O Queijo e os Vermes
7. Uma sociedade arcaica
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Sobre o que signi cava o aceno ao “mundo novo”, ao novo “modo de viver”, falaremos mais adiante. Antes de mais nada, é preciso tentar entender de que modo este moleiro do Friuli pôde exprimir ideias desse tipo.
O Friuli da segunda metade do século XVI era uma sociedade
com características profundamente arcaicas. As grandes famílias da nobreza feudal ainda preponderavam na região. Instituições como a chamada servidão de mesnada tinham sido conservadas até o século anterior, por muito mais tempo, portanto, que nas regiões vizinhas. O antigo Parlamento medieval mantivera as próprias funções legislativas, mesmo estando o poder efetivo nas mãos dos lugares-tenentes venezianos já há algum tempo. Na verdade, a dominação de Veneza, iniciada em 1420, tinha deixado, na medida do possível, as coisas como eram antes. A única preocupação dos venezianos havia sido criar um equilíbrio de forças tal que neutralizasse as tendências subversivas de parte da nobreza feudal friulana.
No princípio do século XVI , os con itos no interior da nobreza tinham se agravado. Foram criados dois partidos: os Zamberlani , favoráveis a Veneza, reunidos em torno do poderoso Antonio Savorgnan (que morreria como traidor no Império), e os Strumieri , hostis a Veneza, liderados pela família dos Torreggiani. Devido a essa disputa política entre facções nobres, teve início um violentíssimo con ito de classes. Era 1508, o nobre Francesco di Strassoldo, num discurso no Parlamento, advertia que em várias localidades do Friuli os camponeses faziam reuniões secretas, algumas agrupando até 2 mil pessoas, nas quais, entre outras coisas, se diziam “algumas nefandas e diabólicas palavras de ordem, como cortar em pedacinhos padres, homens de bem, castelãos e cidadãos, ameaçando fazer
uma véspera siciliana, * e muitas outras palavras sujíssimas”. Mas
não eram só palavras. Na quinta-feira gorda de 1511, pouco depois da crise que sucedeu à derrota de Veneza em Agnadello e coincidentemente com a difusão da peste, os camponeses éis a Savorgnan se insurgiram, primeiro em Udine e a seguir em outras localidades, massacrando nobres dos dois partidos e incendiando castelos. À imediata recomposição da solidariedade de classe entre os nobres seguiu-se uma repressão feroz da revolta. Porém, se a violência dos camponeses, por um lado, amedrontara a oligarquia veneziana, por outro, tinha acenado com a possibilidade de uma política audaciosa para conter a nobreza friulana. Nos decênios seguintes à efêmera revolta de 1511, acentuou-se a tendência veneziana de apoiar os camponeses do Friuli (e da Terra-Firme em geral) contra a nobreza local. Dentro desse sistema de contrapesos, tomou corpo uma instituição excepcional nos próprios domínios venezianos: a Contadinanza . Esse órgão tinha funções não só
scais, como também militares: através das “listas de fogos”, **
recolhia uma série de impostos e, através das cernide , organizava milícias camponesas. Esse último item, em especial, era um verdadeiro desacato para a nobreza friulana, se consideramos que os estatutos da Patria , impregnados de espírito feudal (entre outras coisas ameaçavam com penalidades os camponeses que ousassem destruir o nobre exercício da caça, armando laços para as lebres ou caçando perdizes à noite), continham uma cláusula intitulada De prohibitione armorum rusticis . Mas as autoridades venezianas, embora mantido o caráter sui generis da Contadinanza , estavam decididas a transformá-la em representante autorizada dos interesses da população rural. Portanto, caía também, formalmente, a cção jurídica que assegurava ser o Parlamento o órgão representativo de toda a população.
A lista das providências tomadas por Veneza a favor dos camponeses friulanos é longa. Já em 1533, em resposta à petição apresentada pelos “decanos” de Udine e de outras localidades do Friuli e da Carnia, que se lamentavam por “estar realmente oprimidos por diversos tipos de pagamento que deviam fazer aos nobres citadinos, a outros além desses e a tantas outras pessoas leigas, desde que as colheitas subiram de preço, o que vem acontecendo há alguns anos”, foi concedida a possibilidade de
pagar as taxas de arrendamento (exceto os en teuses *** ) em
dinheiro em vez de espécie, com base em preços unitários, estabelecidos de nitivamente — o que, numa situação de aumentos constantes de preços, bene ciava evidentemente os camponeses. Em 1551, “por causa dos pedidos da Contadinanza da Patria ”, todas as taxas de arrendamento xadas a partir de 1520 foram reduzidas em 7%, através de um decreto que foi discutido e ampliado oito anos depois. Em 1574, mais uma vez as autoridades venezianas procuraram impor um limite à usura no campo, determinando que “dos camponeses daquela Patria não podem ser retirados para penhora tipo algum de animal, grande ou pequeno, apto para o trabalho com a terra, nem tipo algum de instrumento rural por insistência de credores, salvo os próprios patrões”. Além disso, “para aliviar a condição dos pobres camponeses, dos quais safras são arrancadas pela avidez dos credores que lhes fornecem várias mercadorias a crédito, antes mesmo que as colheitas tenham sido ceifadas e quando os preços atingem o valor mais baixo no ano”, decretava-se que os credores poderiam exigir a sua parte somente depois de 15 de agosto.
Tais concessões, que pretendiam sobretudo manter sob controle as tensões latentes nos campos friulanos, criavam ao mesmo tempo uma relação de solidariedade entre os camponeses e o poder veneziano, em oposição à nobreza local. Diante da progressiva redução das taxas de arrendamento, a nobreza tentou transformar as taxas em aluguéis simples — isto é, num tipo de contrato que piorava evidentemente as condições dos camponeses. Tal tendência, generalizada durante esse período, deve ter encontrado sérios obstáculos no Friuli, em especial demográ cos. Quando os braços não são su cientes, é difícil chegar a pactos agrários favoráveis aos proprietários. Ora, em um século, entre meados do século XVI e meados do XVII , ou por