O Queijo e os Vermes

Carlo Ginzburg · Capítulo 12 de 62

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O Queijo e os Vermes

10. Um moleiro, um pintor, um bufão

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Que um moleiro como Menocchio tivesse chegado a formular ideias tão diversas das correntes, sem nenhuma in uência, pareceu improvável aos inquisidores. Perguntou-se às testemunhas se Menocchio “falara sério ou brincando ou se imitara alguém”; pediu-se a Menocchio que revelasse os nomes dos “companheiros”. Porém, em ambos os casos a resposta foi negativa. Menocchio, em particular, declarou resolutamente: “Senhor, nunca encontrei alguém que tivesse essas opiniões. As minhas opiniões saíram da minha própria cabeça”. Mas ao menos em parte estava mentindo. Em 1598, dom Ottavio Montereale (que, como se pode lembrar, havia sido o responsável indireto pela intervenção do Santo Ofício) disse ter ouvido que “esse tal de Menocchio teria aprendido suas heresias com um tal Nicola, pintor de Porcia”, quando este estivera em Montereale para pintar a casa de um senhor De Lazzari, cunhado de dom Ottavio. Ora, o nome de Nicola já aparecera no primeiro processo, provocando uma visível reação de embaraço em Menocchio. Antes, contara que o havia encontrado durante a quaresma e que o tinha ouvido dizer que de fato estava jejuando, mas “por medo” (Menocchio, ao contrário, alimentava-se com “um pouco de leite, queijo e alguns ovos”, atitude que justi cava pela fraqueza da sua constituição física). Pouco depois, contudo, começara a falar, como se divagasse, sobre um livro que Nicola possuía, desviando o assunto. Nicola, por sua vez, fora intimado pelo Santo Ofício, mas solto em seguida graças aos atestados de boa conduta assinados por dois religiosos de Porcia. No segundo processo, todavia, viera à tona a in uência exercida por um anônimo personagem sobre as opiniões de Menocchio. Durante o interrogatório de 19 de julho de 1599, ao inquisidor que lhe perguntara havia quanto tempo acreditava — baseado num conto do Decameron , como veremos — que qualquer homem poderia se salvar dentro de suas próprias leis e que, portanto, um turco fazia muito bem continuando a ser turco e não se convertendo ao cristianismo, Menocchio respondeu: “Há mais ou menos quinze ou dezesseis anos tenho essa opinião, quando comecei a pensar e o diabo me meteu tal ideia na cabeça”. “Com quem foi que começou a pensar?” — quis saber logo a seguir o inquisidor. Só depois de uma longa pausa ( post longam moram ) Menocchio disse: “Não sei”.

Menocchio, portanto, deve ter falado com alguém sobre questões religiosas quinze ou dezesseis anos antes — em 1583, provavelmente, porque no início do ano seguinte fora encarcerado e processado. São grandes as possibilidades de que se tratasse da mesma pessoa que havia emprestado a Menocchio o livro incriminado, o Decameron . Menocchio disse seu nome algumas semanas depois: Nicola de Melchiori. Além do nome, as datas (coincidência que escapou aos inquisidores) levam a identi car esse personagem com Nicola da Porcia: em 1584, fazia justamente um ano que Menocchio não o via.

Dom Ottavio Montereale estava bem informado. Menocchio deve ter de fato falado sobre questões religiosas com Nicola da Porcia. Não sabemos se ele chegou a fazer parte do grupo de artesãos daquele lugar, os quais, 25 anos antes, se reuniam para ler o Evangelho. Em todo caso, apesar das declarações favoráveis a ele, obtidas em 1584, era há muito tempo conhecido como “um grande herético”. Ao menos foi assim que o nobre pordenonense Fulvio Rorario o de niu, em 1571, referindo-se a um acontecimento antigo, que se dera havia oito ou dez anos. Nicola “contava que ele próprio tinha quebrado umas estatuetas usadas para a decoração de uma igrejinha, não muito distante de Porcia, dizendo que eram malfeitas, que eram [...] mercadorias [...] que não é preciso pôr imagens na igreja”. Associamos imediatamente tal declaração à áspera condenação das imagens sacras feita por Menocchio. Mas não fora só isso que ele aprendera com Nicola da Porcia.

“Eu sei”, disse Menocchio ao vigário-geral, “que [Nicola] tinha um livro que se chamava Zampollo , um bufão que morreu e foi para o inferno e com os demônios fazia bufonarias e, se me lembro bem, disse que era um compadre seu. Um dos demônios se encheu de simpatias pelo tal bufão, e seu compadre, sabendo disso, disse-lhe que era preciso ser sempre do contra. O tal demônio lhe respondeu: ‘Se você quiser ser sempre do contra, diga a verdade, diga sem respeitar nada, é preciso ser homem de bem até mesmo no inferno’. ” Ao vigário-geral esse discurso deve ter parecido um amontoado de bobagens: de imediato, dirigiu o discurso para coisas mais sérias — por exemplo, nunca a rmara que todos os homens vão para o inferno? —, abandonando assim uma pista importante. O livro emprestado por Nicola da Porcia alimentara Menocchio a ponto de ele ter assimilado e por muito tempo lembrado seus temas e expressões — embora por equívoco substituísse o nome do protagonista, Zampolo, pelo título, Il sogno dil Caravia .

