O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 58 de 62

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O Queijo e os Vermes

60. Dois moleiros

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No caso do moleiro de Savignano sul Panaro, as relações com os ambientes cultos e socialmente elevados haviam sido ainda mais íntimas. Em 1565, o frade Gerolamo da Montalcino, que fazia uma visita à diocese em nome do bispo de Modena, encontrou Pighino, anteriormente apontado como “concubinário luterano”. Em seu relato sobre a visita o frade o descreveu como “um pobre camponês doente, muito feio, baixo de estatura”, e acrescentou: “Falando com ele, espantei-me com algumas coisas falsas mas inteligentes que dizia, tanto que julguei que as tivesse aprendido na casa de algum cavalheiro”. Cinco anos mais tarde, ao ser processado pelo Santo Ofício ferrarense, Pighino a rmou ter prestado serviços em várias casas de cavalheiros bolonheses: Natale Cavazzoni, Giacomo Mondino, Antonio Bonasone, Vincenzo Bolognetti, Giovanni d’Avolio. Quando lhe perguntaram se em alguma dessas casas discutiam-se questões religiosas, negou peremptoriamente, mesmo sob ameaça de tortura. Foi então posto em confronto com o frade que o encontrara anos antes em Savignano. O frade Gerolamo declarou que, naquela ocasião, Pighino lhe dissera que havia aprendido aquelas coisas “falsas mas inteligentes” na casa de um cavalheiro de Bolonha, com uma pessoa que lhe dava “lições”, sem especi cá-las. O frade não se lembrava bem, muito tempo havia se passado. Esquecera tanto o nome do cavalheiro em questão como o de um padre — ele achava — que lhe dera aquelas “lições”. Todavia Pighino negou tudo: “Padre, eu não me lembro de jeito algum”. Nem mesmo a tortura do fogo à qual foi submetido (a das cordas não foi aplicada porque sofria de hérnia) o fez confessar.

Mas de que estava escondendo informações não temos a menor dúvida. Talvez seja possível enxergar através de suas reticências. No dia seguinte ao encontro com o frade (11 de setembro de 1570), os inquisidores perguntaram novamente a Pighino o nome dos cavalheiros de Bolonha aos quais servira. Ele repetiu a lista, com uma variante que passou despercebida: no lugar do nome de Vincenzo Bolognetti, deu o de Vincenzo Bonini. Talvez fosse Bolognetti o cavalheiro que Pighino tentava encobrir com seu silêncio. Se assim for (não sabemos com certeza), quem foi que deu as “lições” que tanto impressionaram Pighino?

Poderia ter sido o famoso herético Paolo Ricci, mais conhecido como Camillo Renato. Chegando a Bolonha em 1538, Ricci (que então usava o nome humanista Lisia Fileno) ali permaneceu como preceptor dos lhos de alguns nobres citadinos por dois anos: os Danesi, os Lambertini, os Manzoli, os Bolognetti. E foi aos Bolognetti que se referiu numa passagem da Apologia , a qual escreveu em 1540 para se defender das acusações do Santo Ofício. Nesta, Fileno partia das crenças ingenuamente antropomór cas dos camponeses e da massa em geral que atribuíam a Nossa Senhora poder igual ou superior ao de Cristo, e propunha uma religião cristocêntrica, livre de superstições: “Iterum rustici fere omnes et cuncta plebs, et ego his meis auribus audivi, rmiter credit parem esse divae Mariae cum Iesu Christo potestatem in distribuendis gratiis, alii etiam maiorem. Causa est quia inquiunt: terrena mater non solum rogare sed etiam cogere lium ad praestandum aliquid potest; ita namque ius maternitatis exigit, maior est lio mater. Ita, inquiunt, credimus esse in coelo inter beatam Virginem Mariam et Iesum Christum lium” (Quase todos os camponeses e todo o povo simples da cidade, e eu os ouvi com os meus próprios ouvidos, creem rmemente que o poder divinal de Maria é igual ao de Jesus Cristo na distribuição das graças; outros creem até que é maior. O motivo é porque, dizem, a mãe terrena pode não só pedir como também forçar o lho a prestar algum favor; assim postula o direito da maternidade, a mãe é maior que o lho. Cremos, dizem, que no céu o mesmo se dá com a bem-aventurada Virgem Maria e seu lho Jesus Cristo). Na margem anotou: “Bononiae audita MDXL in domo equitis Bolognetti” (ouvido em Bolonha, 1540, na casa do cavalheiro Bolognetti).

