Depois
Capítulo 68
Em pouco tempo, outra notícia tirou o Casarão dos Horrores do Donnie Grandão das primeiras páginas dos tabloides e minha fama na escola passou. Foi como Liz disse sobre Chet Atkins, eles esquecem rápido. Eu me vi novamente de frente para o problema de falar com garotas em vez de esperar que elas fossem até meu armário, os olhos com rímel arregalados e os lábios cheios de gloss repuxados, para falar comigo. Eu joguei tênis e tentei entrar na peça da turma. Acabei conseguindo um papel só com duas falas, mas me dediquei de coração a elas. Joguei video games com meus amigos. Levei Mary Lou Stein ao cinema e a beijei. Ela retribuiu o beijo, o que foi excelente.
Hora da montagem, com páginas de calendário passando e tudo. Chegou 2016 e depois 2017. Às vezes, eu sonhava que estava naquela estrada de interior e acordava com as mãos sobre a boca, pensando Eu assobiei? Meu Deus, eu assobiei? Mas esses sonhos aconteciam com menos frequência. Às vezes, eu via pessoas mortas, mas não com muita frequência, e elas não eram assustadoras. Uma vez, minha mãe perguntou se eu ainda as via, e falei que quase nunca, sabendo que a faria se sentir melhor. Era uma coisa que eu queria, porque ela também passou por muita coisa ruim e eu sabia.
— Talvez esteja passando agora que você está crescendo — disse ela.
— Talvez — concordei.
Isso nos leva a 2018, com nosso herói Jamie Conklin com mais de um metro e oitenta, já com um cavanhaque (que minha mãe abominava), aceito na NYU e quase com idade para votar. Eu teria idade para votar quando chegassem as eleições em novembro.
Eu estava no meu quarto, estudando para as provas finais, quando meu celular tocou. Era minha mãe, ligando de outro Uber, desta vez a caminho de Tenafly, onde o tio Harry estava morando.
— É pneumonia de novo — disse ela —, e acho que ele não vai melhorar desta vez, Jamie. Eles me pediram pra ir, e normalmente só fazem isso quando é coisa muito séria. — Ela fez uma pausa e disse: — Mortal.
— Vou o mais rápido que puder.
— Não precisa fazer isso.
O subtexto era que eu nunca o conheci direito mesmo, ao menos não quando ele era um cara inteligente construindo uma carreira para si e para a irmã no difícil mundo editorial de Nova York. Pode ser um mundo muito difícil mesmo. Agora que eu também estava trabalhando no escritório, só por algumas horas por semana, praticamente só no arquivo, eu sabia que era verdade. E era verdade que eu só tinha lembranças vagas de um cara inteligente que deveria ter continuado inteligente por bem mais tempo, mas não era por ele que eu ia.
— Eu vou de ônibus. — Era uma coisa que eu podia fazer com facilidade, porque eu sempre fui de ônibus para Nova Jersey na época que ir de Uber ou de Lyft estava fora do nosso orçamento.
— Suas provas… você precisa estudar pras provas finais…
— Livros são magia portátil. Li isso em algum lugar. Vou levá-los comigo. Nos vemos lá.
— Pode ser que a gente tenha que passar a noite. Tem certeza?
Eu disse que sim.
Não sei exatamente onde eu estava quando o tio Harry morreu. Talvez em Nova Jersey, talvez ainda atravessando o Hudson, talvez enquanto eu ainda conseguia ver o Yankee Stadium da janela suja de bosta de passarinho do ônibus. Só sei que a minha mãe estava me esperando do lado de fora do residencial, o último dele, em um banco debaixo da sombra de uma árvore. Ela estava com os olhos secos, mas estava fumando um cigarro, e eu não a via fazer isso havia muito tempo. Ela me deu um abraço apertado e eu a abracei igual. Senti o cheiro do perfume dela, aquele cheiro antigo e doce de La Vie est Belle, que sempre me levava de volta à infância. Àquele garotinho que achava que o peru verde feito contornando a mão era do caralho. Eu nem precisei perguntar.
— Menos de dez minutos antes de eu chegar aqui — disse ela.
— Você está bem?
— Estou. Triste, mas também aliviada de finalmente ter acabado. Ele durou bem mais do que a maioria das pessoas que sofrem do que ele tinha. Eu estava sentada aqui pensando em três aéreas, seis rasteiras. Sabe o que é?
— Acho que sei, sim.
— Os garotos não queriam me deixar jogar porque eu era menina, mas o Harry dizia que, se eles não me deixassem jogar, ele também não jogava. E ele era popular. Sempre o mais popular. Então eu era, como dizem, a única garota em campo.
— Você era boa?
— Eu era incrível — disse ela e riu. Em seguida, secou um dos olhos. Chorando, afinal. — Olha, eu preciso conversar com a sra. Ackerman, a mandachuva aqui, e assinar uns papéis. Depois, tenho que ir até o quarto dele e ver se tem alguma coisa que preciso pegar logo. Imagino que não.
Senti uma pontada de alarme.
— Ele não está…?
— Não, querido. Tem uma funerária que usam aqui. Vou fazer os preparativos amanhã pra levá-lo pra Nova York e… sabe como é, as coisas finais. — Ela fez uma pausa. — Jamie?
Eu olhei para ela.
— Você… não está vendo ele, está?
Eu sorri.
— Não, ma.
Ela segurou meu queixo.
— Quantas vezes eu já falei pra você não me chamar assim? Quem fala ma?
— Ovelhinhas — falei, e acrescentei: — Tá, tá, tá.
Isso a fez rir.
— Me espera, querido. Não vai demorar.
Ela entrou e eu olhei para o tio Harry, que estava parado a menos de três metros de mim. Ele estava lá o tempo todo, com o pijama que estava usando quando morreu.
— Oi, tio Harry — falei.
Não houve resposta. Mas ele estava olhando para mim.
— Você ainda tem Alzheimer?
— Não.
— Então está tudo bem agora?
Ele me olhou com um leve toque de humor.
— Acho que sim, se estar morto encaixar na sua definição de bem.
— Ela vai sentir saudade de você, tio Harry.
Não houve resposta, mas não esperei que houvesse porque não foi uma pergunta. Mas eu tinha uma. Ele provavelmente não sabia a resposta, mas tem um velho ditado que diz que quem não chora não mama.
— Você sabe quem é meu pai?
— Sei.
— Quem? Quem é?
— Sou eu — disse o tio Harry.