No Sogno , o joalheiro veneziano Alessandro Caravia, ele próprio, e o famoso bufão Zampolo Liompardi, seu compadre, morto havia pouco tempo, muito velho, entravam em cena juntos.

 

Assemelhai-vos à Melancolia

pintada por um bom mestre pintor,

 

diz no início Zampolo a Caravia (o qual, na gravura que decora o frontispício, é representado pela gura da Melancolia de Dürer). Caravia está triste — vê ao seu redor um mundo cheio de injustiça e se lamenta. Zampolo o conforta, comentando que a verdadeira vida não se vive nesta terra.

 

Quão caro me seria saber novas

de alguém que se encontrasse no outro mundo,

 

exclama Caravia. Zampolo promete que tentará lhe aparecer depois de morto. Logo em seguida a promessa se cumpre: a maior parte das oitavas do poeminha descreve justamente o sonho do joalheiro, ao qual o amigo bufão conta sua viagem ao paraíso, onde conversa com são Pedro, e ao inferno, onde, através de inúmeras palhaçadas, faz amizade com o diabo Farfarello num primeiro momento e, depois, encontra-se com outro famoso bufão, Domenego Taiacalze. Este sugere a Zampolo um estratagema para conseguir aparecer a Caravia em cumprimento da promessa:

 

Creio que Farfarello te quer muito

e logo, acho, virá te visitar;

perguntará se sofres grande pena :

assim que o vires, nge um desconsolo

maior que aquele que te conviria;

pronto ele há de querer fazer-te agrado.

Então lhe contarás teu pensamento :

talvez ele te alegre o coração.

 

“Então eu ngi [...]”, conta Zampolo,

 

sofrer grande tormento :

e fui-me com ele sentar a um canto

antes que Farfarello aparecesse.

 

Mas o truque não dá certo e Farfarello o repreende:

 

Já descobri teu ngimento :

contra ti se subleva a minha mente,

por engenhares invenção que tal.

Prometi que as vontades te faria

cumpre manter promessa até no inferno.

 

Porém, mesmo assim o perdoa. Zampolo aparece para Caravia, que, vendo-o, recita uma oração, ajoelhado diante de um cruci xo.

A exortação de Farfarello para que se diga a verdade até no inferno, citada por Menocchio, decerto toca num dos temas fundamentais do Sogno : a polêmica contra a hipocrisia, em especial a dos frades. Saído da tipogra a em maio de 1541, enquanto em Ratisbona se desenrolavam as conversações que pareciam trazer a paz religiosa entre católicos e protestantes, o Sogno é de fato uma típica voz do evangelismo italiano. Os “ sgnief , berlef , cef e visi storti” dos bufões Zampolo e Taiacalze que, mesmo diante do tribunal de Belzebu, começam a dançar “mostrando a bunda” são acompanhados — e a mistura é bem carnavalesca — por um amplo e insistente discurso religioso. Taiacalze tece, abertamente, elogios a Lutero:

 

Certo Martinho Lutero lhe surgiu

que padres preza pouco, e frades menos,

e que é dos Alemães muito estimado;

de exigir o concílio não se cansa [...]

Este Martinho, pelo que se diz,

excele em toda sorte de doutrina :

mas o puro Evangelho não descura.

De muitos intrigou Lutero a mente.

Só Cristo nos perdoa, diz-nos um;

outro que Paulo III e que Clemente :

assim puxa cada um para o seu lado,

um diz verdade, outro mentira diz.

Querem todos que o concílio seja feito

só para esclarecer tanta heresia :

o quente sol derrete a neve fria,

tal como Deus as tristes fantasias...

 

A posição de Lutero, portanto, é vista como positiva, já que ele clama pelo concílio que trará de novo clareza doutrinal e repropõe o “puro Evangelho”:

 

Vi de mau grado sobrevir-me a morte,

compadre, por não ter-me esclarecido

as várias opiniões de toda espécie

e os males todos que no mundo reinam.

Quisera o homem rmar-se em sua fé,

não ser por frioleiras aturdido,

ater-se bem ao texto do Evangelho

sem pensar em Martinho quanto ao resto.

O que seja o “puro Evangelho” é explicado em seguida por Zampolo, são Pedro, Taiacalze. Acima de tudo, justi ca-se pela fé no sacrifício de Cristo:

 

A prima causa de o cristão salvar-se

é amar a Deus, só nele tendo fé.

A segunda, esperar que Cristo humano

redima com o seu sangue quem o crê.