Trata-se, como se pode notar, de uma lembrança bem precisa. E se um dos “rústicos” encontrados por Fileno na casa de Bolognetti fosse Pighino? Nesse caso, podemos extrair das con ssões reticentes feitas pelo moleiro de Savignano aos inquisidores ferrarenses um eco dos discursos de Fileno, ouvidos trinta anos antes, embora Pighino tivesse situado suas opiniões heréticas num tempo menos distante — inicialmente onze, depois vinte ou 22 anos antes —, coincidente com a primeira leitura dos Evangelhos em vernáculo. Mas a própria incerteza quanto a essa data poderia estar encobrindo o propósito deliberado de confundir os inquisidores. Quanto ao fato de Paolo Ricci/Lisia Fileno ser um frade secularizado e não um padre, como dissera frade Gerolamo da Montalcino, não é um problema, já que se tratava de mera suposição.

Certamente, um encontro e uma conversa entre o so sticado humanista Lisia Fileno e o moleiro Pighino Baroni, conhecido como “o gordo”, são também suposições, embora fascinantes. O que se sabe na verdade é que, em outubro de 1540, Fileno foi preso “nos campos modenenses onde andava subvertendo os camponeses”, como escreveu Giovanni Domenico Sigibaldi ao cardeal Morone. Com Fileno encontrava-se outro personagem, que “tinha a mesma pro ssão luteranizante”: “Seu nome era Turchetto, lho de um turco ou de uma turca”. É bem provável que se tratasse de Giorgio Filaletto, conhecido como Turca, autor da misteriosa tradução italiana do De Trinitatis erroribus , que com certeza Menocchio teve em suas mãos. Enveredando por um ou outro caminho, acaba-se enredado nos delicados os que ligam, nesse período, os heréticos de formação humanista e o mundo camponês.

Mas, depois de tudo o que foi dito até aqui, será inútil insistir na impossibilidade de atribuir esses fenômenos de radicalismo religioso camponês a in uências externas — e de cima. Os discursos de Pighino também são testemunhos de uma aceitação não passiva dos temas que circulavam então nos ambientes heréticos. Suas a rmações mais originais — como a da origem servil de Maria, a da igualdade dos “grandes” e dos “pequenos” no paraíso — re etem claramente o igualitarismo camponês que nos mesmos anos aparecia no Settennario , de Scolio. A convicção de que, “morto o corpo, morre a alma” é inspirada por um instintivo materialismo camponês. Nesse caso, porém, o percurso de Pighino fora mais complexo. A tese da mortalidade da alma era contrariada pela da igualdade dos beatos no paraíso. Ao inquisidor que lhe zera ver tal contradição, Pighino

explicou: “Eu acreditava que as almas beatas deveriam car no paraíso por um longo tempo, mas num certo momento, quando Deus quisesse, desapareceriam no nada, sem sentir dor alguma”. Pouco antes admitira haver acreditado “que as almas acabariam um dia e desapareceriam no nada: e isso por causa daquelas palavras do Senhor que dizem: ‘O céu e a terra passarão, mas minha palavra não passará’, de onde eu concluía que, se o céu tivesse que acabar um dia, mais ainda teria a nossa alma”. Isso nos lembra a tese do sono das almas após a morte, defendida nos ambientes bolonheses por Fileno, como se vê em sua Apologia , de 1540. Seria, portanto, mais um elemento a favor da identi cação do “professor” desconhecido de Pighino com Fileno. Mas é de notar que a formulação de Pighino era muito mais materialista do que as que circulavam nos ambientes heréticos da época, já que a rmava a aniquilação nal das almas beatas — e não apenas das dos danados , como defendiam os anabatistas vênetos, que reservavam a ressurreição no dia do Juízo Final para as almas dos justos. Pode ser que Pighino interpretasse erradamente o signi cado dos discursos ouvidos em Bolonha — muito tempo já se passara —, talvez repletos de terminologia losó ca. Porém, em todo caso, tal distorção é signi cativa, como também o tipo de argumentação escritural que usava. Fileno, na Apologia , dizia ter visto com seus próprios olhos referências à tese do sono das almas não só nos escritos patrísticos, como também na Escritura, embora não precisasse onde. Pighino, em vez de lembrar a passagem em que são Paulo conforta os irmãos da igreja de Tessalônica, falando da ressurreição nal dos que dormiam em Cristo, lançava mão de uma passagem muito menos óbvia, em que a alma não era sequer mencionada. Por que deduzir a aniquilação nal da alma da aniquilação do mundo? Muito provavelmente, Pighino re etira numa série de passagens do Fioretto della Bibbia — um dos pouquíssimos livros que lera, como sabemos (embora num primeiro momento a rmasse, talvez por prudência, que possuía o livro, mas “não o lera”).

