O Queijo e os Vermes
48. Volta à aldeia
O bispo de Concórdia e o inquisidor do Friuli reconheceram nisso tudo sinais de uma autêntica conversão. Convocaram imediatamente o magistrado de Portogruaro e alguns nobres do lugar (entre os quais o futuro historiador do Friuli, Giovan Francesco Palladio degli Olivi) e comutaram a sentença. Como cárcere perpétuo para Menocchio foi determinada a aldeia de Montereale, cando-lhe proibido afastar-se dali. Ficava-lhe
expressamente proibido também falar ou mencionar suas ideias perigosas. Deveria se confessar com regularidade e usar sobre a roupa o hábito com a cruz, sinal da sua infâmia. Um amigo, Daniele de Biasio, se responsabilizou por ele, comprometendo-se a pagar duzentos ducados em caso de violação da sentença. Arrasado física e mentalmente, Menocchio voltou para Montereale.
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Retomou seu lugar na comunidade. Apesar dos problemas que tivera com o Santo Ofício, apesar da condenação e da prisão, em 1590 foi novamente nomeado cameraro (administrador) da igreja de Santa Maria de Montereale. O novo pároco, Giovan Daniele Melchiori, amigo de infância de Menocchio (veremos mais para a frente o que havia acontecido com o pároco anterior, Odorico Vorai, que denunciara Menocchio ao Santo Ofício), deve ter intervindo para tal nomeação. Aparentemente ninguém se escandalizava com o fato de que um herege, ou melhor, heresiarca, administrasse os fundos da paróquia, uma vez que o próprio pároco já tivera problemas com a Inquisição.
O cargo de cameraro era frequentemente con ado a moleiros, talvez porque possuíssem meios para antecipar o dinheiro necessário à administração da paróquia. O cameraro , por sua vez, se valia disso atrasando o reembolso correspondente aos dízimos doados pelos éis. Quando em 1593 Matteo Sanudo, bispo de Concórdia, apareceu em Montereale, durante uma visita a toda a diocese, quis examinar as contas dos camerari dos últimos sete anos. Veri cou que entre os devedores estava Domenico Scandella, isto é, Menocchio, com duzentas liras — o débito mais elevado depois do de Bernardo Corneto. Tratava-se de um fenômeno comum, regularmente alvo de queixas das visitas pastorais ao Friuli desse período. Nesse caso, também, o bispo (que com certeza não deve ter associado o nome Scandella ao homem que condenara nove anos antes) tentou introduzir uma administração mais rigorosa e cuidadosa. Reprovou “o pouco cuidado com as contas, apesar de já terem sido dadas ordens a respeito pelo visitante anterior. Se estas tivessem sido observadas, sem dúvida as coisas da igreja estariam muito melhores”; ordenou que se comprasse um “livro grande”, no qual o pároco, sob pena de suspensão dos serviços divinos ( a divinis ), deveria registrar, a cada ano, as entradas, “parte por parte, respectivamente quem as paga, a distribuição do grão dia a dia, os gastos com a igreja e, nalmente, os salários dos camerari ”; estes deverão anotar as entradas num “registro ( vacchetta ) e, depois, transferir para o livro”. Acrescentou que os camerari devedores deveriam saldar as dívidas “sob pena de serem privados do ingresso na igreja e de sepultura eclesiástica em caso de morte”; daí a seis meses o pároco deveria levar a Portogruaro as contas de 1592, sob pena de multa e — mais uma vez — de suspensão a divinis . Se Menocchio pagou ou não a sua dívida não sabemos. Talvez sim, já que na visita pastoral subsequente, feita pelo mesmo bispo Sanudo em 1599-1600, foram registrados débitos dos camerari de Montereale somente posteriores a 1592.
Um testemunho do mesmo período (1595) con rma que o prestígio de Menocchio entre seus conterrâneos permaneceu intacto. Entre o conde Giovan Francesco Montereale e um de seus arrendatários surgiu uma “pequena di culdade” a propósito de dois pedaços de terra e uma casa de colono. A pedido do conde foram nomeados dois avaliadores para apontar as melhorias feitas à casa pelo arrendatário precedente. Piero della Zuanna foi escolhido para representar o conde e Menocchio, o arrendatário. A causa era difícil, considerando-se que uma das partes era o próprio senhor local; mas, evidentemente, con ava-se na capacidade de discutir e argumentar de Menocchio.
No mesmo ano, Menocchio alugou, junto com o lho Stefano, um novo moinho, numa localidade conhecida como “abaixo das cercas de cima” ( de sotto le siege de sora ). A locação foi por nove anos: os locatários se comprometiam a pagar todos os anos quatro alqueires de trigo, dez de centeio, dois de aveia, dois de milho e dois de grão sarraceno, mais um porco de 150 libras de peso; uma cláusula especi cava o correspondente em dinheiro (seis soldos por libra) caso o peso do porco fosse superior ou inferior ao estabelecido. Além disso, eram previstas as “honrarias”: alguns capões e meia peça de linho. O último era um tributo simbólico, já que o moinho era usado para o bene ciamento de tecido. Os arrendatários recebiam o moinho em consignação, equipado com dois asnos “bons e úteis”, uma roda ( leviera ) e seis máquinas para bene ciamento de tecido, e se comprometiam a restituí-lo “melhorado em vez de deteriorado” aos locadores, que eram os tutores dos herdeiros de Pietro de Macris. O arrendatário precedente, Florito di Benedetto, declarado insolvente, prometeu pagar os aluguéis atrasados nos cinco anos seguintes: Menocchio e Stefano, atendendo a pedidos dele, declararam-se seus adores.
Tudo isso indica que a situação dos dois Scandella deveria ser, naquele momento, bem sólida. Menocchio participava integralmente da vida da comunidade. Ainda em 1595, ele foi o portador de uma mensagem do lugar-tenente da Patria do Friuli ao magistrado local. Foi um dos catorze representantes — entre os quais, o magistrado — da “vizinhança” de Montereale encarregados de eleger os responsáveis pela redação dos cadastros.