Terceira, ter no peito caridade,

no Espírito Santo agir se quer mercê

do Deus único vivo em três pessoas.

Estas três causas salvam-te do inferno.

 

Nada de sutilezas teológicas, como as apregoadas pelos frades e que se tornaram moda também entre os incultos:

 

Muito ignaro, que passa por doutor

com só falar das santas Escrituras

em barbeiros, ferreiros, alfaiates,

teologizando sem qualquer medida,

levando o vulgo a uma porção de enganos;

a predestinação lhes dá pavor

assim como o juízo e o livre-arbítrio;

que a poeira do salitre os queime a todos.

A estes obreirinhos bastaria

crer no Credo e dizer o Padre Nosso

e não da fé fazer mil desatinos,

buscando coisas que jamais com tinta

foram escritas nem com pena a ada.

Pois os Evangelistas já mostraram

a via plana e certa de ir-se ao céu.

Não é mister, Zampolo , por sutil,

buscar pelos em ovo de galinha [...]

Oh quantos frades que, nada sabendo,

se comprazem em confundir o espírito

deste pobre diabo ou então daquele;

melhor fariam se pregassem o

puro Evangelho e se deixassem disso.

 

A clara contraposição entre uma religião reduzida a um núcleo essencial e as sutilezas teológicas nos traz de volta as a rmações de Menocchio — o qual, note-se, mesmo tendo lido nesse trecho a palavra predestinação , disse que não conhecia seu signi cado. Mais claro ainda é o choque entre a condenação das “leis e mandamentos da Igreja” por serem “mercadorias” (termo usado, como já foi visto, também por Nicola da Porcia) e o ataque a padres e frades que no Sogno é feito pela boca de são Pedro:

 

Mercado fazem de enterrar os mortos,

como fardos de lã ou de pimenta :

nestas coisas estão sempre avisados

e não querem defunto receber

sem antes ter na mão todo o dinheiro;

depois vão-se a comer e beber, rindo

de quem arcou com toda essa despesa,

vão gozar boa cama e mesa gorda.

Mercado de importância inda maior

fazem eles da Igreja que foi minha,

tirando para si toda a abundância

sem importar-lhes quem sofra carestia.

Isso, a meu ver, usança é das piores,

fazer da minha Igreja mercancia

o beato quem mais tenha benefícios

dizendo pouca missa e raro ofício.

 

A implícita negação do purgatório e, portanto, da utilidade da missa pelos mortos; a condenação do uso do latim pelos padres e frades — “propositadamente fazem todas as cerimônias / só falando em vulgar e não em latim”; a recusa das “igrejas suntuosas”; indicações precisas sobre o culto dos santos:

 

Honrar os santos cumpre, lho meu,

de Cristo eles realizam os preceitos [...]

Quem como eles zer, Deus determina

que no seu m ascenda ao céu de eleitos :

porém, não lhes dispensa a sua graça,

quem nisso crê tem uma ideia falsa.

 

e a con ssão:

 

Deve o cristão el se confessar

com mente e coração toda hora a Deus

e não uma só vez no nal do ano,

só para demonstrar não ser judeu.

 

—, são todos motivos recorrentes, como vimos, nas con ssões de Menocchio. E, entretanto, ele lera o Sogno mais de quarenta anos após a sua publicação, numa situação completamente diversa. O concílio que deveria ter esclarecido o con ito entre “papistas” e Lutero — con ito que Caravia comparava ao existente entre as duas facções friulanas dos Strumieri e dos Zamberlani — havia acontecido, mas como um concílio de condenação e não de concórdia. Para homens como Caravia, a Igreja delineada pelos decretos tridentinos não era com certeza a Igreja “endireitada” e inspirada no “puro Evangelho” que ele sonhara. Menocchio também deve ter lido o Sogno como se fosse um livro ligado, por diversos pontos, a uma era muito distante. É claro que as polêmicas anticlericais e antiteológicas continuavam a soar como naturais pelos motivos já vistos; porém, os elementos mais radicais da religião de Menocchio iam muito além do Sogno . Neste não se encontrava nenhuma pista de negação da divindade de Cristo, nem de recusa da Escritura na sua totalidade, nem a condenação do batismo, que é de nido como “mercadoria”, nem de exaltação indiscriminada da tolerância. Teria sido então Nicola da Porcia quem falara sobre essas coisas com Menocchio? No que toca à tolerância, parece que sim — se a identi cação de Nicola de Melchiori com Nicola da Porcia for correta. Todavia, todos os testemunhos dos habitantes de Montereale indicam que as ideias de Menocchio, em sua grande maioria, haviam sido formadas num período muito anterior à data do primeiro processo. É verdade que não sabemos qual a data do início das relações entre ele e Nicola, mas a obstinação de Menocchio demonstra que não estamos diante de alguém que recebesse passivamente ideias alheias.