“E todas as coisas que Deus criou do nada”, a rmava o Fioretto , “são eternas e durarão para sempre: E as coisas eternas são: anjos, luz, mundo, homem, alma.” Um pouco mais adiante, porém, uma tese diversa era desenvolvida: “[...] Alguma coisa tem começo e terá m — o mundo, e as coisas criadas que são visíveis. Outras têm começo e não terão m: os anjos e nossas almas, que não terão jamais m”. Em seguida, como vimos anteriormente, mencionava, entre os “grandes erros” defendidos por “muitos lósofos” sobre a criação das almas, este: “[...] que todas as almas são uma e que os elementos são cinco, os quatro citados acima e ainda um outro, chamado orbis , e dizem que desse orbis Deus fez a alma de Adão e todas as outras. E por isso dizem que o mundo não acabará jamais, porque, quando o homem morre, retorna aos seus elementos”. Se a alma é imortal, o mundo é eterno, defendiam os lósofos (averroístas), refutados pelo Fioretto ; se o mundo é perecível (como a um certo ponto a rmava o Fioretto ), a alma é mortal, “concluía” Pighino. Essa inversão radical pressupunha uma leitura do Fioretto ao menos em parte semelhante à de Menocchio: “Eu acredito que o mundo todo, isto é, ar, terra e todas as belezas deste mundo são Deus [...]: porque se diz que o homem é formado à imagem e semelhança de Deus, e no homem existe ar, terra, fogo e água, e disso segue que ar, terra, fogo e água são Deus”. Através da identidade entre o homem e o mundo, baseada nos quatro elementos, Menocchio deduzira (“e disso segue”) a identidade entre o mundo e Deus. A dedução de Pighino (“eu concluía”) sobre a mortalidade nal da alma a partir da não eternidade do mundo implicava a identidade entre homem e mundo. Sobre a relação de Deus com o mundo, Pighino, mais reticente que Menocchio, nada dizia.

Atribuir a Pighino uma leitura do Fioretto semelhante à de Menocchio pode parecer arbitrário. Mas é signi cativo que ambos caíssem na mesma contradição, imediatamente apontada pelos inquisidores, tanto no Friuli como em Ferrara: qual o sentido do paraíso se se nega a imortalidade da alma? Vimos como essas objeções jogavam Menocchio num turbilhão inextricável de contradições. Pighino resolveu a questão falando de um paraíso terrestre, seguido da aniquilação nal das almas.

Na verdade, esses dois moleiros, que viveram a centenas de quilômetros um do outro e morreram sem se conhecer, falavam a mesma língua, respiravam a mesma cultura. “Não li outros livros além dos que já indiquei nem aprendi estes erros com alguém, mas fantasiando sozinho, ou então foi o diabo que me meteu essas coisas no espírito como eu acho, porque me perseguiu muitas vezes; eu o combati em visões e aparições, tanto de noite como de dia, lutando contra ele como se fosse um homem. E por

m percebi que era um espírito” — disse Pighino. Menocchio dissera: “Nunca discuti com alguém que fosse herético, mas eu tenho a cabeça sutil e quis procurar as coisas maiores que não conhecia [...]. As palavras que eu disse antes, as dizia por tentação [...] foi o espírito maligno que me fazia acreditar naquelas coisas [...]. O diabo ou qualquer outra coisa me tentava [...]. O falso espírito estava sempre me incomodando, fazendo com que eu pensasse no falso e não na verdade [...]. Eu achava que era profeta porque o espírito mau me fazia ter vaidade e sonhos [...]. Poderia morrer se tivesse escola ou companheiros, mas eu li por conta própria...”. Pighino, por sua vez: “[...] Eu queria inferir que todo homem era obrigado a estar sob a sua fé, isto é, a judia, a turca e qualquer outra fé...”. Menocchio comentava: “Como se quatro soldados, dois de cada bando, combatessem juntos e um passasse de um bando para o outro. Não seria um traidor? Assim eu pensei que, se um turco abandonasse a sua lei e passasse a ser cristão, ele faria mal. E acho também que um judeu faria mal se passasse a ser turco ou cristão e quem deixasse a sua lei...”. Segundo uma testemunha, Pighino a rmara “que não existia inferno, nem purgatório e eram invenções dos padres e dos frades para lucrarem com isso...”. Explicou aos inquisidores: “Eu nunca neguei que existisse o paraíso. Eu perguntei: Ó Deus, onde podem estar o inferno e o purgatório?, pois me parecia que debaixo da terra existia só água e aí não poderiam estar, mas que tanto um como outro estejam acima da terra na qual vivemos...”. Menocchio: “Eu gosto que se pregue para os homens viverem em paz, mas pregar o inferno, Paulo disse isso, Pedro disse aquilo, acho que é mercadoria, invenção de homens que sabem mais do que os outros [...]. Eu não acreditava que o paraíso existisse, porque não sabia onde cava”.