burkett. — Acho que um padre ficaria mais inclinado a te mandar pra um psiquiatra infantil do que pra um exorcista. Se seu Therriault existe, Jamie, você talvez tenha que aguentá-lo.
Olhei para ele com consternação.
— Mas talvez não haja problema nisso.
— Não haja problema? Como pode não haver problema?
Ele levantou a xícara, tomou um gole e a pôs na mesa.
— Você já ouviu falar no Ritual de Chüd?