Depois
Capítulo 58
A estrada foi subindo em várias curvas em S. No começo, havia algumas casas com caixas de correspondência perto da estrada, mas foram ficando cada vez mais afastadas. As árvores começaram a se adensar, as sombras se encontrando e fazendo parecer que era mais tarde ainda.
— Quantos você acha que existem? — perguntou Liz.
— Hã?
— Gente como você. Gente que vê os mortos.
— Como eu posso saber?
— Você já encontrou mais alguém?
— Não, mas esse não é o tipo de coisa sobre a qual a gente fala. Ninguém começa uma conversa dizendo “Ei, você vê gente morta?”.
— Acho que não mesmo. Mas você não puxou da sua mãe. — Como se ela estivesse falando da cor dos meus olhos ou do meu cabelo cacheado. — E seu pai?
— Eu não sei quem ele é. Ou era. Sei lá. — Falar sobre o meu pai me deixava desconfortável, provavelmente porque minha mãe se recusava a fazer isso.
— Você nunca perguntou?
— Claro que perguntei. Ela não responde. — Eu me virei no banco para olhar para ela. — Ela nunca falou nada sobre isso… sobre ele… pra você?
— Eu perguntei e consegui a mesma coisa que você. Um muro. Não é nem um pouco a cara da Thia.
Mais curvas, mais fechadas agora. Wallkill estava bem abaixo de nós, cintilando no sol do fim da tarde. Ou talvez fosse começo da noite. Eu tinha deixado meu relógio em casa, na mesa de cabeceira, e o relógio do painel marcava oito e quinze, todo errado. Enquanto isso, a qualidade da estrada estava piorando. O carro da Liz passou em pedaços irregulares e sacolejou em buracos.
— Talvez ela estivesse tão bêbada que não lembra. Talvez ela tenha sido estuprada. — Nenhuma das duas ideias tinha passado pela minha cabeça e eu me encolhi. — Não faça essa cara de choque. Só estou supondo. E você tem idade pra pelo menos considerar o que sua mãe pode ter passado.
Eu não a contradisse em voz alta, mas, na minha mente, sim. Na verdade, eu achei que ela estava falando um monte de merda. Alguém chega a ter idade na vida para imaginar se sua vida é resultado de sexo em um momento de blecaute no banco de trás do carro de algum estranho ou que sua mãe foi agarrada em um beco escuro e estuprada? Eu acho que não. O fato de Liz achar que sim provavelmente disse tudo que eu precisava saber sobre o que ela tinha se tornado. Talvez o que ela sempre tivesse sido.
— Pode ser que esse talento tenha vindo do seu pai. Pena que você não pode perguntar pra ele.
Eu achava que não perguntaria nada se o encontrasse. Achava que só ia dar um soco na cara dele.
— Por outro lado, pode ter vindo do nada. Eu cresci em uma cidadezinha em Jersey e tinha uma família na nossa rua, os Jones. Marido, mulher e cinco filhos em um trailer velho. Os pais eram burros como portas e quatro das crianças também. O quinto era a porra de um gênio. Aprendeu a tocar violão sozinho aos seis anos, pulou dois anos na escola, foi para o ensino médio com doze anos. De onde aquilo veio? Não faço ideia.
— Pode ser que a sra. Jones tenha transado com o carteiro — falei. Era uma coisa que eu tinha ouvido na escola. Fez Liz gargalhar.
— Você é uma figura, Jamie. Queria que ainda pudéssemos ser amigos.
— Então você devia ter agido como minha amiga — falei.