Depois

Stephen King · Capítulo 5 de 72

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Depois

Capítulo 4

O funeral foi três dias depois. Foi meu primeiro e foi interessante, mas não o que eu chamaria de divertido. Pelo menos minha mãe não precisou ser a Consoladora de Plantão. O sr. Burkett tinha uma irmã e um irmão para cuidarem disso. Eles eram velhos, mas não tão velhos quanto ele. O sr. Burkett chorou durante toda a cerimônia do funeral e a irmã não parou de entregar lenços de papel a ele. A bolsa dela parecia cheia de lenços. Eu estava surpreso que tivesse espaço para outras coisas.

Naquela noite, minha mãe e eu pedimos uma pizza da Domino’s. Ela tomou vinho e eu tomei um Kool-Aid, como prêmio por ter me comportado no funeral. Quando chegamos no último pedaço de pizza, ela me perguntou se eu achava que a sra. Burkett estava lá.

— Estava. Ela se sentou na escada que levava ao lugar onde o pastor e os amigos dela falaram.

— O púlpito. Você… — Ela pegou a última fatia, olhou para ela, colocou de volta e olhou para mim. — Você conseguiu ver através dela?

— Tipo um fantasma de filme, você quer dizer?

— É. Acho que é isso que quero dizer.

— Não. Ela estava toda lá, mas ainda de camisola. Foi uma surpresa ver ela lá, porque ela morreu três dias atrás. Normalmente eles não duram tanto.

— Eles simplesmente desaparecem? — Parecia que ela estava tentando entender. Eu sabia que ela não gostava de falar sobre aquilo, mas fiquei feliz de estar falando. Foi um alívio.

— É.

— O que ela estava fazendo, Jamie?

— Só ficou sentada lá. Uma ou duas vezes, ela olhou para o caixão, mas ficou mais olhando para ele.

— Para o sr. Burkett. Marty.

— Isso. Ela disse uma coisa uma hora, mas não consegui ouvir. Pouco tempo depois que eles morrem, as vozes começam a ficar mais baixas, como quando a gente diminui o volume no rádio do carro. Depois de um tempo, não dá pra ouvir mais nada.

— E eles somem.

— É — falei. Tinha um caroço na minha garganta e bebi o resto do meu Kool-Aid para ver se passava. — Somem.

— Me ajuda a tirar tudo — disse ela. — Depois a gente pode ver um episódio de Torchwood se você quiser.

— Oba, legal! — Na minha opinião, Torchwood não era legal, mas poder ficar acordado uma hora depois da minha hora normal de dormir era muito legal.

— Tudo bem. Desde que você entenda que não vai virar hábito. Mas preciso dizer uma coisa primeiro e é uma coisa muito séria. Quero que você preste atenção. Muita atenção.

— Tudo bem.

Ela se apoiou em um joelho e nossos rostos ficaram mais ou menos na mesma altura. Ela me segurou pelos ombros, com delicadeza, mas o toque era firme.

— Nunca conta pra ninguém que você vê gente morta, James. Nunca.

— Ninguém ia acreditar mesmo. Você não acreditava.

— Eu acreditava em alguma coisa. Desde aquele dia no Central Park. Se lembra daquilo? — Ela soprou a franja de novo. — Claro que se lembra. Como poderia esquecer?

— Eu me lembro. — Só que queria não me lembrar.

Ela ainda estava apoiada em um joelho, me olhando.

— É o seguinte. As pessoas não acreditarem é uma coisa boa. Mas, um dia, alguém pode acreditar. E podem fazer um tipo ruim de fofoca, ou você pode acabar correndo perigo de verdade.

— Por quê?

— Tem um ditado antigo que diz que homens mortos não contam histórias, James. Só que eles conseguem falar com você, né? Homens e mulheres mortos. Você diz que eles têm que responder suas perguntas e dar respostas verdadeiras. Como se morrer fosse uma dose de tiopental sódico.

Eu não tinha a menor ideia do que era aquilo e ela devia ter visto no meu rosto, porque disse para eu esquecer aquilo e lembrar o que a sra. Burkett me disse quando perguntei sobre os anéis.

— O que que tem? — perguntei. Eu gostava de ficar perto da minha mãe, mas não gostava dela me olhando daquele jeito intenso.

— Aqueles anéis eram valiosos, principalmente o anel de noivado. As pessoas que morrem levam segredos, Jamie, e sempre tem alguém que quer saber esses segredos. Não quero te deixar com medo, mas às vezes é botando medo que se aprende a lição.

Assim como o homem no Central Park foi uma lição sobre tomar cuidado no trânsito e sempre usar capacete na bicicleta, pensei… mas não falei.

— Não vou falar sobre isso — falei.

— Nunca. Só comigo. Se você precisar.

— Tá bom.

— Que bom. Está entendido, então.

Ela se levantou e fomos até a sala ver televisão. Quando o programa acabou, eu escovei os dentes e fiz xixi e lavei as mãos. Minha mãe me botou na cama e me beijou e disse o que sempre dizia:

— Bons sonhos, durma com os anjos.

Na maioria das noites, essa era a última vez que eu a via até de manhã. Eu ouvia o tilintar do vidro quando ela se servia de uma segunda taça de vinho (ou terceira) e o volume do jazz era diminuído quando ela começava a ler um manuscrito. Só que acho que as mães devem ter um sentido a mais, porque, naquela noite, ela voltou para o meu quarto e se sentou na minha cama. Ou talvez ela tivesse me ouvido chorar, apesar de eu estar me esforçando ao máximo para chorar bem baixinho. Porque, como ela também sempre dizia, é melhor ser parte da solução do que parte do problema.

— O que houve, Jamie? — perguntou ela, afastando meu cabelo da testa. — Está pensando no funeral? Na presença da sra. Burkett lá?

— O que ia acontecer comigo se você morresse, mamãe? Eu ia ter que morar em uma casa de orfanato? — Porque eu não ia morar com o tio Harry nem fodendo.

— Claro que não — disse minha mãe, ainda com a mão no meu cabelo. — E conversar sobre isso é perda de tempo, Jamie, porque eu não vou morrer tão cedo. Tenho trinta e cinco anos e isso quer dizer que ainda tenho mais da metade da minha vida pela frente.

— E se você tiver o que o tio Harry teve e tiver que ir morar naquele lugar com ele? — As lágrimas estavam correndo pelo meu rosto. O carinho dela na minha testa me deixou melhor, mas também me fez chorar mais, sei lá por quê. — Aquele lugar fede. Tem cheiro de xixi!

— A chance de isso acontecer é tão pequena que, se você botasse ela do lado de uma formiga, a formiga ia parecer o Godzilla — disse ela. Aquilo fez com que eu sorrisse e me sentisse melhor. Agora que estou mais velho, sei que ela estava mentindo ou estava mal informada, mas o gene que deflagra o que o tio Harry teve, Alzheimer precoce, desviou dela, graças a Deus.

— Eu não vou morrer, você não vai morrer e acho que tem uma boa chance de essa sua habilidade peculiar sumir com a idade. E aí… tudo bem agora?

— Tudo.

— Chega de choro, Jamie. Só bons sonhos…

— E durma com os anjos — concluí.

— Tá, tá, tá. — Ela beijou minha testa e saiu. Deixando a porta um pouquinho aberta, como ela sempre fazia.

Eu não quis contar para ela que não foi o funeral que me fez chorar e nem a sra. Burkett, porque ela não era assustadora. A maioria deles não é. Mas o homem da bicicleta no Central Park me fez cagar de medo. Ele era nojento.