O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 50 de 62

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O Queijo e os Vermes

51. Segundo processo

perseguidores.

 

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Alguns meses depois chegou até o inquisidor uma nova denúncia contra Menocchio. Parece que ele pronunciara uma blasfêmia que passara de boca em boca, de Aviano a Pordenone, provocando reações escandalizadas. Um taverneiro de Aviano, Michele del Turco, conhecido como Pignol, foi interrogado. Sete ou oito anos antes (alguém lhe contara) Menocchio teria exclamado: “Se Cristo fosse Deus, teria sido um [...], deixando que o metessem na cruz”. “Não completou o que Cristo teria sido”, acrescentou o taverneiro, “mas eu entendi que queria dizer que seria um frouxo ( coglione ), desculpem-me o palavrão [...]. Quando ouvi tais palavras, meus cabelos arrepiaram e mudei de assunto imediatamente. Eu o considero pior que um turco.” Menocchio, concluiu, continuava “obstinado em suas antigas opiniões”.

Agora não eram os habitantes de Montereale os únicos que contavam, um para o outro, as frases ditas por Menocchio: a notoriedade do tal moleiro, que nem mesmo a prisão do Santo Ofício conseguira trazer para o caminho certo, ultrapassava os estreitos limites da aldeia. Suas perguntas provocativas, suas brincadeiras blasfemas eram contadas até mesmo anos depois: “Vocês pensam que Cristo Nosso Senhor era lho da Virgem Maria, mas como, se essa Virgem Maria era uma puta?”. “Como é que vocês querem que Cristo tenha sido concebido pelo Espírito Santo se ele nasceu de uma puta?” “São Cristóvão é maior que Deus porque ele carregou o mundo inteiro nas costas.” (Curiosamente essa mesma observação jocosa aparece num livro que com certeza Menocchio nunca viu: uma coletânea de símbolos, repleta de insinuações heterodoxas, do humanista bolonhês Achille Bocchi.) “Acredito que tivesse o espírito ruim e não se metesse a falar por medo”, disse Zannuto Fasseta di Montereale, que ouvira Menocchio “tocar música”. Mas o velho impulso de sempre levava Menocchio a falar de questões religiosas com os conterrâneos novamente. Certo dia, voltando de Menins para Montereale, perguntara a Daniel Jacomel: “Quem você acha que seja Deus?”. “Eu não sei” — o outro respondera, desenxabido ou talvez surpreso. “Não é nada mais que o ar.” Ruminava os velhos pensamentos, não se dava por vencido. “O que é que você acha, os inquisidores não querem que a gente saiba o que eles sabem.” Ele, porém, se sentia capaz de enfrentá-los: “Gostaria de dizer quatro palavras do Pater noster diante do inquisidor, e ver o que ele diria e responderia”.